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A centralidade da didática no projeto fundador da revista Sociologia

The centrality of didactics in the founding project of the journal Sociologia

La centralidad de la didáctica en el proyecto fundacional de la revista Sociologia

Resumo

Fundada em 1939, a revista Sociologia consagrou-se como veículo de difusão de teorias e pesquisas das Ciências Sociais, tendo sido o primeiro e, por muito tempo, o mais duradouro periódico da área no Brasil. Aspecto silenciado na história do pensamento sociológico e pouco explorado, contemporaneamente, nos estudos sobre o ensino de Sociologia, a preocupação com a didática das Ciências Sociais esteve no cerne do projeto fundador do periódico. Qual foi a influência de seus idealizadores na conformação do projeto original da revista? Como se caracterizava a proposta didática? Qual o perfil dos primeiros colaboradores? Essas são questões abordadas neste trabalho, o qual compilou os textos publicados entre 1939 e 1950 para, recorrendo à análise de conteúdo, caracterizar a fase didática da revista.

Palavras-chave:
revista científica; história do ensino de sociologia; pensamento social brasileiro

Abstract

Founded in 1939, the journal Sociologia established itself as a vehicle for the dissemination of theories and research in the social sciences, having been the first and, for a long time, the longest-lasting journal in the area in Brazil. A silenced aspect in the history of sociological thought and little explored, contemporaneously, in studies on the teaching of sociology, the concern with the didactics of the social sciences was at the heart of the journal's founding project. What was the influence of its creators in shaping the journal’s original project? What were the characteristics of the didactic proposal? What is the profile of the first collaborators? These are questions addressed in this work that compiled the texts published between 1939 and 1950 to, using content analysis, characterize the didactic phase of the magazine.

Keywords:
scientific journal; history of sociology teaching; Brazilian social thought

Resumen

Fundada en 1939, la revista Sociologia se consolidó como un vehículo de divulgación de teorías e investigaciones en ciencias sociales, siendo la primera y, por mucho tiempo, la más longeva del área en Brasil. Aspecto silenciado en la historia del pensamiento sociológico y poco explorado, contemporáneamente, en los estudios sobre la enseñanza de la sociología, la preocupación por la didáctica de las ciencias sociales estuvo en el corazón del proyecto fundacional de la revista. ¿Cuál fue la influencia de sus creadores en la configuración del proyecto original de la revista? ¿Cuál fueron las características de la propuesta didáctica? ¿Cuál es el perfil de los primeros colaboradores? Son preguntas que se abordan en este trabajo que recopiló los textos publicados entre 1939 y 1950 para, mediante el análisis de contenido, caracterizar la fase didáctica de la revista.

Palabras clave:
revista científica; historia de la enseñanza de la sociologia; pensamiento social brasileño

Introdução

Este artigo discute a centralidade da didática das Ciências Sociais no projeto fundador de Sociologia, revista didática e científica que foi a público pela primeira vez no final da década de 1930. Se, como sugere Sérgio Miceli, as revistas acadêmicas expressam o estado de um campo científico, veiculando “[...] hipóteses, teses, resultados, explicações, fontes, evidências de toda ordem, mas também dando vazão aos projetos, anseios e virtualidades [...]” de uma determinada época (Miceli, 2001, p. 15), os volumes de Sociologia compõem uma fonte documental ímpar para os estudos sobre a história do ensino das Ciências Sociais no Brasil. Isso acontece porque evidenciam os esforços e dificuldades de professores e pesquisadores no processo de formação e de consolidação das Ciências Sociais como ciência, profissão e disciplina escolar.

Caracterizada por Antonio Candido (2006Candido, A. (2006). A sociologia no Brasil. Tempo Social, 18(1), 271-301., p. 287) como “[...] primeira e por muito tempo única publicação especializada no ramo [...]”, Sociologia foi inúmeras vezes citada nos estudos sobre a formação do pensamento sociológico brasileiro (Candido, 2006; Jackson, 2004Jackson, L. (2004). A Sociologia paulista nas revistas especializadas (1940-1965). Tempo Social, 16(1), 263-283.; Limongi, 1987Limongi, F. (1987). Revista Sociologia: a ELSP e o desenvolvimento da sociologia em São Paulo. Caderno Idesp, (1).). Nela Florestan Fernandes estreou publicando artigos científicos (Fernandes, 1942Fernandes, F. (1942). Folklore e grupos infantis. Sociologia, 4(4)., 1943a, 1943b, 1944) e o próprio Antonio Candido viu impresso seu primeiro trabalho de análise sociológica (Candido, 1947; Jackson, 2004), isso sem mencionar centenas de trabalhos de cientistas sociais atuantes em instituições nacionais e internacionais (Neuhold, 2014Neuhold, R. R. (2014). Sociologia do ensino de sociologia: os debates acadêmicos sobre a constituição de uma disciplina escolar (Doutorado em Educação). Universidade de São Paulo, São Paulo. doi.org/10.11606/T.48.2014.tde-17112014-113744
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). A despeito desse papel ocupado pelo periódico, pouca atenção foi dedicada às intenções originais declaradamente didáticas inscritas no seu subtítulo - Sociologia: Revista Didática e Científica - e ao fato de ter sido concebida e dirigida ao longo de quase uma década por dois professores secundaristas - Romano Barreto e Emílio Willems -, ainda que um deles tenha seguido carreira no magistério superior.

Quando do lançamento do periódico, em 1939, a Sociologia figurava como disciplina de oferta obrigatória na escola profissional de formação de professores (Decreto nº 2.940, 1929), também nomeada como escola normal, e no ensino secundário, nos termos da então vigente Reforma Francisco Campos (Decreto nº 19.890, 1931; Decreto nº 21.241, 1932)1 1 Documentos legais anteriores previam a inserção da Sociologia no currículo escolar, caso da Reforma Benjamin Constant (Decreto nº 981, 1890) e de experiências regionais dela decorrentes, como em Sergipe (Alves & Costa, 2006) e no Amazonas (Bodart & Cigales, 2021), além da Reforma João Luiz Alves / Rocha Vaz (Decreto nº 16.782 A, 1925). Foi com a Reforma Francisco Campos, contudo, que a Sociologia ganhou projeção nacional, sendo implementada em escolas de diferentes unidades federativas. . Ao mesmo tempo, graduavam-se as primeiras turmas dos recém-criados cursos de Ciências Sociais (Peixoto & Simões, 2003Peixoto, F., & Simões, J. (2003). A Revista de Antropologia e as Ciências Sociais em São Paulo: notas sobre uma cena e alguns debates. Revista de Antropologia, 46(2), 383-409.). Aquele cenário justificava a conjunção de esforços para subsidiar o ensino das Ciências Sociais não apenas na escola, mas também no ensino superior, então com um rarefeito acervo de materiais em língua portuguesa (Pierson, 1941Pierson, D. (1941). O processo de interação: conceito básico nas ciências sociais. Sociologia, 3(2).) e com não menos desafios relacionados à docência (Willems, 1987Willems, E. (1987). Depoimentos de Emílio Willems. In M. Corrêa. História da antropologia no Brasil (1930-1960). Testemunhos: Emílio Willems, Donald Pierson (p. 117-127). São Paulo, SP: Vértice. ; Fernandes, 2006Fernandes, F. (2006). Florestan Fernandes. In M. R. Loureiro, E. R. Bastos, & J. M. R. Rego. Conversas com sociólogos brasileiros (p. 13-48). São Paulo, SP: Ed. 34.). Não à toa, a ambição inicial do periódico ter sido justamente a de se transformar em um “[...] centro de convergência das atividades escolares no que diz respeito à Sociologia” (Sociologia, 1939a, p. 6), fornecendo aportes teóricos e metodológicos para docentes e estudantes. Mais do que uma publicação impressa, Sociologia colocava-se o desafio de articular a comunidade escolar e acadêmica em torno de questões referentes à didática das Ciências Sociais.

