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Frouxonauro e cornoservadores: metáforas de virilidade masculina no ativismo digital da extrema direita brasileira

Flojonauro e Cornuservadores: metáforas de la virilidad masculina en el activismo digital de la extrema derecha brasileña

Resumo

Este artigo tem por objeto o uso de metáforas de virilidade nas ações políticas de ciberativistas de extrema direita. Vamos examinar os ataques trocados entre agentes do mesmo campo da extrema-direita, em particular aqueles dirigidos contra o então presidente Jair Bolsonaro por homens que são seus seguidores e compartilham de seu antifeminismo. Veremos que as metáforas da virilidade têm um papel duplo nessas disputas: como forma de compreender e avaliar tanto adversários e disputas quanto a si mesmos. Esse papel nasce da articulação entre três elementos: i) crenças e atitudes baseadas em um ideal de virilidade; ii) uma experiência vivida de ser e tornar-se homem; e, iii), o modo de funcionamento das plataformas digitais. Argumentamos que existe uma afinidade eletiva entre, de um lado, a forma de socialização masculina definida por Welzer-Lang com seu conceito de “casa dos homens”, e, de outro, a arquitetura das plataformas digitais desenhada como um espaço competitivo e anti-institucional no qual se constrói visibilidade e reputação.

Palavras-chave:
extrema-direita; sociologia digital; virilidade; casa dos homens; homem de verdade

Resumen

Este artículo se centra en el uso de metáforas de virilidad en las acciones políticas de los ciberactivistas de extrema derecha. Examinaremos los ataques intercambiados entre agentes del mismo campo de extrema derecha, en particular los dirigidos contra el expresidente Jair Bolsonaro por sus seguidores hombres que compartían su antifeminismo. Veremos que las metáforas de la virilidad desempeñan un doble papel en estas disputas: ellas son una forma de entender y evaluar tanto a los oponentes y disputas como a ellos mismos. Este rol nace de la articulación entre tres elementos: i) creencias y actitudes basadas en un ideal de virilidad; ii) una experiencia vivida de ser y devenir hombre; iii) el funcionamiento de las plataformas digitales. Argumentamos que existe una afinidad electiva, por un lado, entre la forma de socialización masculina definida por Welzer-Lang con su concepto de “casa de hombres”, y, por otro lado, la arquitectura de plataformas digitales que se diseña como un espacio competitivo y anti-institucional donde se construye visibilidad y reputación.

Palabras clave:
extrema derecha; sociología digital; virilidad; casa de hombres; hombre de verdad

Abstract

This article focuses on the use of virility metaphors in the political actions of far-right cyberactivists. It examines the attacks exchanged between agents within the far-right, in particular those targeted against Jair Bolsonaro, Brazilian president from 2019 to 2022, by his male followers who share his anti-feminism. It is argued that, in these disputes, metaphors of virility have a dual role: they are a way of interpreting and of evaluating opponents, disputes and men themselves. This role results from the articulation between three elements: i) beliefs and attitudes based on an ideal of virility; ii) a lived experience of being and becoming a man; and, iii), how digital platforms operate. Our hypothesis is that there is an elective affinity between, on the one hand, the form of male socialisation defined as the “men’s house” by Welzer-Lang and, on the other hand, the architecture of digital platforms designed as a competitive, anti-institutional environment in which visibility and reputation are built.

Keywords:
extreme right; digital sociology; virility; men’s house; true man

Introdução

Quando observamos as ações e interações, em plataformas de redes sociodigitais, como Facebook, YouTube e Twitter, do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro e de ciberativistas bolsonaristas, testemunhamos o uso recorrente de termos homofóbicos, misóginos e de expressões de virilidade. Essa recorrência, que é constitutiva da atividade política destes agentes nos espaços digitais, não é apenas um estilo retórico, mas expressão de um padrão cultural de masculinidade.

Neste artigo, investigamos ações políticas realizadas em plataformas digitais por ativistas de extrema-direita partidários de Jair Bolsonaro que se caracterizam pelo uso de categorias de acusação estruturadas em torno de metáforas de virilidade. Usualmente, estas categorias têm sido estudadas quando são mobilizadas por esses ciberativistas contra agentes localizados em espaços antagônicos ao seu campo político, especialmente contra mulheres. Aqui, entretanto, vamos nos concentrar nos ataques que são trocados entre os agentes que estão dentro do mesmo campo da extrema-direita, especialmente aqueles que são dirigidos contra o presidente Jair Bolsonaro por homens que são seus seguidores e compartilham seu antifeminismo. Selecionar este campo empírico permite perceber que as metáforas de virilidade operam nas lutas políticas destes atores tanto como um modo de caracterizar os adversários e as disputas, quanto de compreender e avaliar a si mesmos, expressando estruturas de gênero culturalmente mais profundas.

Acredito, ainda, que o papel central destas metáforas de virilidade entre ciberativistas de extrema-direita seja fruto de uma articulação entre determinadas atitudes e crenças acerca do significado da virilidade que se fundam tanto em um ideal e em uma determinada experiência de construção e vivência de masculinidade quanto em um modo específico de funcionamento das plataformas digitais. A hipótese que desenvolvemos ao final do artigo é a de que existe uma afinidade eletiva entre, por um lado, a forma de socialização masculina que foi definida por Welzer-Lang com seu conceito de “casa dos homens”, e, por outro lado, a arquitetura das plataformas digitais que, baseada na ideia de economia da atenção, direciona a construção de reputação e visibilidade sob a ótica de um modelo de mercado ideal concebido como um espaço competitivo e anti-institucional. Pretendemos argumentar que é por essa afinidade que as disputas de virilidade tornam-se uma ferramenta política no ciberativismo de extrema-direita.

A reconfiguração da direita: antifeminismo e o alt-right como diagnóstico, projeto e estilo de atuação

O antifeminismo é uma característica claramente identificável nas postagens dos ciberativistas organizados em torno de Jair Bolsonaro. Em um balanço bibliográfico dedicado à literatura sobre antifeminismos, Bonet-Martí (2021BONET-MARTÍ, Jordi. 2021. “Los antifeminismos como contramovimiento: una revisión bibliográfica de las principales perspectivas teóricas y de los debates actuales”. Teknokultura, Revista de Cultura Digital y Movimientos Sociales, vol. 18, nº 1, p. 61-71, 2021. DOI 10.5209/tekn.71303
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) os define, em seu conjunto, como “aquel contramovimiento que surge por oposición a las ideas, las políticas y las personas que integran el movimiento feminista (...). En este sentido, el antifeminismo seguiría el modelo de interacción conflictual (...) basado en el uso que tanto movimiento como contramovimiento hacen de los repertorios tácticos proporcionados por la tecnología existente, la estructura social y el momento histórico” (Bonet-Martí, 2021BONET-MARTÍ, Jordi. 2021. “Los antifeminismos como contramovimiento: una revisión bibliográfica de las principales perspectivas teóricas y de los debates actuales”. Teknokultura, Revista de Cultura Digital y Movimientos Sociales, vol. 18, nº 1, p. 61-71, 2021. DOI 10.5209/tekn.71303
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: 62).

A partir dessa perspectiva, Bonet-Martí identifica um campo de investigação recortado pelo que classifica como ciber antifeminismos, e não há dúvida de que os agentes e as práticas que examino aqui se inscrevem nesse campo. É possível identificar vários episódios de ciber assédio contra mulheres, sejam elas ciberativistas feministas ou não, perpetrados tanto por Jair Bolsonaro quanto por seus seguidores. Uma categoria particularmente visada são mulheres que participam da política partidária e mulheres jornalistas, mas quase qualquer mulher de destaque pode ser alvo de assédio. Como veremos mais adiante, o assédio é operado como ação conectiva e desempenha um papel importante não apenas no ataque a perfis, mas na própria organização interna dessas redes de ciberativistas de extrema-direita.

A definição desses perfis de ciberativistas e de suas práticas como ciber-antifeministas contempla ainda uma outra característica: o fato de que é possível identificar nas postagens destes perfis determinadas práticas, ideias e termos típicos daqueles segmentos da rede digital que foram classificados como “manosfera”, isto é, comunidades online - canais de vídeos no YouTube, páginas do Facebook, fóruns e sites - formados quase que exclusivamente por homens, nos quais são desenvolvidos discursos misóginos e antifeministas (Ging; Siapera, 2019GING, Debbie; SIAPERA, Eugenia. 2019. Gender hate online: understanding the new anti-feminism. Londres: Palgrave Macmillan.; Ukockis, 2019UKOCKIS, Gail. 2019. Misogyny: The new activism. Nova York: Oxford University Press. ; Valkenburgh, 2018VALKENBURGH, Shawn. 2018. “Digesting the Red Pill: Masculinity and Neoliberalism in the Manosphere”. Men and Masculinities, vol. 24., nº 1. P. 84-103. DOI 10.1177/1097184X18816
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; 2019VALKENBURGH, Shawn. 2019. “She Thinks of Him as a Machine”: on the entanglements of neoliberal ideology and misogynist cybercrime”. Social Media + Society, vol. 5, nº 3. DOI 10.1177/20563051198729
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). Segundo Jordi Bonet-Martí, entre as técnicas de assédio online contra mulheres que fazem parte do repertório de ação da manosfera estão práticas de violência verbal, ameaças de estupro e morte, divulgação de dados pessoais e sexualização das mulheres que são alvo do assédio (Bonet-Martí, 2021BONET-MARTÍ, Jordi. 2021. “Los antifeminismos como contramovimiento: una revisión bibliográfica de las principales perspectivas teóricas y de los debates actuales”. Teknokultura, Revista de Cultura Digital y Movimientos Sociales, vol. 18, nº 1, p. 61-71, 2021. DOI 10.5209/tekn.71303
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:64).

