RESENHA
Resenha do livro Tentativa de suicídio um prisma para compreensão da adolescência, de Enio Resmini
Reseña del libro Tentativa de suicídio um prisma para compreensão da adolescência, de Enio Resmini
José Carlos Souza
Psiquiatra, Doutor em Saúde Mental (Unicamp), Pós-Doutor e Professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, Professor da Universidade Católica Dom Bosco, Campo Grande, MS
TENTATIVA DE SUICÍDIO UM PRISMA PARA COMPREENSÃO DA ADOLESCÊNCIA
Enio Resmini
Rio de Janeiro: Revinter; 2004
O autor apresenta, com uma linguagem clara e objetiva, a questão das ideações, tentativas e do suicídio propriamente dito, especialmente na adolescência, faixa etária em que esta é a segunda ou terceira causa mortis, dependendo do local da pesquisa e da metodologia utilizada.
"Na Europa, as principais causas de óbito entre os 15-35 anos, em ordem decrescente, são: acidentes de trânsito, suicídio e câncer", informa Resmini. Já em nosso país, mais da metade das pessoas que tentam o suicídio não procuram nem são levados à assistência médica. Segundo o autor, seriam 53,3%, porém é provável que este número seja muito maior, haja vista que os estudos epidemiológicos brasileiros relacionados ao suicídio são isolados e restritos mais às Regiões Sul e Sudeste do país. Além disso, os dados são, muitas vezes, omitidos devido às "exigências" de vários convênios médicos de saúde, que não remuneram o tratamento profissional nem hospitalar quando se relata na ficha do paciente o termo "suicídio"; há, inclusive, um grande estigma em relação ao suicídio entre os próprios profissionais de saúde, como se não bastasse a restrição brutal das empresas de seguros de vida, que o "abominam".
O autor do livro apresenta uma visão multi- e transdisciplinar do suicídio, o que facilita a sociabilização dos conhecimentos para os leigos no assunto. Inicialmente, na Parte I, o autor aborda o que muitos chamam de "síndrome normal da adolescência"; em seguida, os aspectos psicopatológicos do adolescente. Neste segundo capítulo, o autor poderia ter aprofundado mais a visão das diversas escolas psicopatológicas sobre as doenças e os sintomas mentais, porém, talvez, este não tenha sido o propósito principal do livro.
Na Parte II, há a conceituação de suicídio, dados estatísticos sociodemográficos, fatores de risco e protetores contra o ato suicida, além dos modelos teóricos de compreensão do comportamento e da tendência ao suicídio. Neste último, chama a atenção a valiosa visão holística do autor em relação ao ser humano.
Na Parte III, sobre a abordagem e o manejo das ideações e tentativas de suicídio, há sete capítulos bem condensados, que podem auxiliar bastante tanto generalistas como especialistas da área. No antepenúltimo capítulo do livro, a contratransferência é abordada de uma maneira aprofundada e, ao mesmo tempo, de fácil compreensão. Como é referido por Chiles & Strosahl (1995), "os aspectos mais difíceis no trabalho com os suicidas são as reações dentro do entrevistador", principalmente quando se leva em consideração a notoriedade de que o ser humano, dependendo das circunstâncias e do momento de sua vida, estará disposto a falar a verdade sobre si, a amenizá-la, exagerá-la ou omiti-la. Este fato desencadeia sentimentos conscientes e inconscientes no profissional que trabalha com o paciente suicida, em especial quando o auto-aniquilamento é concretizado. Lembra-se, aqui, que o profissional é um ser humano, tanto quanto o seu cliente, mesmo que, muitas vezes, em seu curso de graduação universitária, tenha sido "embutida" a ele uma sobrecarga de onipotência e, por que não dizer, de "onisciência". Em se tratando do paciente suicida, não há como se afirmar, com certeza, se o rumo está correto ou não; nessa área, infelizmente, uma terapêutica aparentemente adequada pode significar apenas uma dose de alívio da ansiedade do profissional.
Em se tratando de terapêuticas, o autor, no último capítulo do livro, deixa a desejar quando se refere à eletroconvulsoterapia (ECT) em apenas três linhas, quando esta, muitas vezes, pode ser o tratamento de primeira escolha em situações de emergência. Neste capítulo, o autor pode frustrar o leitor, pois cita a ECT no título e se ocupa dela somente nas últimas três linhas do livro.
Contudo, o Dr. Enio Resmini brinda a literatura científica da área com esta contribuição.