Perfazendo 24 volumes e 96 números, levantados nos acervos de bibliotecas da Universidade de São Paulo2 2 Acervo físico das bibliotecas da Faculdade de Educação e da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. e da Fundação Escola de Sociologia e Política, este trabalho recorreu à pesquisa documental e a técnicas da análise de conteúdo (Bardin, 2022Bardin, L. (2022). Análise de conteúdo. Lisboa, PT: Edições 70.) para mapear as preocupações com o ensino das Ciências Sociais impressas nas páginas de Sociologia nos seus primeiros anos de circulação. Ao todo, identificou 159 textos com declarada finalidade didática, abrangendo desde planos de aula e pesquisa, relatórios, resenhas, até artigos sobre o ensino das Ciências Sociais ou sobre os conteúdos presentes nos programas oficiais do ensino secundário e das escolas normais. A leitura flutuante, para utilizar o termo de Bardin (2022) ao sistematizar as etapas da análise de conteúdo, permitiu delinear duas fases de Sociologia. Diferentemente de outras divisões referentes à história do periódico a partir da mudança de direção (Limongi, 1987Limongi, F. (1987). Revista Sociologia: a ELSP e o desenvolvimento da sociologia em São Paulo. Caderno Idesp, (1).) e da vinculação à Escola Livre de Sociologia e Política (ESP) (Jackson, 2004Jackson, L. (2004). A Sociologia paulista nas revistas especializadas (1940-1965). Tempo Social, 16(1), 263-283.), empregou-se como critério, neste trabalho, o título impresso nas capas da revista para circunscrevê-la em dois momentos: a fase didática ou primeira fase, iniciando no lançamento do periódico, em 1939, e se estendendo até 1950; e a segunda fase, dedicada nomeadamente à teoria e à pesquisa, sob direção da Escola Livre de Sociologia e Política, compreendendo o segundo número de 1950 até 1966 (de forma contínua), aos quais poderiam ser somados os números extraordinários publicados entre 1979 e 1981. A esses esforços se somaram pesquisas documentais e bibliográficas sobre a trajetória acadêmica e profissional dos autores dos textos, às vezes na própria revista e, na ausência de informações, em outras publicações. Depoimentos e textos bibliográficos foram particularmente relevantes nesse momento, possibilitando distribuir os artigos por origem institucional e geográfica e pelo nível de ensino no qual atuavam seus autores. Subsidiou, por fim, a terceira etapa da análise de conteúdos assentada na interpretação dos resultados.

Ver-se-á que o silenciamento da proposta original de Sociologia não tardou e não foi ocasional. Bourdieu (2010Bourdieu, P. (2010). Método científico e hierarquia social dos objetos. In M. A. Nogueira, & A. Catani (Org.). Escritos de educação (p. 33-38). São Paulo, SP: Vozes.) já incluía questões relacionadas ao ensino entre aqueles objetos de pesquisa ‘ilegítimos’ para o campo científico, não reconhecidos como parte de projetos investigativos ou, quando abordados, tratados de forma ‘viciada’ ou ‘envergonhada’. A invisibilidade das questões didáticas poderia ser associada à própria hierarquização entre, em um nível, atividades de pesquisa e formação de bacharéis, e, em outro e em posição de subordinação, atividades de ensino e formação de licenciados. Ainda assim, em algumas circunstâncias, alguns sujeitos tomam para si a tarefa científica e política de colocar o conhecimento prático que circula nas escolas à disposição da ciência, permitindo que o meio acadêmico, de alguma forma, se aproprie dele (Bourdieu, 1991). Por isso, este trabalho questiona qual foi a influência dos diretores do periódico na conformação do projeto original da revista, como a proposta didática se apresentava e quem eram seus colaboradores, especialmente os mais frequentes.

O artigo inicia discutindo o projeto fundador de Sociologia, atravessado por questões associadas ao ensino das Ciências Sociais. Na sequência, analisa a fase didática do periódico, caracterizando-a, identificando textos e delineando o perfil dos autores. Por fim, o trabalho aponta as dificuldades enfrentadas pelos editores da revista, não somente para sustentá-la financeiramente, como também para mantê-la fiel aos seus propósitos originais.

O projeto fundador: revista didática e científica

Com quatro números anuais organizados em volume único e publicados de forma ininterrupta entre 1939 e 1966, a revista Sociologia foi registrada em cartório na cidade de São Paulo, em 1939, sob direção e responsabilidade do professor secundarista Antenor Romano Barreto. Para a ‘tarefa pesada’ de dirigir a revista (Barreto, 1954Barreto, A. R. (1954). A revista Sociologia. Sociologia, 16(1), 127-135.), Barreto convidou Emílio Willems, cientista social alemão radicado no Brasil que acumulou alguns anos de docência no ensino secundário antes de se tornar professor da Universidade de São Paulo. Ambos responderam, ao longo de quase uma década, pela direção do periódico e por parte significativa dos materiais nele impressos, tendo Olympio Cantão, funcionário dos Correios e Telégrafos, como diretor comercial.

A proposta original de Sociologia encontrava-se estreitamente relacionada à trajetória acadêmica e profissional de seus fundadores. Naquele ano de 1939, Romano Barreto lecionava no Colégio Universitário anexo à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Era professor efetivo de Sociologia do curso complementar do ensino secundário, destinado aos candidatos à Faculdade de Direito e à seção de Filosofia, Ciências Sociais e Políticas, Geografia e História da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Segundo Antonio Candido (1993Candido, A. (1993). Entrevista com A. Candido [Entrevista concedida a Gilberto Velho e Yonne Leite]. Brasília, DF: Ibict. Canal Ciência. Portal de Divulgação Científica e Tecnológica.), antigo aluno do colégio, os professores formavam um ‘corpo especial’: não eram os mesmos dos cursos da universidade, mas ministravam aulas nas próprias unidades da USP. Emílio Willems, por seu turno, também ministrava aulas no ensino secundário e na escola normal, ofício ao qual se dedicou durante uma década, entre 1931 (quando chegou ao Brasil) até 1941 (quando foi nomeado professor de Antropologia da USP). Apesar de não falar com entusiasmo sobre sua carreira no ensino secundário (Willems, 1987; Neuhold, 2021Neuhold, R. R. (2021). Por que debater o ensino de sociologia? Perspectivas de professores e intelectuais no Brasil das décadas de 1930 a 1950. #Tear: Revista de Educação, Ciência e Tecnologia, 10(2). doi.org/10.35819/tear.v10.n2.a5423
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), Willems dividia suas atividades no ensino superior como assistente no Instituto de Educação com o magistério no Liceu Nacional Rio Branco, escola particular de São Paulo. Esteve, então, envolvido com estudos na área da Sociologia da Educação, não obstante, desde sua chegada na cidade catarinense de Brusque, manifestasse interesse em realizar pesquisas de campo para estudar ‘contatos culturais’ (Willems, 1987). Em São Paulo, Willems iniciou suas atividades na USP a convite de Fernando de Azevedo, lecionando Sociologia. Em 1941, assumiu a disciplina de Antropologia que, até então oferecida de forma intermitente, tornou-se obrigatória para os cursos de Ciências Sociais, História e Geografia (Pereira, 1994Pereira, J. (1994). Emilio Willems e Egon Schaden na história da Antropologia. Estudos Avançados, 8(22), 249-253.). Sob sua influência, a área de Antropologia transformou-se em uma especialização do curso de Ciências Sociais (ao lado da Sociologia e da Ciência Política) e, em 1948, em uma cadeira.