Este conjunto de práticas configura uma violação das regras das plataformas e um crime. Nesse sentido, o uso político destas práticas da manosfera, i.e., sua utilização frente a um público mais amplo e em disputa por impor temas ao debate público, vai exigir uma série de precauções específicas que veremos mais adiante, mas que já podemos enumerar: o uso de perfis anônimos e sua multiplicação por um único usuário - de modo que, quando uma conta é suspensa por violação dos termos de uso da plataforma, outras estejam disponíveis, previamente conhecidas pela rede de ciberativistas -, a ambiguidade das mensagens, o humor, o uso de memes e o recurso ao chamado «dog whistle» (apito de cachorro), que apropria-se de símbolos comuns para construir significados partilhados e reconhecíveis entre os membros da rede.

Nesse campo de investigação, Nagle (2017NAGLE, Angela, 2017. Kill All Normies: online culture wars from 4chan and. tumblr to trump and the alt-right. Washington: Zero Books.) oferece uma descrição fundamental, nos EUA, do deslocamento do antifeminismo da manosfera para uma luta política mais ampla. Ela descreve o modo como uma cultura ciber antifeminista foi construída progressivamente em fóruns de jogos por meio do assédio, dentro das comunidades, feito contra as mulheres, fazendo com que os fóruns se tornassem, simultaneamente, um espaço de socialização de ideias conservadoras, um laboratório de técnicas retóricas e de práticas de trollagem e um espaço de recrutamento de militantes do movimento de extrema direita conhecido como alt-right.1 1 Segundo Fragoso: “a trollagem na internet consiste em provocar um ou mais participantes de um ambiente on-line (fórum, lista de discussão, game) com a intenção de incitar discordâncias e confrontos, através de comportamentos impertinentes, inferiorização ou ridicularização” (Fragoso, 2015: 129). Nesse sentido, as disputas em torno da virilidade e o antifeminismo como valor, presentes nestas comunidades online, e, ainda, os termos e as táticas criadas nesses espaços, como as práticas de ciberassédio, foram transpostos para a luta política mainstream (Nagle, 2017NAGLE, Angela, 2017. Kill All Normies: online culture wars from 4chan and. tumblr to trump and the alt-right. Washington: Zero Books.).

Segundo Nagle, visando à transformação do campo conservador nos Estados Unidos, o movimento alt-right tem dois alvos fundamentais. O primeiro é resumido na expressão “politicamente correto”, e inclui preocupações com o avanço do feminismo, com a agenda de direitos LGBTI+, com o suposto declínio demográfico e civilizacional europeu, com o marxismo cultural e a islamificação. O segundo alvo, e mais importante para o argumento que desenvolvo no artigo, são os conservadores tradicionais, criticados por meio da expressão “cuckcervative”, por sua suave passividade cristã e por oferecerem metaforicamente, como veremos mais à frente, suas mulheres/nação/raça ao invasor estrangeiro não-branco. Nesse sentido, como o nome autoatribuído alt-right já sugere, esses ciberativistas estão envolvidos em uma alternativa aos conservadores à chamada direita tradicional.

Como podemos ver, se é verdade que, assim como no caso de Nagle nos Estados Unidos, os agentes descritos aqui, para o caso brasileiro, são claramente antifeministas, também é verdade que o antifeminismo não dá inteiramente conta do modo como gênero e sexualidade orientam sua prática política, nem nos Estados Unidos, nem no Brasil. Em primeiro lugar, seus alvos não são exclusivamente mulheres, mas também homens, aliados do feminismo ou não. De fato, além de homens pertencentes a minorias, como homossexuais, negros e imigrantes, os alvos do alt-right incluem os homens conservadores brancos, na medida em que sejam considerados fracos na luta contra essas minorias. Em segundo lugar, a compreensão desses agentes e de suas práticas apenas na chave analítica do antifeminismo falha em compreender o modo como ambos expressam estruturas de gênero que constituem uma determinada experiência e modelo cultural de masculinidade e, por isso, refletem e reproduzem atitudes e crenças mais amplamente aceitas.

Nesse sentido, uma ausência perceptível no texto de Nagle é a referência mais extensa às investigações de Michael Kimmel sobre os modelos de masculinidade nos EUA, sobre a relação entre modelos dominantes e subalternos de masculinidade - contido em sua discussão sobre masculinidade hegemônica. Principalmente, Kimmel discute a captura pela extrema direita estadunidense do ressentimento de homens brancos pobres e de camadas médias, os angry white men, no contexto de um conjunto de mudanças econômicas e culturais aparentemente relacionadas com a ascensão social de minorias (Kimmel, 2017KIMMEL, Michael. 2017 [1997]. “Masculinidade como homofobia: Medo, vergonha e silêncio na construção de identidade de gênero”. Equatorial - Revista do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Vol. 3, nº 4, p. 97-124. ; 1998KIMMEL, Michael. 1998. A produção simultânea de masculinidades hegemônicas e subalternas”. Horizontes Antropológicos, vol. 4, nº 9, p. 103-117. DOI 10.1590/S0104-71831998000200007
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; 2013KIMMEL, Michael S. 2013. Angry White Men: American Masculinity at the End of an Era. Nova York, Nation Books.). Em Angry white men, Kimmel mostra como o ressentimento é generificado e envolve o fracasso em realizar modelos culturais de masculinidade.

No escopo deste artigo, examinando agentes brasileiros que adaptam vocabulário e práticas do movimento alt-right americano para suas lutas políticas, não é possível transpor automaticamente a hipótese de Kimmel sobre mudança social, minorias e ressentimento branco para explicar a adesão à extrema-direita dos ciberativistas brasileiros. Assim, vou me concentrar nas indicações de Kimmel sobre os modelos culturais de masculinidade para compreender o modo como estes agentes conduzem disputas em torno de um ideal de virilidade entre homens. Farei isso mais adiante, depois de apresentar como conduzi a observação dos perfis e das postagens investigadas.

A observação das postagens

O ponto de partida desta investigação é a observação, entre 2017 e 2021, das postagens de um conjunto de perfis que atuavam na plataforma Twitter atacando pautas, políticos e ativistas de esquerda. De fato, a escolha inicial dos perfis foi feita a partir da recorrência com que eles apareciam praticando assédio digital nas respostas - os replies - de postagens de mulheres feministas que tinham conta nesta plataforma. A partir dessa recorrência, identifiquei outros perfis associados e produzi uma lista de perfis que acompanho com regularidade semanal desde então. Estes perfis compartilhavam temas, técnicas de ação digital e termos com o alt-right estadunidense e se envolveram ativamente na campanha de Jair Bolsonaro à presidência em 2018.

Como apontado por Leitão e Gomes (2017GOMES, Laura Graziela Figueiredo Fernandes; LEITÃO, Débora. 2017. “Etnografia em Ambientes digitais: Perambulações, acompanhamentos e imersões”. Antropolítica: Revista Contemporânea de Antropologia, vol. 42, p. 41-65. DOI 10.22409/antropolitica2017.1i42.a41884
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), uma das maneiras de conduzir a observação no Twitter consiste em acompanhar fluxos de conversas em uma perambulação orientada por “uma sensibilidade etnográfica transeunte, de idas e vindas, percorrendo caminhos em meio à multidão de imagens e mensagens [que] pode ser profícua quando acionada na observação de plataformas que têm como característica os trânsitos intensos e a efemeridade” (Leitão e Gomes, 2017GOMES, Laura Graziela Figueiredo Fernandes; LEITÃO, Débora. 2017. “Etnografia em Ambientes digitais: Perambulações, acompanhamentos e imersões”. Antropolítica: Revista Contemporânea de Antropologia, vol. 42, p. 41-65. DOI 10.22409/antropolitica2017.1i42.a41884
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: 46). O que observamos no Twitter é uma modalidade de ação comunicativa - a postagem -, realizada por uma persona digital - o perfil - da qual podemos ou não conhecer a identidade civil. Nos fóruns de jogos, e outros, era prática comum que essa persona digital fosse construída como uma imagem que não identificasse fotograficamente o usuário - o avatar - e tivesse um nome diferente do nome civil - o nickname. Com o predomínio de plataformas de redes sociais, como o Facebook, essas práticas foram sendo deixadas para trás em benefício do que chamei de “convergência identitária”, isto é, a exigência de que a apresentação online tornasse visível a identidade civil do usuário (Ramos, 2015RAMOS, Jair de S. 2015. “Subjetivação e poder no ciberespaço. Da experimentação à convergência identitária na era das redes sociais. Vivência: Revista de Antropologia , nº 45, p.57-76. ). Mas, no caso dos usuários que migraram da ação nos fóruns da internet para atuar como ciberativistas em plataformas de redes sociais realizando postagens que podem resultar em punições - banimento da conta na plataforma, perseguição política ou administrativa, ou mesmo persecução judicial - o anonimato permaneceu como regra de suas personas digitais.

Essa perambulação sistemática ganhou um ponto de inflexão quando vieram a público, em 2020, as primeiras informações a respeito da investigação da Polícia Federal sobre “um grupo organizado para a disseminação de notícias fraudulentas e discurso de ódio a figuras e instituições públicas, incluindo deputados, senadores e ministros do Supremo Tribunal Federal, atuando de maneira coordenada [em plataformas digitais]” (Inquérito 4781, STF: 3).2 2 Segundo Guimarães, o “Inquérito (INQ) 4781, conhecido como Inquérito das Fake News, foi aberto em 14 de março de 2019 pelo então presidente do STF, Dias Toffoli, dedicado a apurar crimes envolvendo a divulgação de notícias falsas e difamação contra o tribunal e seus ministros. Oito dias depois, o relator do inquérito, ministro Alexandre de Moraes, determinou o bloqueio das contas que atacaram o STF em mídias sociais . Os perfis analisados na operação participaram de mobilizações digitais que levaram hashtags contra o STF a ocupar o topo dos Trending Topics do Twitter entre 7 e 19 de novembro de 2019. Usuários, muitas vezes anônimos, se utilizaram de hashtags como ‘#STFVergonhaNacional’, ‘#STFEscritoriodocrime’ e ‘#ImpeachmentGilmarMendes’” (Guimarães, 2020: 11). Em seu depoimento, o deputado federal Alexandre Frota testemunhou existir um grupo de perfis anônimos que operava no Twitter fazendo parte do chamado “Gabinete do ódio” e, em seguida, declinou seus nicknames, alguns dos quais faziam parte da lista que eu acompanhava sistematicamente.

A partir daí, refinei a observação desses perfis seguindo algumas das associações identificadas na investigação policial, acompanhando suas postagens no Twitter e seguindo suas conversas quando elas me levavam para outras plataformas, especialmente o Facebook e o YouTube. Toda a minha observação foi feita nos espaços públicos das plataformas e capturam postagens públicas, ainda que os autores as tenham apagado posteriormente. Assim como a Polícia Federal, eu também não identifiquei as identidades civis dos perfis, mas esta nunca foi uma preocupação maior da pesquisa, uma vez que meu foco estava em identificar e compreender padrões de ação discursiva. Mas há uma outra razão, ética e política, que levou a anonimizar esses perfis neste artigo.

Uma das motivações da trollagem é construir reputação no interior da rede de perfis com a qual o agente se identifica ao capturar a atenção na rede de perfis adversários e perturbar o seu funcionamento. Assim, uma das formas mais antigas de trollagem antifeminista em espaços sociodigitais era se passar por uma mulher feminista e participar das listas de discussão por email para dizer coisa absurdas e/ou insultuosas que perturbavam o fluxo da comunicação. A perturbação era recebida como um prêmio que construía reputação e admiração entre seus pares. Ainda que estes ciberativistas de extrema-direita afirmem que o anonimato e a trollagem tenham sido reconfigurados como tática alt-right de luta contra autoritarismos, a busca por construir reputação continua sendo um motivo fundamental de suas ações. Daí não me surpreendi quando testemunhei um desses perfis se gabando de ter seu nickname arrolado tanto no inquérito do STF quanto, mais tarde, de ter se tornado objeto de investigação científica em monografias e artigos acadêmicos. Essa é a razão pela qual, nesse artigo, eu tento interromper esse ciclo de validação dos trolls adotando uma segunda camada de anonimização dos perfis anônimos, de modo que só identificarei figuras que não recorrem ao anonimato.

Por outro lado, acompanhei também alguns perfis que expõem sua identidade civil e que ocupam uma posição de liderança na militância bolsonarista. Os filhos de Jair Bolsonaro que possuem mandato político: Flávio Bolsonaro, senador; Eduardo Bolsonaro, deputado Federal; e Carlos Bolsonaro, vereador; e também o intelectual público Olavo de Carvalho, falecido em janeiro de 2022. Como esses agentes disputam publicamente a direção desse movimento ciberativista de extrema direita, suas postagens são amplamente conhecidas e divulgadas e são apropriadas nessas disputas de virilidade, sendo assim, examinadas nesse artigo.

Masculinidade, modelos culturais e metáforas

Orientados pelos modos de ação do alt-right estadunidense, estes perfis tanto emulam ideias, estéticas e performances da extrema-direita global, especialmente vindas dos Estados Unidos, quanto se esforçam por adaptar um conjunto de termos, símbolos e práticas do alt-right americano para a realidade brasileira (Casarões, 2022CASARÕES, Guilherme. 2022. Subculturas no submundo: ideias, símbolos e performances da extrema-direita global. Palestra na Mesa Redonda “Teatralidade e performance na política. Estratégias da extrema direita no Brasil e no Exterior”. Canal NELAP UFMG. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=JkZNqRqSGs0&t=1177s [Acesso em ago. 2023]
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). Nesse sentido, além das práticas de assédio já descritas, é importante apresentar alguns termos que eles adaptaram e que vão aparecer nas postagens que analisaremos mais à frente. Vejamos um pequeno glossário:

Beta: os membros do alt-right são obcecados com a masculinidade concebida em termos de virilidade que, por sua vez, se realiza nas relações de luta e dominação entre homens. Essa ideia é objetivada no uso recorrente das categorias “macho alfa” e “beta”. Os machos alfa são líderes viris e os machos beta são retratados como fracos e castrados. É interessante ter em mente que essas categorias são usadas fundamentalmente em contextos de acusação. Os diálogos entre esses perfis revelam um ambiente autoderrisório, de modo que há mais ataques à falta de virilidade do que afirmações de virilidade, e, assim, o termo “beta” é mais recorrente.

Cuckservative ou cuck: o termo “cuckservative” originou-se no alt-right e é uma junção de “conservador” e “corno” usado para descrever republicanos que são vistos como castrados ou “vendidos”. Cuckservative é uma acusação de uso generalizado e será vista aqui também na adaptação cornoservador, mas, sobretudo, como matriz de termos locais, como “calça apertada” e “prudência e sofisticação”.

Chad: garanhão, em adaptação brasileira. Diferente do Alfa, ele não lidera, apenas realiza seus desejos e vontades livremente. No vocabulário da manosfera, o termo Chad identifica aqueles homens que são o objeto preferencial de inveja por serem naturalmente atraentes, inteligentes, bem-sucedidos com as mulheres e materialmente. A categoria é usada de modo autoderrisório para reforçar a noção de que, sem algum tipo de revolta ou transformação, os homens dessas comunidades se resignam a uma posição inferior e não têm as mulheres que desejam, ou que acham que merecem, já que as mulheres são superficiais, interessadas apenas em beleza e dinheiro, e eles não se parecem com os chads. Na adaptação por meio da qual os perfis brasileiros fazem uso político do termo, a ideia de sucesso com as mulheres fica em segundo plano. A categoria é usada para identificar aquele que vence as batalhas e impõe sua vontade sem se preocupar com nada. Assim, na relação entre Jair Bolsonaro e Alexandre de Moraes, juiz do STF, as derrotas do primeiro, vão resultar na atribuição do apelido “Alechad” para o segundo.

Essas categorias evidenciam que os modelos de masculinidade focados na ideia de virilidade são centrais para o modo como esses perfis compreendem as lutas políticas, compreensão que pode ser resumidas em três ideias fundamentais: os homens são os protagonistas da política; a política, ela mesma, é resultado de lutas de dominação entre homens; e o resultado das lutas é tanto o produto quanto permite mensurar a virilidade dos homens envolvidos. É importante ressaltar que esses modelos têm uma dimensão reflexiva e autocrítica. Esses agentes não se limitam a operar com esses modelos em suas práticas; de forma mais ou menos irrefletida, eles examinam a si e aos outros e avaliam as interações e seus resultados em termos de virilidade.

Estas observações nos permitem recuperar a discussão teórica iniciada mais atrás. Segundo Kimmel, as masculinidades são socialmente construídas em dois campos inter-relacionados de relações de poder: nas relações de homens com mulheres e nas relações dos homens com outros homens, de modo que a dominação masculina opera não apenas como o poder dos homens sobre as mulheres, mas também como o poder de alguns homens sobre outros homens. E essa relação entre homens se desdobra em duas outras dimensões: de um lado, a masculinidade está sempre em risco, ela pode ser perdida ou diminuída de acordo com o resultado das lutas. E, de outro, a consciência de que ela está em jogo em relações de poder é maior entre aqueles que são derrotados nas lutas de virilidade (Kimmel, 1998KIMMEL, Michael. 1998. A produção simultânea de masculinidades hegemônicas e subalternas”. Horizontes Antropológicos, vol. 4, nº 9, p. 103-117. DOI 10.1590/S0104-71831998000200007
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).

As lutas de virilidade fazem parte de um modelo cultural de masculinidade que Kimmel chamou de “homem de verdade”.