Quanto ao formato, com alguma variação e exceção feita ao primeiro volume, Sociologia constituía-se por cinco seções, nem todas regulares: ‘Notas sociológicas’ (assinada por Donald Pierson), ‘Seção etnológica’ (editada por Herbert Baldus), ‘Seção didática’, ‘Casuística sociológica’ e ‘Fatos e livros’. Por sua vez, o volume inaugural reuniu nos seus quatro números as seções ‘Colégio Universitário: cursos complementares’ e ‘Escolas normais’, ambas dissertando sobre cada um dos tópicos dos programas oficiais de ensino.

No número de estreia, os diretores de Sociologia anunciaram sua proposta: publicar “[...] matéria não só dos dois anos do curso de formação profissional do professor das escolas normais, como do curso complementar e Colégio Universitário [da USP], contando para isso com a colaboração dos professores de Sociologia” (Sociologia, 1939a, p. 6). Declaravam que o periódico não era “[...] a primeira revista de caráter científico entre as que aparecem em São Paulo [...]”, mas que seria “[...] a primeira revista didática destinada aos cursos secundários, profissional e superior” (Sociologia, 1939a, p. 5). Propunham ainda inovar no formato do material colocado à disposição de estudantes e professores. Se à época já havia um conjunto de livros didáticos de Sociologia em circulação (Meucci, 2007Meucci, S. (2007). Os primeiros manuais didáticos de Sociologia no Brasil. Estudos de Sociologia, 6(10). https://periodicos.fclar.unesp.br/estudos/article/view/184
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; Bodart & Marchiori, 2021Bodart, C., & Marchiori, C. C. R. (2021). Fragmentos da história do ensino de sociologia no Brasil. Revista Brasileira De História Da Educação, 21(1). https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/rbhe/article/view/54770
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), a revista levaria a Sociologia a quem quisesse conhecê-la, em um formato mais flexível que o do livro, podendo ser constantemente aperfeiçoado e renovado. Na carta ‘Aos nossos leitores’, Willems e Barreto explicitavam a linha editorial:

Sociologia é uma revista e compêndio a um tempo. Entendendo que uma ciência tão ligada à realidade social e à necessidade de observação e investigação incessantes não pode ser condensada apenas em livros, resolvemos dar-lhe uma apresentação mais plástica, suscetível de ser renovada e aperfeiçoada continuamente. Além de proporcionar ao estudante o contato com a matéria dos programas oficiais, Sociologia pretende incentivar, mediante suas seções de consultas e pesquisas, o ‘trabalho de campo’, a observação direta e a investigação de fatos concretos para lançar, desse modo, os fundamentos de uma Sociologia brasileira, isto é, uma Sociologia das realidades sociais do nosso país (A Direção, 1939, p. 7, grifo do autor).

Na estreia da seção ‘Notas sociológicas’ em Sociologia, Donald Pierson reforçava a expectativa de reunir materiais sociológicos que seriam “[...] intelectualmente um estímulo e pedagogicamente úteis”:

Por gentileza dos diretores de Sociologia, estou apresentando em cada número da revista e sob a epígrafe acima [‘Notas sociológicas’], material sociológico que, espero, será intelectualmente um estímulo e pedagogicamente útil. Às vezes, publicarei artigos [...] escritos por mim. Outras vezes, e quiçá com mais frequência, apresentarei traduções do que considero ser importante contribuição ao conhecimento, ponto de vista, método ou técnica em Sociologia (Pierson, 1941Pierson, D. (1941). O processo de interação: conceito básico nas ciências sociais. Sociologia, 3(2)., p. 106, grifo nosso).

A proposta didática de Sociologia não passou despercebida, ao menos para os leitores estrangeiros. No mesmo ano do lançamento, o argentino Alfredo Poviña, professor de Sociologia da Universidade Nacional de Córdoba, citou-a em uma conferência no seu país de origem, dando destaque à finalidade pedagógica:

Willems juntamente com Romano Barreto iniciaram este ano a publicação de uma revista didática e científica, da qual já apareceu o terceiro número, intitulada Sociologia, destinada não somente a tratar de questões científicas, como também de matéria dos cursos de ensino secundário, profissional e superior, desde que a Sociologia é obrigatória nos cursos complementares do Colégio Universitário e escolas normais (Poviña, 1939Poviña, A. (1939). Os estudos sociológicos no Brasil. Sociologia, 1(4)., p. 57).

José Medina Echavarría, intelectual espanhol que ocupou a primeira cátedra de Sociologia da Universidade Nacional de México (Unam) e construiu sua trajetória profissional em diferentes instituições latino-americanas, incluindo a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), também fez menção à proposta didática da revista. Em artigo da Revista Mexicana de Sociologia, afirmava que Sociologia possuía “[...] caracteres muito originais [...]” associados justamente à sua “[...] finalidade pedagógica de iniciação e guia, ao serviço das gerações escolares obrigadas a seguir cursos de Sociologia de acordo com os novos programas oficiais” (Echavarría, 1940, p. 401). Além do caráter pedagógico, Sociologia cumpria duas outras funções: divulgar tanto investigação sociológica sobre a realidade brasileira quanto bibliografias, notas críticas, correspondências, dentre outros materiais da área das Ciências Sociais. E completava:

A revista preenche a primeira função [finalidade pedagógica] versando nos números sucessivos os temas dos programas oficiais do ‘Colégio Universitário’ e das escolas normais. A direção dada à revista manifesta que seus autores têm um conhecimento absolutamente em dia do estado da ciência social (não só da Sociologia no sentido estrito), e que possuem uma excelente capacidade de síntese e de seleção de seus melhores resultados. Deve destacar-se o desenvolvimento de um programa do segundo curso das escolas normais, por tratar-se de uma matéria - Sociologia da Educação - de estudo pouco frequente na América Latina. Esse trabalho se completa no primeiro ano da revista com um suplemento sobre o ensino da Sociologia [intitulado] ‘Como se ensina Sociologia’ (Echavarría, 1940Echavarría, J. (1940). Sociologia, Revista Didática e Científica. Sociologia, 2(4), 399-402., p. 401, grifo do autor).

A carta ao leitor evidenciava que a proposta didática de Sociologia envolvia a) a interlocução com estudantes e professores, b) a discussão de assuntos presentes nos programas de ensino das escolas normais e do ensino secundário, c) o foco na pesquisa empírica e d) a produção colaborativa com professores do ensino secundário, normal e superior. Convém detalhar cada uma dessas ações nos volumes do periódico.

A interlocução com estudantes e professores se efetivava pelo próprio conteúdo e formato de Sociologia. No primeiro número, seus diretores anunciaram que o periódico pretendia “[...] sair ao encontro dos que desejam conhecer seriamente essa disciplina e, nesse sentido, propõe-se como programa acompanhar o estudante, proporcionando-lhe a ajuda necessária para o enriquecimento e organização de sua cultura” (Sociologia, 1939a, p. 5). A proposta vinha atrelada ao reconhecimento da novidade da disciplina nos cursos complementares do ensino secundário e nas escolas normais e dos desafios dela decorrente, a começar pelos materiais de estudo disponíveis e pela escassez de tempo do estudante diante de tantas disciplinas:

[...] Disciplina nova no programa dos vários cursos, principalmente no curso complementar e no de formação profissional do professor das escolas normais, a Sociologia não pode ser estudada por meio de apostilas, nem tão pouco de alguns compêndios. Ciência nova, o estudioso de Sociologia terá de percorrer grande parte da literatura sociológica; o tempo, entretanto, não lhe sobrará para isso, dado que outras disciplinas igualmente devam ser estudadas, dentro do tempo limitado do curso a seguir (Sociologia, 1939a, p. 5).