Segundo Kimmel, há um modelo de masculinidade institucionalmente valorizado: o do Bom Homem e outro, que é uma espécie de modelo da prática, que é o modelo do Homem de Verdade. Em uma entrevista de 2018, ele ilustra isso com uma conversação com cadetes de uma escola militar. Ele lhes pergunta como gostariam de ser descritos depois da morte e a definição que os rapazes lhe oferecem é a do “Bom Homem”, baseada em:

Honra, dever, integridade, sacrifício, fazer a coisa certa, defender os mais fracos, ser um provedor, ser um protetor”. Sacrifício ... Dê aos outros, seja generoso, responsável; isso é o que eles disseram que significa ser um bom homem (Kimmel; Wade, 2018KIMMEL, Michael; WADE, Lisa. 2018. “Ask a Feminist: Michael Kimmel and Lisa Wade Discuss Toxic Masculinity.” Signs: Journal of Women in Culture and Society. Vol. 44, Nº 1, p. 233-254. DOI 10.1086/698284
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p. 238).

Em seguida, Kimmel lhes pergunta sobre ser “Homem de Verdade”:

Diga-me se isso aparece para você quando eu digo: ”Cara, foda-se, seja um homem de verdade» E eles disseram: «Ah, não, isso é completamente diferente». Eu disse: “Bem, o que é isso?” E eles diziam: “[Seja] duro, forte, nunca mostre fraqueza, vença a todo custo, engula [o choro], jogue com a dor, seja competitivo, fique rico, foda [o quanto puder]”. Eu disse: “Ok, isso é o que significa ser um homem de verdade? Onde você aprendeu isso?» E eles disseram, em ordem: “Meu pai, meu treinador, meus amigos, meu irmão mais velho” (Kimmel; Wade, 2018KIMMEL, Michael; WADE, Lisa. 2018. “Ask a Feminist: Michael Kimmel and Lisa Wade Discuss Toxic Masculinity.” Signs: Journal of Women in Culture and Society. Vol. 44, Nº 1, p. 233-254. DOI 10.1086/698284
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p. 238).

O que vimos mais atrás, no glossário alt-right, é a expressão da vigência do segundo modelo no imaginário estadunidense. Contudo, como o objetivo aqui é pensar o modo como estes perfis brasileiros adaptam os temas do alt-right, é importante ter em mente os estudos sobre masculinidades que têm o Brasil como foco.

Tomando os escritos de Miriam Grossi como guia (Grossi, 2004GROSSI, Miriam Pilar. 2004. Masculinidades: Uma revisão teórica.” Antropologia em Primeira Mão, vol. 7, p. 21-42.), entende-se que a definição dominante de masculinidade no Ocidente, e na cultura brasileira, toma o masculino como princípio ativo. Essa atividade, e trata-se aqui de um segundo aspecto bastante presente no Brasil, pode ter um sentido sexual e produtor de gênero, uma vez que está diretamente relacionada à possibilidade de penetração de um outro corpo que, independente do gênero, é feminizado justamente por ser penetrado. Assim, temos um caminho de especificações que partem do sentido geral do masculino como vinculado à atividade, para a definição da atividade como uma ação sexual específica: penetrar com o pênis os orifícios de um outro corpo; deriva daí também uma última especificação: o ato de penetrar tem o poder de ratificar ou retificar gênero, masculinizando o que penetra e feminilizando o corpo penetrado. A autora assinala ainda um outro aspecto do “modelo de masculinidade hegemônica em nossa cultura: a atividade não diz respeito apenas à sexualidade; ela é também percebida positivamente como agressividade” (Grossi, 2004GROSSI, Miriam Pilar. 2004. Masculinidades: Uma revisão teórica.” Antropologia em Primeira Mão, vol. 7, p. 21-42.: 6).3 3 Como nos lembra a autora, “uma das formas mais humilhantes de violência nas instituições carcerárias é a violência sexual à qual são submetidos grande parte dos prisioneiros, sobretudo por parte dos outros presos, companheiros de cela. O uso de violência sexual é fundamental no processo ritual de incorporação de um novo preso à instituição, porque ela ensina aos novos a hierarquia da cela através da feminização que o ato sexual com penetração anal sugere” (Grossi, 2004: 8).

Mais adiante, retomaremos a relação entre masculinidade, penetração, virilidade e violência, mas queremos reter o fato de que, se é verdade que gênero não é aquilo que deriva de um corpo sexuado, o corpo e os modos de ação sobre ele configuram o suporte no qual são produzidas as diferenças simbólicas de gênero. Assim, veremos como as postagens atribuem às lutas políticas a capacidade de feminilizar ou virilizar os seus agentes. Essa atribuição é expressa nas metáforas empregadas para nomeá-los e às lutas políticas. Assim, antes de examinar as postagens de texto, memes e/ou fotos, como elas foram escolhidas e lidas a partir de suas metáforas, vou fazer algumas observações sobre o uso analítico que fiz destas chamadas figuras de linguagem.

Lakoff e Johnson (1980LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. 1980. Metaphors We Live By. Chicago: University of Chicago Press.) argumentam que as metáforas têm um papel fundamental “na estruturação da linguagem, do pensamento, da percepção e das ações humanas”, conforme comentou Gustavo Augusto Silva (2021SILVA, Gustavo Augusto Fonseca. 2021. “40 anos de Metaphors we live by: considerações sobre a teoria das metáforas conceituais de Lakoff e Johnson”. Revista de Estudos da Linguagem, vol. 29, nº 1, p. 153-214. DOI 10.17851/2237-2083.29.1.153-214
https://doi.org/10.17851/2237-2083.29.1....
: 163), funcionando não apenas como figura de linguagem, mas como mecanismo de estruturação da cognição, ao construir molduras de compreensão em todos os campos da ação e da interação humanas. Nesse sentido, tanto a masculinidade quanto a política,4 4 Lakoff se baseou em seu argumento sobre o papel das metáforas para analisar as diferenças políticas entre liberais e conservadores nos EUA como uma diferença na forma como o Estado é metaforicamente compreendido. Segundo o autor, esquerda e direita metaforizam moralmente o governo a partir da família. No caso da esquerda, o governo é pensado como «pai cuidadoso» - que protege e oferece possibilidades aos cidadãos. Já a direita metaforiza o Estado na figura do «pai austero», que ensina o respeito à autoridade e à disciplina (Lakoff, 1995). os dois temas dos perfis investigados nesse artigo, podem ser estudados a partir das metáforas mobilizadas na sua compreensão.

O argumento de que a cognição é estruturada por metáforas lança luz sobre seu potencial analítico quando se busca entender padrões de compreensão e ação, especialmente as políticas. Entretanto, Lakoff foi criticado por antropólogos por inverter a relação entre modelos culturais e metáforas, uma vez que são os modelos culturais que fundamentam as metáforas que, por sua vez, organizam a compreensão, e não o contrário (Silva, 2021SILVA, Gustavo Augusto Fonseca. 2021. “40 anos de Metaphors we live by: considerações sobre a teoria das metáforas conceituais de Lakoff e Johnson”. Revista de Estudos da Linguagem, vol. 29, nº 1, p. 153-214. DOI 10.17851/2237-2083.29.1.153-214
https://doi.org/10.17851/2237-2083.29.1....
: 166). O aspecto interessante dessa crítica é que ela preserva a contribuição metodológica de Lakoff - entender como as metáforas organizam a compreensão - exigindo, contudo, que examinemos os modelos culturais que estruturam as metáforas.

Assim, me parece adequado partir do pressuposto de Lakoff segundo o qual o discurso político é predominantemente metafórico. O uso da metáfora está longe de se limitar aos chamados políticos populistas, sendo a forma geral dos discursos no debate político. Em segundo lugar, a metáfora não tem apenas a função instrumental de simplificar a apresentação de ideias complexas, mas estrutura, de fato, os modos de compreensão da própria política que são expressos nos discursos (Lakoff, 1995LAKOFF, George. “Metaphor, morality, and politics, or, why conservatives have left liberals in the dust”. Social Research, vol. 62, nº 2, p.177-214, 1995.).

Minha análise das postagens consiste, como já veremos, em examinar as metáforas misóginas e homofóbicas empregadas pelos ciberativistas da extrema-direita, na medida em que verifico que têm uma função estrutural no discurso político desses agentes. Contudo, concordo com as críticas à radicalidade do argumento de Lakoff e, portanto, conduzo o exame das postagens a partir da hipótese que as metáforas analisadas são estruturadas por uma dada produção cultural de masculinidade que orienta esses ciberativistas a compreender as lutas políticas como lutas de virilidade.

A virilidade na política: as metáforas sexuais de dominação em ação

Frouxonaro - uma acusação que vem da esquerda e chega à extrema-direita

As imagens de força e virilidade são traços que Jair Bolsonaro mobiliza na construção de sua imagem pública. Daí, não é surpreendente que seus críticos tenham atacado o candidato, por sua recusa em ir aos debates presidenciais de 2018, utilizando a expressão “Frouxonaro”. A pesquisa avançada do Twitter mostra que essa expressão começou a ser usada, em outubro de 2018, por críticos que se localizavam à esquerda5 5 A expressão voltaria a ser usada no Twitter, por críticos de esquerda, em janeiro de 2019, quando o presidente cancelou uma entrevista coletiva no encontro de líderes mundiais em Davos. . A imagem a seguir mostra esse movimento.