Já a discussão de assuntos presentes nos programas de ensino das escolas normais e do ensino secundário ocorreria especialmente nas seções ‘Colégio Universitário: cursos complementares’ e ‘Escolas normais’, sendo complementadas por artigos, resenhas, excertos e outros materiais impressos na revista. Dos 44 tópicos do programa dos cursos complementares, 15 foram esmiuçados integralmente nos três primeiros números de Sociologia lançados em 1939. No número 1, por exemplo, os três primeiros tópicos do programa ocuparam 28 páginas, na forma de um artigo acadêmico que iniciava com a apresentação dos conceitos e mobilizava a literatura para discuti-los a partir de diferentes vertentes. O sumário listava os tópicos abordados:

[...] Colégio Universitário e cursos complementares: matéria

  1. Sociologia: conceito e definição. A Sociologia no quadro geral dos conhecimentos humanos

  2. Objeto da Sociologia. Fato social: conceituação e definição. Classificação dos fatos sociais

  3. Esboço histórico da Sociologia, seus antecedentes. Desenvolvimento da Sociologia em França, na Inglaterra e na Alemanha. A Sociologia nos E.U.A. Literatura Matéria do 1º ano […] (Sociologia, 1939a).

Ainda que não estivessem assinados, a autoria dos textos muito provavelmente poderia ser atribuída a Emílio Willems e a Romano Barreto, que responderam pela maior parte dos textos assinados no periódico na sua fase didática. No caso do programa das escolas normais, os tópicos publicados no terceiro número de 1939 continham a assinatura de José Querino Ribeiro, colaborador da revista desde a edição inaugural. O quarto número de 1939 seguiu detalhando o programa das escolas normais, mas, no caso dos cursos complementares do ensino secundário, reuniu conteúdos para os exames vestibulares, prova que selecionava os estudantes para o ensino superior.

Convém sublinhar que Barreto, Willems e Querino Ribeiro, dentre outros autores, não se limitaram a detalhar os tópicos dos programas oficiais, tendo também comentado cada um deles, fosse para criticá-los, fosse para propor estratégias de ensino. Por um lado, as críticas aos programas oficiais veiculadas na revista Sociologia versaram sobre aspectos como a) seu formato demasiadamente extenso diante do pouco tempo para cumpri-lo (Willems, 1940d; Sociologia, 1939c), b) não terem sido elaborados por cientistas sociais (Costa Pinto & Carneiro, 1955Costa Pinto, L., & Carneiro, E. (1955). As ciências sociais no Brasil. Rio de Janeiro,RJ: Capes.), c) o desconhecimento do perfil dos alunos do ensino secundário, supondo que tinham saberes, habilidades e competências que não possuíam (Willems, 1940d), d) a abordagem pouco coerente com a concepção de Sociologia como ciência (Willems, 1939a), centrando na história da disciplina e na exposição de autores e teorias (Pierson, 1942Pierson, D. (1942). Comportamento coletivo. Sociologia, 4(3).; Willems, 1939a) em uma perspectiva literária e não científica (Willems, 1939a). Por outro lado, não deixaram de indicar estratégias para enfrentar as condições de ensino vigentes. Assim, por exemplo, o tópico sobre ‘origens sociais’ do Colégio Universitário iniciava com a orientação para a produção de fichas como estratégia para lidar com um programa extenso a ser vencido em curto espaço de tempo: “[...] Na impossibilidade de desenvolver, em um ano só, o ‘programa integral’ que consiste em 44 pontos bastante complexos e heterogêneos, daremos uma parte da matéria em formas de ‘fichas’ com indicações básicas” (Sociologia, 1939c, p. 13, nota de rodapé, grifo do autor). Havia ainda orientações para a comparação de um ponto do programa com os demais ou artigos da revista, bem como com outras obras de referência.

Em relação ao foco na pesquisa, esta esteve concatenada à ‘mentalidade empírica’ em voga no país (Candido, 2006Candido, A. (2006). A sociologia no Brasil. Tempo Social, 18(1), 271-301.) e aos estudos de comunidade tão praticados na Escola Livre de Sociologia e Política sob influência da escola sociológica de Chicago. Aliás, muitos trabalhos impressos em Sociologia eram decorrentes de estudos de comunidade, assinados inclusive por Emílio Willems e outros autores como Donald Pierson e Oracy Nogueira3 3 Donald Pierson havia defendido seu doutorado na Universidade de Chicago e concebia a pesquisa empírica como o marco de passagem entre a Filosofia Social e a Sociologia científica (Limongi, 2001a). Emílio Willems, embora não fosse formado por Chicago, desenvolveu muitos de seus trabalhos inspirados naquela escola. Oracy Nogueira cursou o doutorado na Universidade de Chicago entre 1945 e 1947 (frequentando disciplinas com Everett Hughes, W. L. Warner, Robert Redfield, Louis Wirth), não obstante tenha retornado ao Brasil para a redação da tese e, em 1952, quando voltava aos Estados Unidos para defendê-la, teve seu visto negado por participar do Partido Comunista Brasileiro. . Entendia-se que o valor de qualquer afirmação relacionada ao social dependeria do seu grau de correspondência com a realidade verificada (Pierson, 1987). José Querino Ribeiro, em mais de uma ocasião, realçou o papel da pesquisa empírica nas aulas de Sociologia nas escolas normais objetivando “[...] reunir material numeroso e diverso para tirar a feição puramente livresca que as aulas de Sociologia costumam ter, com grave prejuízo do seu objetivo capital - o contato com as realidades a fim de obter as vantagens da sua compreensão” (Ribeiro, 1941a, p. 20).

Por fim, a produção colaborativa com professores do ensino secundário, normal e superior apresentava-se como uma das características mais originais de Sociologia. Emprestando de Antonio Nóvoa (1999Nóvoa, A. (1999). Os professores na virada do milênio: do excesso dos discursos à pobreza das práticas. Educação e Pesquisa, 25 (1), 11-20. doi.org/10.1590/S1517-97021999000100002
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) algumas expressões que remetem à formação de professores e ao associativismo docente, seria possível sugerir que Sociologia propunha-se a criar um espaço de reflexão sobre a experiência e de partilha de saberes profissionais, consolidando práticas de colaboração inter pares. Exemplo disso estaria na proposta do ‘Suplemento’, produção colaborativa entre professores dos diferentes níveis de ensino e estudantes, compilando textos de variados gêneros (relatórios, planos de aula e pesquisa, observações, exemplos didáticos, produções dos estudantes, sugestões etc.) com o objetivo de fornecer “[...] subsídios para a didática da Sociologia” (A Direção, 1939, p. 7-8). No terceiro número, o ‘Suplemento’ foi a público, com uma carta de apresentação e a repetição de um pedido para envio de colaborações:

Consoante nossa promessa, fazemos circular, com o presente número, o Suplemento que contém subsídios para a didática da Sociologia.

Ainda uma vez lançamos um apelo a todos os mestres que se dedicam ao ensino da Sociologia, para que nos remetam relatórios acerca de suas experiências didáticas, planos e resumos de aulas sobre determinados assuntos dos programas oficiais, observações que possam servir de exemplos didáticos, trabalhos de alunos, sugestões acerca da organização de pesquisas, planos detalhados de investigação etc. (A Direção, 1939, p. 7-8).

Em 1940, os sumários dos dois primeiros números de Sociologia iniciavam com a inscrição: ‘Subsídios para o estudo da Sociologia nas escolas normais, Colégio Universitário e cursos complementares’. Os artigos abordavam tanto conceitos das Ciências Sociais quanto buscavam contextualizar e delimitar o escopo de atuação da Sociologia, tratando, por exemplo, da especificidade dos seus objetos e teorias (Pierson, 1940Pierson, D. (1940). Disciplinas com as quais a Sociologia se confunde. Sociologia, 2(2).) e da história da disciplina (Barreto, 1940Barreto, A. R. (1940). Esboço histórico da Sociologia. Sociologia, 2(1).; Bastide, 1940Bastide, R. (1940). A Sociologia de Cournot. Sociologia, 2(1).; Machado, 1940Machado, L. G. (1940). Sociologia argentina. Sociologia, 2(1).) em diferentes países. Cada artigo continha nota de rodapé indicando a qual ponto dos programas oficiais das escolas normais e do ensino secundário se relacionavam, explorando especialmente tópicos que não haviam sido abordados nas seções ‘Colégio Universitário: cursos complementares’ e ‘Escolas normais’. Por exemplo, a nota de rodapé ao título do artigo ‘As sociedades ou grupos sociais’, de Emílio Willems, informava: “Ponto n. 3 do programa das escolas normais (1º ano). Pontos n. XXII, XXIV, XXVIII do programa oficial dos cursos complementares [...]” (Willems, 1940a, p. 7); a nota de rodapé ao texto “A Sociologia em França: A Sociologia de Cournot”, de Roger Bastide, indicava: “Ponto n. 3 do programa oficial” (Bastide, 1940, p. 43).

Colaborações e perfil dos autores

No total, foram identificados em Sociologia 159 trabalhos com declarada finalidade didática ou focados na reflexão sobre o ensino de Sociologia publicados entre 1939 e 1950. Essa somatória abarca todos os textos publicados na revista em 1939 e nos dois primeiros volumes de 1940, pois a própria edição denominava-se inteiramente comprometida em fornecer subsídios para o estudo da Sociologia; nos anos seguintes, foram selecionados somente os trabalhos que diziam respeito explicitamente ao ensino das Ciências Sociais. Os 159 trabalhos compreendiam artigos sobre os tópicos dos programas oficiais (do Colégio Universitário da USP e das escolas normais paulistas) (32%), com temáticas gerais (mas articuladas aos tópicos dos programas oficiais) (13%) ou centrados no ensino das Ciências Sociais (13%). Incluíam, também, resenhas e resumos (13%), comentários sobre obras e eventos (13,3%), excertos de textos (6%), notícias e chamadas para participação em concursos de pesquisa promovidos pela revista (6%) e planos de aula ou pesquisa (5%) (Tabela 1).

Tabela 1
Trabalhos com finalidade didática ou focados na reflexão sobre o ensino de Ciências Sociais publicados na revista Sociologia, segundo gênero dos textos (1939-1950)

Dos 159 trabalhos, 70 são assinados4 4 Inclui o ‘Plano para uma investigação geral da estrutura e organização social das zonas cafeeiras’ (Barreto & Willems, 1939), atribuindo autoria a Barreto e Willems. Esse plano de investigação foi publicado no primeiro volume de Sociologia (v. 1, n. 2, 1939, p. 94-101) sem assinatura e só foi possível identificar sua autoria por meio do depoimento de Barreto (1954, p. 5, nota). O texto se divide em duas partes - organização das zonas cafeeiras e influência da economia cafeeira sobre a formação da sociedade paulista - indicando detalhadamente as etapas de uma pesquisa que envolvia um estudo monográfico (mapa, estrutura e organização, cultura material, composição da população) e um estudo pormenorizado dos “grupos parciais” (territoriais, políticos, consanguíneos, econômicos, educacionais, étnico-raciais, recreativos), entre outras ações. . Os demais distribuem-se entre textos sem assinatura (78 no total, incluindo artigos, chamadas, notícias, resenhas etc.) e excertos de trabalhos de autores variados. Assinam os 70 trabalhos citados 26 autores diferentes. Desses, foi identificada a filiação institucional de 20, sendo 13 ligados a universidades (respondendo por 68% dos textos com assinatura e filiação institucional identificada) e sete ao ensino secundário e a escolas normais (32% dos textos) (Tabela 2).

Tabela 2
Trabalhos com finalidade didática ou focados na reflexão sobre o ensino de Sociologia publicados na revista Sociologia, segundo modalidade de ensino em que atuavam parcela de seus autores (1939-1950)

Romano Barreto e Emílio Willems responderam pela maior parte dos trabalhos publicados em Sociologia sobre a didática da disciplina: Willems assinou 21 trabalhos, Romano Barreto 11 e os dois juntos um plano de pesquisa (Tabela 3). Houve ainda 78 textos sem assinatura (entre tópicos dos programas de ensino detalhados, resenhas, artigos, notícias etc.) cuja seleção ou autoria poderia ser atribuída a eles. Depois de Barreto e Willems, os autores com maior número de publicações associadas ao ensino de Sociologia foram José Querino Ribeiro (sete), Donald Pierson (quatro), Roger Bastide (quatro), Luiz de Aguiar Costa Pinto (três) e Herbert Baldus (dois). Os demais autores responderam por um único trabalho com foco no ensino de Sociologia ou publicado nos números destinados estritamente à didática dessa disciplina.

Tabela 3
Autores segundo cargo e filiação institucional e quantidade de trabalhos com finalidade didática ou focados no ensino de Sociologia publicados na revista Sociologia (1939-1950)

José Querino Ribeiro, Juvenal Paiva Pereira, Aracy Ferreira Leite, Henrique Stodieck e o próprio Romano Barreto estavam entre os professores de escolas normais e do ensino secundário da capital paulista (Colégio Universitário da USP e escolas normais Conselheiro Rodrigues Alves, Ipiranga, Oswaldo Cruz, Liceu Nacional Rio Branco), do interior de São Paulo (escolas normais de Guaratinguetá, Pirassununga e Itapetininga) e de Santa Catarina (Instituto de Educação de Florianópolis).

Aracy Ferreira Leite, professora da Escola Normal de Pirassununga, respondeu por um dos poucos registros de trabalho coletivo e pelo único assinado também por alunos. O texto de 1940, intitulado ‘Inquérito sobre a posição do negro em três municípios paulistas’, apresentava resultados de uma pesquisa baseada em entrevistas, realizada por alunas da escola nas cidades de Pirassununga, Descalvado e Santa Rita.

Freitas Marcondes, licenciado em Sociologia pela Universidade de São Paulo e professor da Escola Normal Conselheiro Rodrigues Alves, por seu turno, publicou em 1941 artigo na seção didática sobre ‘A Sociologia nas escolas normais’. Além de defender a pertinência da disciplina no ensino secundário e nas escolas normais (opondo-se ao intelectual católico Tristão de Ataíde que criticava a presença da Sociologia no ensino secundário), argumentava sobre as contribuições da Sociologia para a formação de professores do ensino primário, compartilhando algumas de suas estratégias didáticas.

José Querino Ribeiro, professor da Escola Normal anexa ao Ginásio Ipiranga, na capital paulista, publicou quatro trabalhos em Sociologia, além de dissertar sobre tópicos dos programas da escola normal presentes nos primeiros números, todos abordando questões relacionadas à didática da Sociologia. Colaborador da revista nos seus primeiros anos de existência, tendo também respondido como seu secretário entre 1941 e 19425 5 José Querino Ribeiro chegou a responder pela revista Sociologia - ao lado de Barreto, Willems e Catão - como secretário, mas essa participação não foi além de maio de 1942 (v. 4, n. 2). , Ribeiro foi, ao lado de Romano Barreto, organizador dos programas oficiais publicados no primeiro ano de existência de Sociologia6 6 Não é possível afirmar que Ribeiro organizou todos os programas das escolas normais lançados em 1939, pois o material não foi assinado em todos os números. Todavia, a participação na revista desde o primeiro número, quando publicou ‘Advertência aos que começam em Sociologia’ (Ribeiro, 1939a), o programa do 1º e 2º ano das escolas normais assinado por ele no terceiro número da revista (Ribeiro, 1939b), e o fato de lecionar em uma escola normal são indícios dessa colaboração. e o colaborador mais alinhado ao projeto editorial da revista. Em seus textos, insistia no propósito de “[...] reunir material numeroso e diverso para tirar a feição puramente livresca que as aulas de Sociologia costumam ter” (Ribeiro, 1941a, p. 20) e, como outros autores, apostava na pesquisa de campo como estratégia para romper com essa tradição. Ribeiro, conhecido na área educacional por seus estudos sobre administração escolar, em 1941 já era assistente de Sociologia na Universidade de São Paulo, onde se tornaria professor na década de 1950.