Figura 1

Os primeiros deslocamentos no uso dessa expressão da esquerda para a direita vieram com a intensificação das críticas ao STF, entre os bolsonaristas, no final de 2019. Inicialmente, a crítica foi dirigida ao senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, por não apoiar nem uma CPI nem um pedido de impeachment para alguns ministros do STF. Ele foi criticado com a expressão “Flávio Frouxonaro”. Mas, a partir da intensificação da tensão com os partidários do então ministro Sérgio Moro, entre o final de 2019 e o primeiro semestre de 2020, a expressão começou a ser usada contra o presidente por uma parcela morista de seus apoiadores, por aquilo que era visto como uma fraqueza mais ampla no encaminhamento das pautas conservadoras. Naquele momento, o termo passou para o campo da direita, mas ainda estava circunscrito aos apoiadores de Sérgio Moro. Foi só a partir de meados de 2020 que o termo começou a fazer parte do vocabulário crítico de um segmento importante de apoiadores do presidente: os partidários do intelectual público Olavo de Carvalho, que dirigia uma crítica cada vez mais sistemática ao predomínio de militares e juristas na direção do governo. Além dessa crítica, como mostra o tweet abaixo, no mesmo ano de 2020, também a aceitação (mesmo que tardia) do governo Bolsonaro às vacinas contra a Covid-19, especialmente a Coronavac, serviu de mote às acusações de “frouxonarismo” por parte dos ciberativistas pesquisados:

Figura 2

Esse deslocamento de uma crítica nascida na esquerda para sua ampla utilização na direita implica um deslizamento sutil, mas importante. O que, na esquerda, era uma ironia que atacava a performance viril de Jair Bolsonaro, na direita, se inscrevia em uma crítica mais ampla que o alt-right dirigia à direita tradicional, acusada de ser demasiado “civilizada” e incapaz de defender os valores conservadores em uma situação de guerra de civilizações. É justamente isso que se observa nos desdobramentos da crítica à falta de virilidade de Bolsonaro.

O vocabulário sexual e a adaptação da crítica do alt-right à direita estabelecida

Dois personagens do bolsonarismo são incontornáveis quando pensamos na adaptação da crítica norte-americana do alt-right no Brasil, são eles: Olavo de Carvalho e Carlos Bolsonaro, primeiro filho, e por isso chamado de “01”. Carlos também foi o líder da comunicação digital de Bolsonaro durante seu mandato. Olavo ofereceu o modelo da retórica chula, cheia de referências sexuais, sobretudo anais, como ferramenta fundamental de comunicação política. Um exemplo entre vários pode ser encontrado no tweet reproduzido a seguir:

Figura 3

Já Carlos fez um esforço de adaptação do alt-right estadunidense, cunhando apelidos, frequentemente de cunho sexual, para identificar os inimigos políticos do pai. Tais apelidos servem largamente de categoria de identificação e acusação no interior do segmento olavista da militância digital bolsonarista. No tweet a seguir, por exemplo, Carlos Bolsonaro ataca o ex-aliado Sérgio Moro:

Figura 4

Uma das expressões mais usadas por Carlos Bolsonaro é “prudência e sofisticação” e, segundo o jornalista Fabio Zanini, a expressão serve para ridicularizar os políticos de direita, especialmente os que se definem como liberais, e são críticos ao radicalismo bolsonarista. Neste enquadramento, estão o governador de São Paulo, João Doria, e as lideranças do Partido Novo e do Movimento Brasil Livre (MBL). Segundo o autor, o termo é criação de um canal satírico de YouTube chamado Brasileirinhos que faz muito sucesso entre os apoiadores do presidente. O canal traz dois atores, vestidos de palhaço ou usando máscaras, que protagonizam os esquetes. Diz Zanini: “Os vídeos têm uma linguagem nonsense, mas, com indisfarçável conteúdo pró-Bolsonaro. Num desses vídeos, de 5 de janeiro de 2020, surgiu a expressão ‘prudência e sofisticação’, para ironizar os liberais. Nele, homens vestidos de executivos dos anos 80 exibem seus modelitos na frente de uma parede alaranjada. “Liberais: Prudência e sofisticação”, começa o vídeo. E continua: “Eles são cautelosos em suas posições. Eles dão as costas aos fanatismos. Curtem uma mão invisível. Polarização? Não!”, diz um locutor. O vídeo termina com uma frase que se transformou em um meme bolsonarista. “Liberalismo. Cê curte?” (Zanini, 2020ZANINI, Fábio. 2020. “Canal do YouTube dá munição a Carlos Bolsonaro para zoar Doria e liberais”. Blog Saída pela Direita. Folha de São Paulo, 3 abr. Disponível em: https://saidapeladireita.blogfolha.uol.com.br/2020/04/03/por-que-carlos-bolsonaro-fala-tanto-em-prudencia-e-sofisticacao-na-crise-do-corona/ [Acesso em ago. 2023]
https://saidapeladireita.blogfolha.uol.c...
).

Como podemos ver, o vídeo e sua apropriação por Carlos Bolsonaro revelam um esforço por adaptar o argumento alt-right da existência de uma direita feminilizada, “que dá as costas” e “curte uma mão invisível”. Não é difícil perceber as referências aos jogos sexuais juvenis nos quais a masculinidade está em risco nas nádegas expostas às passadas de mão.

O personagem político que concentrou esse tipo de crítica foi o então governador de São Paulo, João Dória, que ganhou o apelido de “calça colada”. Aqui, também, a conotação sexual feminizante se revela pela aproximação entre a calça que Dória usa e o suposto vestuário feminino ou gay, em que a roupa seria apertada para revelar as nádegas como objeto de desejo, em contraste com a roupa masculina que seria folgada por privilegiar o conforto e a praticidade e não a exibição das nádegas.

A nomeação de Kássio Nunes e a crítica ao aparato jurídico do governo em junho de 2020

Depois de uma série de críticas ao STF, desde o início do mandato em 2019, Bolsonaro revelou, em junho de 2020, sua escolha para a primeira vaga aberta no tribunal. Essa escolha, que recai sobre Kassio Nunes Marques, é amplamente criticada pela militância digital bolsonarista, vista como uma concessão ao que eles chamam pejorativamente de establishment jurídico e político.

Assim, aquela crítica à “prudência e sofisticação” que vimos acima, e que foi utilizada por Carlos Bolsonaro contra Moro, passa a ser utilizada, por parte dos ciberativistas bolsonaristas, contra o próprio governo Bolsonaro. É o que podemos ver na imagem a seguir, retirada da postagem de um dos ciberativistas citados no inquérito do STF. Nela, o então Secretário Geral da Presidência, Jorge Oliveira, e o então Advogado-geral da União, André Mendonça, aparecem diante de uma foto presidencial, na qual Jair Bolsonaro foi substituído pelo ministro do STF, Alexandre de Moraes:

Figura 5

Entre os bolsonaristas digitais, as imagens do presidente abraçado, em situação informal, com os ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes foram vistas como especialmente insultuosas. É a partir dessas reações que vamos continuar a analisar o movimento de adaptação do vocabulário alt-right estadunidense ao Brasil.

Nagle identifica uma categoria de acusação que os ativistas alt-right mobilizam contra a direita mainstream: cuckservative. Como vimos mais acima, o termo nasce da contração de dois outros: conservative (conservador) e cuck, que é uma contração de cuckhold, termo que se refere a uma fantasia sexual em que um homem oferece sua mulher sexualmente a outro homem. No imaginário estadunidense, essa fantasia sexual é frequentemente racializada, com o casal sendo branco e o outro homem sendo negro. Assim, o alt-right parte de uma identidade masculina sexualizada para criticar os conservadores. Em um movimento de adaptação, segmentos expressivos da extrema direita brasileira utilizam, em palavras e imagens, um vocabulário associado ao termo cuckservative para criticar a direita tradicional. Várias referências à emasculação, à homossexualidade, à cornitude são utilizadas na realização de embates políticos e de sua avaliação. Veremos como será justamente o cuck que vai se tornar a matriz das metáforas que assinalam a virada crítica dos bolsonaristas contra o governo Bolsonaro, à medida em que o presidente falha em realizar suas promessas de ruptura institucional.

Um bom exemplo é o primeiro tweet abaixo. A mensagem original, que aparece na sequência, é uma frase tuitada em 2017 por Olavo Carvalho que, em seu estilo característico repleto de referências anais e de homofobia, criticava a direita tradicional. Desde então, a frase vem sendo frequentemente repetida pela militância digital bolsonarista. Em 2021, ela foi reorientada, ou seja, utilizada pelos ciberativistas de extrema-direita para criticar a própria família Bolsonaro.

Figura 6

A partir dessa matriz metafórica - do ser “passivo” na relação sexual ou de deixar que sua mulher seja penetrada por outro - são produzidas imagens que são amplamente divulgadas graças à ação coordenada na forma do levantamento de hashtags desse tipo no Twitter:

Figura 7

E de referências à condição de cuck, como no tweet seguinte:

Figura 8

Assim, a nomeação de Kássio Nunes é compreendida por meio da metáfora da submissão sexual de Bolsonaro ao STF, na figura dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Sabemos que, no campo da extrema-direita norte-americana, o leite opera como símbolo dos supremacistas brancos. A adaptação feita na extrema-direita brasileira, ao transformar o substantivo leite em um verbo, leitar, opera uma mudança na metáfora. Aqui, trata-se de entender a ejaculação como marco da submissão de uma mulher ou de um homem a outro homem. O termo foi frequentemente usado no ataque a ciberfeministas, com o uso da pergunta irônica e agressiva: “Deixa eu te leitar?”. A novidade é que essas categorias são usadas não apenas para desqualificar adversários políticos, mas, para explicar relações políticas e tecer críticas dentro do próprio campo da extrema-direita. Assim, os frequentes ataques de Bolsonaro aos juízes do STF, seguidos de recuos e acordos feitos pelo presidente, são explicados por meio de metáforas que classificam o comportamento do presidente como desvirilizado e como expressão mesma do cuckismo.

A vachina e a submissão ao calça colada

O uso de metáforas sexuais para qualificar determinadas relações políticas como submissão sexual entre homens, o que é parte do cuckismo, foi particularmente intensa nas críticas à compra, no início de 2021, pelo governo federal, da vacina Coronavac, que havia sido ridicularizada por Bolsonaro e seus seguidores como “vachina”. A compra foi feita junto ao governo de São Paulo, dirigido por João Dória que, como vimos, era o personagem preferido das críticas à direita tradicional através da alcunha de “calça colada”. Esse recuo foi explicado em termos de metáforas sexuais, como podemos ver nos tweets reproduzidos a seguir:

Figura 9

Figura 10

Figura 11

De fato, a leitura que jornalistas fazem do estilo político de Bolsonaro, feito de radicalizações seguidas de recuos, é metaforizado por estes ciberativistas como emasculação e submissão sexual diante dos juízes do STF, como é possível observar a seguir:

Figura 12

Na medida em que os conflitos e as relações políticas são compreendidos como disputas sexuais masculinas, essas metáforas sexuais funcionam como categorias de acusação e categorias de compreensão. Assim, se a política é metaforizada como guerra pela extrema-direita (Rocha, 2021ROCHA, João Cezar de Castro. 2021. Guerra Cultural e Retórica do ódio: Crônicas de um Brasil pós-político. (s/l): Editora e Livraria Caminhos.), essas metáforas de guerra são construídas em torno do modelo cultural de afirmação da masculinidade como submissão sexual de homens a homens. É com base nesse modelo que a falha de Bolsonaro em sua suposta luta contra o sistema é compreendida como submissão sexual aos homens do establishment jurídico e político. Especialmente, àquele, dentre eles, que é retratado como o homem que impõe sua virilidade: o juiz do STF, Alexandre de Moraes. Essa é a razão pela qual o juiz recebe a alcunha de Alechad, entre os bolsonaristas.

Ao longo do artigo, tenho argumentado que estes ciberativistas de extrema-direita fazem da sexualidade um mecanismo de compreensão e julgamento das lutas políticas, que opera como princípio organizador de suas ações na rede. Em outras palavras, esses agentes metaforizam as disputas políticas - mesmo e frequentemente dentro de seu próprio nicho - como disputas masculinas e sexuais. Nas seções a seguir, vamos articular várias ideias apresentadas ao longo do artigo para argumentar que essas metáforas se fundam em um modelo cultural e em uma experiência vivida de construção de masculinidade que se tornam ainda mais fortes em um contexto digital. Argumento que isso ocorre porque há uma afinidade eletiva entre a experiência de construção de masculinidade vivida no que Welzer Lang chamou de “casa dos homens” e o ambiente de desintermediação digital característico das plataformas.

Desintermediação institucional, reintermediação digital e tendências antiestruturais das plataformas digitais

Não é possível compreender inteiramente o modo de atuação destes ativistas de extrema direita sem compreender o modo como a arquitetura das plataformas digitais estrutura espaços sociais. De fato, uma das preocupações centrais da vasta literatura contemporânea sobre as transformações sociais derivadas da generalização de tecnologias digitais de comunicação tem sido compreender os modos pelos quais arquiteturas e algoritmos específicos operam em rede com ações e interações humanas produzindo efeitos em modos de subjetivação e sociabilidade. E a política é um dos campos mais influenciados por estas transformações. Assim, há uma ampla literatura sobre as transformações das atividades de política eleitoral a partir da generalização das plataformas digitais (Ramos, 2019RAMOS, Jair. 2019. Machines among the crowd: on the political effects of algorithmic production of social currents. Vibrant: Virtual Brazilian Anthropology, vol. 16, p. e16210, 2019. DOI 10.1590/1809-43412019v16a210
https://doi.org/10.1590/1809-43412019v16...
; Bennett e Segerberg, 2012BENNETT, W. Lance; SEGERBERG, Alexandra. 2012. “The logic of connective action: Digital media and the personalization of contentious politics”. Information, communication & society, vol. 15, nº. 5, p. 739-768. DOI 10.1080/1369118X.2012.670661
https://doi.org/10.1080/1369118X.2012.67...
; Gerbaudo, 2015GERBAUDO, Paolo. 2015. “Protest avatars as memetic signifiers: political profile pictures and the construction of collective identity on social media in the 2011 protest wave”. Information, communication & society, v. 18, p. 916-929. DOI 10.1080/1369118X.2015.1043316.
https://doi.org/10.1080/1369118X.2015.10...
; Treré, 2015TRERÉ, Emiliano. 2015. “Reclaiming, proclaiming, and maintaining collective identity in the #YoSoy132 movement in Mexico: an examination of digital frontstage and backstage activism through social media and instant messaging platforms”. Information, communication & society , vol. 18, nº 8, p. 901-915. DOI 10.1080/1369118X.2015.1043744
https://doi.org/10.1080/1369118X.2015.10...
; Gerbaudo e Treré, 2015GERBAUDO, Paolo; TRERÉ, Emiliano. (2015). In search of the ‘we’ of social media activism: introduction to the special issue on social media and protest identities”. Information, communication & society, vol. 18, p. 865-871. DOI: 10.1080/1369118X.2015.1043319
https://doi.org/10.1080/1369118X.2015.10...
; Machado e Miskolci, 2019MACHADO, Jorge; MISKOLCI, Richard. 2019. “Das Jornadas de junho à cruzada moral: o papel das redes sociais na polarização política brasileira”. Sociologia & Antropologia, vol. 9, nº 3, p. 945-970. DOI https://doi.org/10.1590/2238-38752019v9310
https://doi.org/10.1590/2238-38752019v93...
; Bülow e Dias, 2019BÜLOW, Marisa von; DIAS, Tayrine. 2019. “O ativismo de hashtags contra e a favor do impeachment de Dilma Rousseff”. Revista Crítica de Ciências Sociais, n. 120, p. 5-32. DOI 10.4000/rccs.9438
https://doi.org/10.4000/rccs.9438...
; Cesarino, 2019CESARINO, Letícia. 2019. Identidade e representação no bolsonarismo. Corpo digital do rei, bivalência conservadorismo-neoliberalismo e pessoa fractal”. Revista de Antropologia, vol. 62, nº 3, p. 530-557. DOI 10.11606/2179-0892.ra.2019.165232
https://doi.org/10.11606/2179-0892.ra.20...
e 2020aCESARINO, Letícia. 2020a. Como as mídias sociais proporcionam uma política populista: observações sobre a liminaridade com base no caso brasileiro”. Trabalhos em Linguística Aplicada, vol. 59, nº 1, p. 404-427. DOI https://doi.org/10.1590/01031813686191620200410
https://doi.org/10.1590/0103181368619162...
).

Aqui, vamos nos concentrar em uma tese específica sobre o impacto do digital: a arquitetura das plataformas produz mecanismos de desintermediação institucional e reintermediação digital que têm impacto sobre regimes de verdade e modos de subjetivação. Em outras palavras, as tecnologias de comunicação digital, organizadas em plataformas, aumentam a capacidade comunicacional de ação dos agentes, ao mesmo tempo em que se tornam um espaço fundamental de validação da veracidade dos discursos públicos, uma vez que é a própria audiência que qualifica as afirmações desses agentes. Este processo fragiliza as instituições jornalísticas, científicas e administrativas como produtoras de conhecimento e também as posições de autoridade existentes no interior dessas instituições.

Essa arquitetura tem impactos no modo como os agentes são percebidos e se percebem, no modo como constroem motivos para a ação e no repertório de ação a que recorrem. Ela é orientada por uma governamentalidade neoliberal que não apenas reifica usuários na forma de indivíduos como os trata como empresas em um regime concorrencial que tem na atenção seu bem escasso. Nesse ambiente concorrencial, em que os mecanismos algorítmicos de difusão e de medição da audiência estão intrinsecamente ligados, a articulação entre ações humanas e atividades maquínicas que organiza sociabilidade e processos de subjetivação nas plataformas digitais se traduz em um par analítico fundamental que liga curadoria algorítmica e empreendedores digitais.