Quanto à Juvenal Paiva Pereira, era um daqueles autores que “[...] atuavam como professores quase anonimamente, não fosse a difusão de seus compêndios didáticos” (Meucci, 2011Meucci, S. (2011). Institucionalização da Sociologia no Brasil: primeiros manuais e cursos. São Paulo, SP: Hucitec., p. 39). Com formação na área da Saúde, Pereira desempenhou atividades na educação e na política, tendo sido professor da escola normal e vereador em Itapetininga, interior paulista. Dentre aqueles que publicaram trabalhos com finalidade didática na revista Sociologia no período analisado, Pereira foi o único autor de livro didático: publicou Um esquema de sociologia, em 1940 (Meucci, 2011). Em Sociologia, publicou, no seu primeiro número, o artigo ‘Didática da sociologia’.

Saindo do circuito paulista, Henrique Stodieck, professor de Sociologia nos cursos de formação de professores do Instituto de Educação de Florianópolis, antiga Escola Normal Catarinense, publicou um artigo da área da Sociologia da educação, intitulado ‘Uma interpretação sociológica da escola’ (Stodieck, 1940).

Muito embora não tenha sido incluída entre os professores das escolas normais, Lucila Hermann também poderia ser citada, pois, apesar de ser assistente de Sociologia na USP, anteriormente havia lecionado na Escola Normal de Guaratinguetá. Em 1947, ela passaria a ocupar a cadeira de Ciência da Administração no Instituto de Administração da Faculdade de Ciências Econômicas da USP. Além de Hermann, Emílio Willems também integraria esse rol de autores associados ao ensino secundário, pois lecionou no Liceu Nacional Rio Branco até 1941. Optou-se, contudo, por não os incluir na lista de professores das escolas normais e de ensino secundário por terem, eles próprios, identificando-se na revista como associados à USP.

É necessário mencionar que o trânsito de Emilio Willems entre a Universidade de São Paulo e a Escola de Sociologia e Política foi marcante na fase didática da revista Sociologia. Coube a ele o mérito de conferir um caráter ‘ecumênico’ ao periódico (Jackson, 2004Jackson, L. (2004). A Sociologia paulista nas revistas especializadas (1940-1965). Tempo Social, 16(1), 263-283.), acolhendo publicações de cientistas sociais de ambas as instituições paulistas que, com projetos distintos (Limongi, 2001aLimongi, F. (2001a). A escola livre de sociologia e política em São Paulo. In S. Miceli (Org.), História das ciências sociais (p. 257-275). São Paulo, SP: Sumaré., 2001b; Peixoto, 2001Peixoto, F. (2001). Franceses e norte-americanos nas Ciências Sociais brasileiras (1930-1960). In: S. Miceli (Org.), História das Ciências Sociais, 2 (p. 477-531). São Paulo, SP: Sumaré. ), dedicavam-se ao ensino e à pesquisa em Ciências Sociais. Além de Willems, outros autores transitavam entre as duas instituições. Florestan Fernandes era um deles: tendo concluído a graduação na USP, realizou o mestrado na ELSP sob orientação de Herbert Baldus, trajetória seguida também por Gioconda Mussolini e Lucila Hermann, visto que, à época, a Universidade de São Paulo não mantinha um programa de pós-graduação.

A ESP tinha entre seus colaboradores mais frequentes Donald Pierson, Herbert Baldus e Oracy Nogueira. Da USP, destacavam-se as participações de Roger Bastide e de jovens cientistas sociais como Florestan Fernandes, Gioconda Mussolini, Antonio Candido, Egon Schaden, Lucila Hermann, Lourival Gomes Machado e José Querino Ribeiro. Contribuíram também, com relativa frequência, os professores Paul Arbousse-Bastide e Oswaldo Elias Xidieh.

Dificuldades

O prestígio que Sociologia conquistou no meio acadêmico não evitou sua crise financeira: “[...] estava vitoriosa a revista no plano intelectual, no plano cultural e científico. Economicamente ia mal”, escreveu Barreto (1954Barreto, A. R. (1954). A revista Sociologia. Sociologia, 16(1), 127-135., p. 8). Apesar das inúmeras tentativas para comercializar publicações paralelas (como Leituras Sociológicas e a Tipologia do Líder) e de ter imprimida em suas páginas uma variedade de anúncios publicitários (incluindo produtos alimentícios, bebidas, medicamentos, cremes dentais, vestuário, solas de sapato, produtos de limpeza, máquinas de escrever, livros etc.), os reveses financeiros culminaram na decisão de seus diretores de entregar a revista à Escola Livre de Sociologia e Política, em 1947. Até o primeiro número de 1948, Barreto e Willems continuaram assinando juntos como diretores. Depois disso, a tarefa passou a ser dividida entre Willems e o sociólogo Oracy Nogueira por mais dois anos, quando o sociólogo alemão deixou o Brasil. Em 1950, quando Willems deixou o Brasil, a revista que ainda mantinha sua designação original - Sociologia: Didática e Científica -, recebeu o título Sociologia: Revista dedicada à Teoria e Pesquisa nas Ciências Sociais.

Em 1954, ao traçar uma história de Sociologia antes de sua incorporação à Escola Livre de Sociologia e Política, Romano Barreto (1954Barreto, A. R. (1954). A revista Sociologia. Sociologia, 16(1), 127-135., p. 8) recordou o “[...] desejo de tornar didática a revista”. Lembrou que o ‘Suplemento’ fora lançado em 1939, “[...] visando tornar clara nossa ideia e mostrar o que pretendíamos para os estudiosos de Sociologia com a colaboração deles mesmos. Não foi possível publicar mais nenhum suplemento [...]”. De fato, o ‘Suplemento’ se fez presente em um único número (v. 1, n. 3, 1939), tendo Emílio Willems (1940bWillems, E. (1940b). Como se ensina Sociologia? Sociologia, 2(1).) incluído uma continuação do seu artigo ‘Como se ensina Sociologia’ no primeiro número do segundo volume. A ‘Seção didática’ continuou ativa, ainda que não contemplasse os objetivos iniciais do ‘Suplemento’ - de compilar experiências didáticas de professores do ensino normal, secundário e superior, na forma inclusive de programas de ensino -, reunindo textos de exposição de temas tratados pelas Ciências Sociais e sugestões de abordagens didáticas.