Nesse sentido, abordo os ciberativistas aqui estudados como empreendedores digitais que acumulam um capital de reputação e audiência através das lutas online por atenção. O estilo sensacionalista e insultuoso é, literalmente, uma tática de captura da atenção tanto naquelas redes a que se opõe quanto naquelas de que faz parte, operando através da captura de afetos como a indignação e o senso de ridículo. Eles expressam um dos aspectos fundamentais do alt-right, que é não apenas a grande presença de empreendedores digitais, mas um estilo específico de fazer política que é adequado à arquitetura anti-institucional das plataformas digitais.

Cesarino aborda essa arquitetura como favorável a mobilizações associativas antiestruturais. Segundo a autora, a mobilização política populista dos ciberativistas de Jair Bolsonaro nos grupos de WhatsApp, Facebook, ou nos filtros-bolhas no Twitter apresenta características antiestruturais nos termos definidos por Victor Turner (Cesarino, 2020bCESARINO, Letícia. 2020b. “Como vencer uma eleição sem sair de casa: a ascensão do populismo digital no Brasil”. Internet & Sociedade, vol. 1, n° 1, p. 91-120.). E, de fato, algumas dessas características estão presentes na mobilização política dos ciberativistas aqui estudados.

A primeira delas é que, nestas mobilizações, os marcadores que distinguem os agentes segundo posições na estrutura social são suspensos. De fato, o anonimato online que é, como vimos, característico de parcela dos perfis investigados, oculta informações de identidade civil, tornando possível assim, a operação de princípios gerais de identificação que são afirmados no curso mesmo da interação e nas lutas com o grupo ao qual eles se opõem.

O que nos leva à segunda caraterística apontada pela autora, que é a construção de um sentimento de comunidade estabelecido em contraposição a um campo adversário. Nesse sentido, as ações dos ciberativistas são operadas como ações comunitárias, isto é, como realizadas tendo, como fundamento, a ideia de nós entendida como coletividade moral. Daí, as acusações dirigidas a Jair Bolsonaro, pelo que é visto como falha nos embates com o establishment, expressam sentimentos de vergonha coletiva, o que explica a intensidade afetiva expressa nos xingamentos que vimos nas postagens

Isso está diretamente ligado à terceira característica, que consiste em um nivelamento geral desses agentes e na mobilização de elementos estruturais da cultura na construção desse sentimento comunitário, dessa ideia de nós. Cesarino explora a simbologia da ideia de Pátria nessa construção. E aqui, quero assinalar que identifico entre ciberativistas que investiguei essa mesma simbologia da Pátria, mas generificada, a partir da perspectiva alt-right, como uma entidade feminina que deve ser protegida por uma atividade masculina. Nesse sentido, masculinidade é o elemento cultural estrutural que organiza a experiência comum desses agentes. Daí, a luta pela defesa da Pátria mobiliza o ideal do Bom Homem, apresentada há pouco, e aquilo que é nomeado como falha em defender a Pátria dos ataques do establishment é lido como falha moral e codificado na categoria cuckismo, segundo o modelo do Homem de verdade.

Por fim, o conceito de antiestrutura permite a Cesarino compreender o recurso, nos espaços antiestruturais que investiga, ao uso invertido dos marcadores por meio dos quais a hierarquia social e a estrutura social são simbolizadas. Ela aborda o poderoso simbolismo religioso da inversão contida na frase “Deus não escolhe os capacitados, ele capacita os escolhidos” que serviu de mote à campanha de Bolsonaro entre evangélicos. Essa inversão desqualifica um marcador da posição das classes de maior renda, que é o estudo.

Entre os ciberativistas que investiguei, não há esse uso instrumental da religião, mas são muitos os exemplos de inversão antiestrutural aplicados ao que eles chamam pejorativamente de “elites”, esse lugar de Grandes Homens incapazes de agir como Bons Homens. O primeiro deles é a referência às roupas que marcam essas posições: ternos e gravatas que são invertidos como “calça apertada”, marcador da feminilidade dessas elites. O segundo, é a abundância, como vimos, de referências anais e genitais nas postagens, não apenas como estilo de linguagem, mas como modo de entender e julgar as lutas políticas. Assim, a negociação política, que supõe o domínio de saberes técnicos e de modos de fala que são atributos de homens escolarizados, é invertida na forma de lutas que são simbolizadas sexualmente. De modo que não há acordos nem pareceres técnicos, apenas vontade, imposição e submissão.

A internet como playground do alt-right: a afinidade eletiva entre casa dos homens e socialidade anti-institucional das plataformas digitais

Vimos mais acima, nas postagens desses ciberativistas, o uso dos apelidos, dos insultos com referências sexuais, de táticas de comunicação violenta que apelam aos afetos e de mensagens de duplo sentido. Vimos também que estas táticas são eficazes na comunicação nas plataformas digitais. Essa eficácia fica visível na relação entre postagem e atividade algorítmica, de um lado e mensagem de duplo sentido de outro. O uso sexual do termo “leitar” exemplifica bem essas duas dimensões.

Como a comunicação digital não ocorre em um espaço público supostamente homogêneo, mas desenvolve simultaneamente em diferentes redes, a ampla audiência da postagem, a viralização, depende da articulação entre a reação dos agentes de múltiplas redes e a curadoria algorítmica dessas reações. O insulto dirigido aos adversários é feito em ação coordenada de múltiplos perfis e é usado para obter efeitos afetivos que gerem reações que sejam capazes de atravessar redes diferentes e tornem a postagem alvo de uma atividade algorítmica de ampliação. Por outro lado, a existência de múltiplas redes é simplificada no modelo de interação conflituosa na forma de duas redes, uma de aliados e outra de antagonistas, e fundamenta uma comunicação de duplo sentido em são empregadas técnicas de ironia, de brincadeiras insultuosas, de dog whistle (o apito de cachorro, em que um símbolo de uso comum é apropriado com uma conotação específica, para o grupo de referência) e outras.

Um dos exemplos notórios de dog whistle é o uso do copo de leite por supremacistas brancos estadunidenses. Mas a apropriação brasileira, o “leitar” sexual, é operada reflexivamente pelos ciberativistas como trolladores, de modo que o conhecimento, do conceito de dog whistle, mesmo que pelas redes antagonistas, garante que a mensagem será recebida com a indignação derivada da suspeita de supremacismo, o que aumentará o poder ofensivo da mensagem sexual. Trata-se do uso da trollagem e da zoação para produzir a indignação nas redes antagônicas e, a partir daí, reputação nas redes compartilhadas e, com os dois movimentos, amplificação algorítmica da circulação das mensagens. Estas táticas, que são apropriadas nas disputas por atenção nas plataformas digitais, tornam-se, assim, parte fundamental das práticas políticas dessa direita alternativa.

Mas não me parece que essas táticas surjam originalmente nas plataformas. Creio que elas derivam de experiências de comunicação e de interação anteriores ao uso da internet que se fundamentam em determinados modelos culturais. No caso dos ciberativistas aqui estudados, argumento que suas táticas derivam de uma experiência juvenil de construção de masculinidade na qual a agressividade verbal e o uso do duplo sentido são gerais. Nesse sentido, antes de ser uma característica das comunidades de gamers e do movimento alt-right, a trollagem já era uma característica da masculinidade juvenil. Para desenvolver o argumento, vou retomar a discussão sobre teoria da construção social das masculinidades.

A definição de Kimmel, já apresentada anteriormente, dos modelos de Homem de verdade e Bom Homem ganhou um desenvolvimento importante com a conceituação do que Welzer Lang (2001) chamou de “Casa dos Homens”. Segundo o autor:

Descrevi como a educação dos meninos nos lugares monossexuados (pátios de colégios, clubes esportivos, cafés..., mas mais globalmente o conjunto de lugares aos quais os homens se atribuem a exclusividade de uso e/ou de presença) estrutura o masculino de maneira paradoxal e inculca nos pequenos homens a ideia de que, para ser um (verdadeiro) homem, eles devem combater os aspectos que poderiam fazê-los serem associados às mulheres. Eu propus, referindo-me aos trabalhos de Maurice Godelier, nomear o conjunto desses lugares e espaços como a “casa dos homens (Welzer-Lang, 2001WELZER-LANG, Daniel. 2001. “A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia”. Revista Estudos Feministas, vol. 9, nº 2, p.460-482. DOI 10.1590/S0104-026X2001000200008
https://doi.org/10.1590/S0104-026X200100...
: 3).

O conceito nos permite avançar ao compreender a produção social do homem de verdade como experiência inscrita em corpos, afetos e linguagem que se realiza em espaços sociais. Nesse sentido, o conceito “casa dos homens” nomeia não um modelo de masculinidade, mas espaços sociais monosexuados de construção dos comportamentos e identificação de gênero, particularmente importantes na adolescência. Nesses espaços, corpos e afetos são marcados por violências simbólicas, físicas e sexuais que têm por alvo, simultaneamente, o expurgo de traços do feminino nos rapazes e a construção da posição feminina entre eles como experiência da posição subalterna porque subjugada. Assim, é o lugar da aprendizagem das posições de gênero como posições de sujeito marcadas pela violência e pela dominação. Nesse sentido, a dominação masculina opera não apenas entre homens e mulheres, mas, no interior da sociabilidade masculina construída como cadeia de autoridades, na qual circula tanto masculinidade quanto poder, ambos articulados na forma da virilidade.