A partir do terceiro número de Sociologia de 1940, o sumário deixou de conter a inscrição ‘Subsídios para o estudo da Sociologia nas escolas normais, Colégio Universitário e cursos complementares’, ainda que Willems (1940cWillems, E. (1940c). Organização dos sistemas escolares e a estrutura social. Sociologia, 2(3).) tenha publicado um artigo com nota de rodapé remetendo o leitor a determinado ponto do programa oficial no mesmo número. Todavia, depois disso, os tópicos dos programas não foram mais impressos regularmente, havendo apenas mais uma ocorrência em 1943, com os ‘Programas de Sociologia’, de José Querino Ribeiro (1941bRibeiro, J. (1941b). Programas de sociologia. Sociologia, 3(4).). No primeiro número de 1942, a ‘Seção didática’ estava extinta. Embora os assuntos pertinentes ao ensino de Sociologia tenham sido retomados esporadicamente nos volumes posteriores, voltaram a ter destaque apenas em 1949 com os artigos do Symposium sobre Ensino de Sociologia e Etnologia. Compuseram aquele terceiro número do volume 11 cinco textos nos quais Antonio Candido (1949Candido, A. (1949). Sociologia: ensino e estudo. Sociologia, 11(3). Symposium sobre o Ensino de Sociologia e Etnologia.), Luiz de Aguiar Costa Pinto (1949Costa Pinto, L. (1949). Ensino da sociologia nas escolas normais. Sociologia, 11(3).), José Arthur Ríos (1949Ríos, J. (1949). Contribuição para uma didática da sociologia. Sociologia, 11(3).), Donald Pierson (1949Pierson, D. (1949). Difusão da ciência sociológica nas escolas. Sociologia, 11(3).) e Octavio da Costa Eduardo (1949Eduardo, O. (1949). O ensino dos conceitos básicos da Etnologia. Sociologia, 11(3).) discutiam as possibilidades e dificuldades envoltas no ensino de Sociologia e etnologia, nas escolas normais, no ensino secundário e superior. Talvez esse tenha sido o ato final dos esforços daquela revista para manter sua vocação original de fornecer subsídios didáticos para quem ensinava e aprendia Sociologia, um ano antes de ser suplantada oficialmente de seu título a rubrica ‘didática e científica’.

Se a revista nasceu com o propósito de difundir conhecimentos sociológicos e, sobretudo, criar um espaço colaborativo de troca de experiências didáticas relacionadas ao ensino da Sociologia que se estabelecia como disciplina escolar e acadêmica, não recebeu participações constantes e suficientes de professores e estudantes do ensino secundário e das escolas normais como planejado originalmente. Conquistou apoio de antropólogos e sociólogos que lecionavam no ensino superior e que acabaram imprimindo-lhe características associadas mais à divulgação científica e ao meio acadêmico do que propriamente à didática da Sociologia no âmbito escolar.

Aqui se reforça a condição de silenciamento ou subordinação do ensino e a própria falta de reconhecimento social que hierarquiza práticas de ensino e práticas de pesquisa ou, nas palavras de Forquin (1992Forquin, J. (1992). Saberes escolares, imperativos didáticos e dinâmicas sociais. Teoria & Educação, 5, 28-49.), a ‘arte de ensinar’ e a ‘arte de inventar’. Bourdieu (2004Bourdieu, P. (2004). Os usos sociais da ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. São Paulo, SP: Unesp.) citava a incompatibilidade da posição do professor em relação à posição do pesquisador, qualificando, inclusive, o ensino como um ‘fator de inércia’, por traduzir-se em “[...] lugares de transmissão codificada, rotinizada do saber [...]”, desconectados da atividade de pesquisa (Bourdieu, 2004, p. 71). Para Bourdieu, os professores seriam, em certa medida, solidários a essa rotina e até nutririam desconfiança diante dos espaços de invenção. Segundo o autor, “[...] isso é particularmente visível nas disciplinas literárias, nas quais o professor permaneceu como um lector, no sentido medieval do termo, que tem uma espécie de desconfiança com relação aos auctores, inventores, criadores etc.” (Bourdieu, 2004, p. 72).

Foram reiteradas as tentativas dos diretores de Sociologia, no seu primeiro ano de existência, para conseguir o apoio de estudantes e professores. Além dos ‘apelos’, na própria revista, para remeterem trabalhos, programas, relatórios, aulas, trabalhos de alunos e outros materiais que explicitassem suas experiências didáticas (Sociologia, 1939a, 1939b, 1939c), abriram-se concursos de pesquisas (Sociologia, 1939b) e seção de perguntas e respostas7 7 No primeiro número (vol. 1, n. 1, 1939), havia o informe sobre a criação de uma seção aberta para o leitor enviar perguntas que seriam respondidas pelos diretores. Essa seção, contudo, não foi encontrada em nenhum dos números subsequentes. . Esperavam que a revista fosse “[...] aceita por mestres e alunos e, mais, por quantos se interessem” (Sociologia, 1939a, p. 6). Apesar das tentativas, foi, segundo Willems (1987Willems, E. (1987). Depoimentos de Emílio Willems. In M. Corrêa. História da antropologia no Brasil (1930-1960). Testemunhos: Emílio Willems, Donald Pierson (p. 117-127). São Paulo, SP: Vértice. , p. 119), “[...] sumamente difícil conseguir colaboração”:

Em 1939 fundei, junto com Antenor Romano Barreto, a revista Sociologia. Apesar das inúmeras dificuldades iniciais, logramos desenvolver e manter esse periódico sem subvenção alguma. Esperávamos atrair as poucas pessoas que então estavam empenhadas em pesquisas, mas foi sumamente difícil conseguir colaboração. Porém, graças à colaboração regular de Herbert Baldus e Donald Pierson, Sociologia conseguiu alcançar um nível respeitável que correspondia, mais ou menos, à fase de desenvolvimento em que se encontrava a Sociologia e a Antropologia Social naquele tempo (Willems, 1987Willems, E. (1987). Depoimentos de Emílio Willems. In M. Corrêa. História da antropologia no Brasil (1930-1960). Testemunhos: Emílio Willems, Donald Pierson (p. 117-127). São Paulo, SP: Vértice. , p. 119).

Embora tenha contado com a colaboração de professores e pesquisadores, a autoria da maior parte dos trabalhos, contudo, continuou centrada em Willems e Barreto, aos quais se somavam mais dois ou três colaboradores frequentes. Mesmo textos sobre trabalhos desenvolvidos em escolas chegaram a ser assinados pelos diretores da revista, como no caso do ‘Esboço de duas aulas de Sociologia dadas na Escola Normal Oswaldo Cruz, em São Paulo’, de autoria de Emílio Willems (1939b), e ‘Plano de aula dada na Escola Normal do Liceu Rio Branco, São Paulo’, de Romano Barreto (1939), ambos publicados no ‘Suplemento’ (v. 1, n. 3, 1939). Aliás, o ‘Suplemento’, que seria construído com os materiais didáticos de professores, foi basicamente assinado pelos diretores da revista.

Além da dificuldade de angariar colaborações, o enfraquecimento da vocação didática de Sociologia pode remeter à carreira de Willems. O autor estabeleceu-se no ensino superior a partir de 1941, abandonando definitivamente o magistério no ensino secundário (Willems, 1987). Somou-se a isso o fato de a Reforma Capanema (Decreto-lei nº 4.244, 1942) ter extinguido o curso complementar nos moldes da Reforma Francisco Campos, na qual a Sociologia figurava como disciplina obrigatória. O próprio Colégio Universitário, onde lecionava Barreto, funcionou apenas até 1943 (Neuhold, 2014Neuhold, R. R. (2014). Sociologia do ensino de sociologia: os debates acadêmicos sobre a constituição de uma disciplina escolar (Doutorado em Educação). Universidade de São Paulo, São Paulo. doi.org/10.11606/T.48.2014.tde-17112014-113744
https://doi.org/10.11606/T.48.2014.tde-1...
).

Além disso, não é possível ignorar que o ensino secundário e a escola normal abarcavam uma parcela mínima da população e, embora não haja dados sobre o efetivo de professores de Sociologia na ativa, é muito provável que não reunissem muitos potenciais autores que alimentassem as páginas da revista. Otaíza Romanelli (1988Romanelli, O. (1988). História da educação no Brasil Rio de Janeiro, RJ: Vozes.) indicou, por exemplo, que, em 1940, as taxas de escolarização no ensino secundário no Brasil eram de, em média, 2% da população. Segundo Limongi (2001bLimongi, F. (2001b). Mentores e clientelas da Universidade de São Paulo (2001b). In S. Miceli (Org.), História das ciências sociais (p. 135-221). São Paulo, SP: Sumaré. ), o ensino secundário, em 1930, no Estado de São Paulo, era oferecido por três ginásios públicos, um deles localizado na capital, e os outros dois, no interior, nas cidades de Ribeirão Preto e Campinas. As escolas particulares respondiam pela maior parte das matrículas, sendo que, em 1920, contabilizavam 9 mil contra 764 registradas nos ginásios públicos.

Em suma, as dificuldades para conseguir colaboradores regulares entre professores do ensino secundário e das escolas normais, o perfil dos autores que se tornaram assíduos na revista e a própria subordinação de assuntos condizentes com o ensino frente àqueles concentrados na pesquisa, somados à Reforma Capanema e à própria trajetória acadêmica e profissional de Willems, podem ter contribuído para que Sociologia ganhasse, aos poucos, feições que não estavam centradas na didática.

Considerações finais

Idealizada por dois professores vinculados ao ensino secundário, entre 1939 e 1950, Sociologia: Revista Didática e Científica levou a público artigos acadêmicos, planos de aula e pesquisa, sínteses de textos, chamadas para concursos e publicação de trabalhos desenvolvidos nos cursos profissionais de formação de professores e no ensino secundário associados ao ensino de Sociologia. No esforço de recontextualizar a disciplina pedagogicamente, os principais colaboradores do periódico também criticaram um ensino focalizado na apresentação da história, autores, conceitos e teorias das Ciências Sociais. Defenderam, por seu turno, propostas didáticas direcionadas para os problemas sociológicos, estabelecendo o elo entre os conteúdos sociológicos e a realidade por meio da pesquisa empírica. Sociologia acolheu, sobretudo nos seus três primeiros anos de existência, trabalhos de pesquisadores e professores universitários, do ensino secundário e das escolas normais, ensaiando a formação de um espaço de reflexão, de inovação e de partilha entre pares.

Ainda que central na fundação de Sociologia, a vocação didática do periódico nos seus primeiros números não tardou a perder o vigor inicial, até ser suplantada pelo projeto de transformá-la em uma revista dedicada à teoria e à pesquisa em Ciências Sociais. Até 1949, porém, o periódico continuou publicando artigos sobre o assunto, tendo como ponto alto e final os artigos do Symposium sobre Ensino de Sociologia e Etnologia. De qualquer forma, o valor da revista é ímpar tanto para conhecer as características do ensino de Sociologia nas décadas de 1930 e 1940 quanto para analisar suas condições de sobrevivência e de silenciamento.

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  • Rodadas de avaliação:

    R1: três convites; três avaliações recebidas.
  • Financiamento:

    A RBHE conta com apoio da Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE) e do Programa Editorial (Chamada Nº 12/2022) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
  • Licenciamento:

    Este artigo é publicado na modalidade Acesso Aberto sob a licença Creative Commons Atribuição 4.0 (CC-BY 4).
  • 1
    Documentos legais anteriores previam a inserção da Sociologia no currículo escolar, caso da Reforma Benjamin Constant (Decreto nº 981, 1890) e de experiências regionais dela decorrentes, como em Sergipe (Alves & Costa, 2006Alves, E. M., & Costa, P. R. (2006). Aspectos históricos da cadeira de Sociologia nos secundários (1892-1925). Revista Brasileira de História da Educação, 6(2), 31-52. https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/rbhe/article/view/38626
    https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/...
    ) e no Amazonas (Bodart & Cigales, 2021Bodart, C., & Marchiori, C. C. R. (2021). Fragmentos da história do ensino de sociologia no Brasil. Revista Brasileira De História Da Educação, 21(1). https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/rbhe/article/view/54770
    https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/...
    ), além da Reforma João Luiz Alves / Rocha Vaz (Decreto nº 16.782 A, 1925). Foi com a Reforma Francisco Campos, contudo, que a Sociologia ganhou projeção nacional, sendo implementada em escolas de diferentes unidades federativas.
  • 2
    Acervo físico das bibliotecas da Faculdade de Educação e da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
  • 3
    Donald Pierson havia defendido seu doutorado na Universidade de Chicago e concebia a pesquisa empírica como o marco de passagem entre a Filosofia Social e a Sociologia científica (Limongi, 2001aLimongi, F. (2001a). A escola livre de sociologia e política em São Paulo. In S. Miceli (Org.), História das ciências sociais (p. 257-275). São Paulo, SP: Sumaré.). Emílio Willems, embora não fosse formado por Chicago, desenvolveu muitos de seus trabalhos inspirados naquela escola. Oracy Nogueira cursou o doutorado na Universidade de Chicago entre 1945 e 1947 (frequentando disciplinas com Everett Hughes, W. L. Warner, Robert Redfield, Louis Wirth), não obstante tenha retornado ao Brasil para a redação da tese e, em 1952, quando voltava aos Estados Unidos para defendê-la, teve seu visto negado por participar do Partido Comunista Brasileiro.
  • 4
    Inclui o ‘Plano para uma investigação geral da estrutura e organização social das zonas cafeeiras’ (Barreto & Willems, 1939Barreto, A. R., & Willems, E. (1939). Plano para uma investigação geral da estrutura e organização social das zonas cafeeiras. Sociologia, 1(2).), atribuindo autoria a Barreto e Willems. Esse plano de investigação foi publicado no primeiro volume de Sociologia (v. 1, n. 2, 1939, p. 94-101) sem assinatura e só foi possível identificar sua autoria por meio do depoimento de Barreto (1954, p. 5, nota). O texto se divide em duas partes - organização das zonas cafeeiras e influência da economia cafeeira sobre a formação da sociedade paulista - indicando detalhadamente as etapas de uma pesquisa que envolvia um estudo monográfico (mapa, estrutura e organização, cultura material, composição da população) e um estudo pormenorizado dos “grupos parciais” (territoriais, políticos, consanguíneos, econômicos, educacionais, étnico-raciais, recreativos), entre outras ações.
  • 5
    José Querino Ribeiro chegou a responder pela revista Sociologia - ao lado de Barreto, Willems e Catão - como secretário, mas essa participação não foi além de maio de 1942 (v. 4, n. 2).
  • 6
    Não é possível afirmar que Ribeiro organizou todos os programas das escolas normais lançados em 1939, pois o material não foi assinado em todos os números. Todavia, a participação na revista desde o primeiro número, quando publicou ‘Advertência aos que começam em Sociologia’ (Ribeiro, 1939a), o programa do 1º e 2º ano das escolas normais assinado por ele no terceiro número da revista (Ribeiro, 1939b), e o fato de lecionar em uma escola normal são indícios dessa colaboração.
  • 7
    No primeiro número (vol. 1, n. 1, 1939), havia o informe sobre a criação de uma seção aberta para o leitor enviar perguntas que seriam respondidas pelos diretores. Essa seção, contudo, não foi encontrada em nenhum dos números subsequentes.

Anexo I

Quadro 1
Textos com conteúdos declaradamente voltados para o ensino de Sociologia publicados durante a fase didática da revista Sociologia (1939-1950).

Editado por

Editor-associado responsável:

Carlos Eduardo Vieira (UFPR) E-mail: cevieira9@gmail.com https://orcid.org/0000-0001-6168-271X

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Out 2023
  • Data do Fascículo
    2023

Histórico

  • Recebido
    01 Out 2022
  • Aceito
    23 Fev 2023
  • Publicado
    26 Jul 2023
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