Da discussão sobre a casa dos homens, Welzer-Lang extrai outro conceito: o de Grandes Homens, que “têm privilégios que se exercem à custa das mulheres (como todos os homens), mas também à custa dos homens” (Welzer-Lang, 2001WELZER-LANG, Daniel. 2001. “A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia”. Revista Estudos Feministas, vol. 9, nº 2, p.460-482. DOI 10.1590/S0104-026X2001000200008
https://doi.org/10.1590/S0104-026X200100...
: 7). Ora, o conceito de grandes homens nos leva para fora da adolescência e nos põe diante da articulação entre dominação masculina e desigualdade de classe, uma vez que a posição de grande homem se articula com o acúmulo de capital cultural e de renda (Vale de Almeida, 1995VALE DE ALMEIDA, Miguel. 1995. Senhores de si: uma interpretação antropológica da masculinidade. Lisboa: Fim de Século. ; 1996VALE DE ALMEIDA, Miguel. 2018. “Gênero, masculinidade e poder: Revendo um caso do sul de Portugal”. Anuário Antropológico, vol. 20, nº 1, p.161-189. ; Cornwall e Lindsfarne, 1994CORNWALL, Andrea; LINDSFARNE, Nancy. 1994. «Dislocating Masculinity: Gender, Power and Anthropology.» In: CORNWALL, Andrea; LINDSFARNE, Nancy. (Eds.). Dislocating Masculinity: Comparative Ethnographies. London and New York: Routledge, pp. 11-47. ). E o que essa literatura nos mostra é que traços menosprezados no ambiente adolescente da casa dos homens, tais como o sucesso escolar e o trabalho intelectual em detrimento do trabalho braçal, por exemplo, tornam-se, mais tarde, marcadores da desigualdade entre homens e características dos Grandes Homens. Simultaneamente, os trabalhadores manuais, que carregam traços valorizados na casa dos homens, como a coragem e risco em seu trabalho, são feminizados por sua condição de dependência clientelista.

Meu argumento ao longo do artigo é que, a partir dessa experiência na casa dos homens, e do modo como ela estrutura em corpos, afetos e linguagem o modelo do Homem de Verdade como ideal normativo, os ciberativistas aqui estudados compreendem as disputas e transações políticas por meio de metáforas de lutas sexuais de afirmação de virilidade. Essa é a razão pela qual é necessário examinar as lutas entre homens nas próprias redes da extrema-direita para revelar o papel estrutural de um dado modelo e experiência de masculinidade nesse processo.

Do meu ponto de vista, a distinção entre Bom Homem e Homem de Verdade quase duplica, institucionalmente, a distinção entre Grandes e Pequenos Homens. Nesse sentido, quando a ocupação de posições de mando em instituições é generificada em termos de masculinidade, ela demanda os atributos do Bom Homem, ao passo que, fora dali, é nas relações interpessoais entre homens - pequenos ou grandes, tanto faz - que podem prevalecer os atributos do Homem de Verdade. Em outras palavras, nas posições de mando nas instituições estão Grandes Homens, e nas relações interpessoais todos os homens podem, eventualmente, se guiar pelo modelo do Homem de Verdade.

Mas resta ainda uma pergunta a responder: como é que esse modelo de Homem de Verdade, que está presente na sociabilidade juvenil masculina, se tornou eficaz em disputas políticas realizadas em espaços digitais, ao ponto de se tornar um estilo facilmente reconhecível do alt-right e, como vimos, de agentes centrais no debate público da extrema-direita brasileira, como Carlos Bolsonaro e Olavo de Carvalho?

É importante salientar que o conceito de Casa dos homens teorizado por Welzer Lang identifica um espaço social que tem atributos antiestruturais, portanto, análogos aos espaços antiestruturais das plataformas digitais que vimos acima. Ele é, simultaneamente, nivelador e internamente hierarquizado. Nivelador, na medida em que ele é acessível a todos os rapazes, que estão ali na condição de indivíduos, a despeito de sua origem. E hierarquizado, na medida que, internamente, existem diferenças entre homens e rapazes, veteranos e novatos, e também pela passagem por diferentes espaços/estágios que, no interior da casa dos homens, que correspondem a posições sociais desiguais. Assim, a desigualdade emerge como construída nas ações e relações ao longo do percurso na Casa dos Homens por meio das lutas de virilidade e não como dada de entrada por uma condição externa à masculinidade, como classe ou cor, por exemplo.

Outro aspecto fundamental é que a experiência comum da Casa dos Homens é construída a partir de uma posição anti-institucional. Podemos pensar na relação entre rapazes e escola. A solidariedade da Casa dos Homens é construída fora da escola - como na rua -, mas também dentro dela, contra a autoridade escolar. Nesse sentido, aquilo que garante o progresso escolar - boas notas e bom comportamento - é relido como sinal da submissão à autoridade escolar, e como tal, é feminizante. A sociabilidade jocosa, a zoeira, tem por alvo, muitas vezes, esses que aparecem como submissos à instituição escola, os cdfs. Mas não se trata de crítica apenas aos rapazes que investem na escolarização, mas uma crítica à escola, ela mesma. Neste sentido, o percurso pela Casa dos Homens constrói modos de percepção e ação anti-institucionais.

Para concluir, a experiência juvenil na casa dos homens serve de modelo estrutural para a extrema-direita agir, compreender e julgar disputas políticas como lutas de virilidade na medida em que os embates vividos na casa dos homens são, simultaneamente, anti-institucionais e pela construção de reputação entre iguais. De fato, as plataformas digitais oferecem elementos dos espaços antiestruturais, ao menos para aqueles agentes que operam aí como “empreendedores digitais” construindo identidade e reputação em meio a disputas por atenção e validação em redes humanas e algorítmicas. Assim, na medida em que estes ciberativistas atuam como empreendedores digitais, a experiência juvenil da casa dos homens lhe oferece uma estrutura de compreensão e ação adequada para agir nesses espaços anti-institucionais que são as plataformas, usando as táticas masculinas juvenis adaptadas ao digital para competir, obter atenção e construir reputação, ao mesmo tempo em que representam si mesmos como guerreiros contra o establishment.

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  • 1
    Segundo Fragoso: “a trollagem na internet consiste em provocar um ou mais participantes de um ambiente on-line (fórum, lista de discussão, game) com a intenção de incitar discordâncias e confrontos, através de comportamentos impertinentes, inferiorização ou ridicularização” (Fragoso, 2015FRAGOSO, Suely. 2015. HUEHUEHUE eu sou BR’: spam, trollagem e griefing nos jogos on-line”. Revista FAMECOS: mídia, cultura e tecnologia, vol. 22, nº 3, p. 129-146. DOI 10.15448/1980-3729.2015.3.19302
    https://doi.org/10.15448/1980-3729.2015....
    : 129).
  • 2
    Segundo Guimarães, o “Inquérito (INQ) 4781, conhecido como Inquérito das Fake News, foi aberto em 14 de março de 2019 pelo então presidente do STF, Dias Toffoli, dedicado a apurar crimes envolvendo a divulgação de notícias falsas e difamação contra o tribunal e seus ministros. Oito dias depois, o relator do inquérito, ministro Alexandre de Moraes, determinou o bloqueio das contas que atacaram o STF em mídias sociais . Os perfis analisados na operação participaram de mobilizações digitais que levaram hashtags contra o STF a ocupar o topo dos Trending Topics do Twitter entre 7 e 19 de novembro de 2019. Usuários, muitas vezes anônimos, se utilizaram de hashtags como ‘#STFVergonhaNacional’, ‘#STFEscritoriodocrime’ e ‘#ImpeachmentGilmarMendes’” (Guimarães, 2020GUIMARÃES, Gabriel Mendes Ciriatico. 2020 “Gabinete do Ódio”, uma alt-right à brasileira? Identidade e repertório de contas brasileiras de extrema-direita no Twitter. Monografia de bacharelado em Ciência Política. Brasília: Universidade de Brasília. : 11).
  • 3
    Como nos lembra a autora, “uma das formas mais humilhantes de violência nas instituições carcerárias é a violência sexual à qual são submetidos grande parte dos prisioneiros, sobretudo por parte dos outros presos, companheiros de cela. O uso de violência sexual é fundamental no processo ritual de incorporação de um novo preso à instituição, porque ela ensina aos novos a hierarquia da cela através da feminização que o ato sexual com penetração anal sugere” (Grossi, 2004: 8).
  • 4
    Lakoff se baseou em seu argumento sobre o papel das metáforas para analisar as diferenças políticas entre liberais e conservadores nos EUA como uma diferença na forma como o Estado é metaforicamente compreendido. Segundo o autor, esquerda e direita metaforizam moralmente o governo a partir da família. No caso da esquerda, o governo é pensado como «pai cuidadoso» - que protege e oferece possibilidades aos cidadãos. Já a direita metaforiza o Estado na figura do «pai austero», que ensina o respeito à autoridade e à disciplina (Lakoff, 1995).
  • 5
    A expressão voltaria a ser usada no Twitter, por críticos de esquerda, em janeiro de 2019, quando o presidente cancelou uma entrevista coletiva no encontro de líderes mundiais em Davos.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Dez 2023
  • Data do Fascículo
    2023

Histórico

  • Recebido
    22 Jun 2022
  • Aceito
    06 Set 2022
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