Acessibilidade / Reportar erro

Democracia, Populismo e Discurso do Voto Impresso: Análise de Conteúdo no Facebook por Mineração de Texto e Redes Semânticas

Democracy, Populism and the Printed Ballot Discourse: Facebook Content Analysis Through Text Mining and Semantic Networks

Démocratie, Populisme et Discours du Vote Imprimé: Analyse de Contenu sur Facebook par la Minéralogie de Texte et les Réseaux Sémantiques

Democracia, Populismo y Discurso del Voto Impreso: Análisis de Contenido en Facebook por Minería de texto y Redes Semánticas

Resumo

A discussão sobre o voto impresso produziu grande mobilização nas redes sociais digitais. Esta pesquisa investiga se o discurso favorável sobre o voto impresso, promovido por um conjunto de usuários no Facebook, pode ser enquadrado como uma ameaça populista à democracia. Uma proposição teórica é apresentada: o populismo é uma ameaça à democracia quando seu discurso promove o antagonismo entre a soberania popular e os mecanismos liberais-representativos. A investigação emprega métodos de mineração de texto e de redes semânticas, os quais aborda em utilidades e limites. O corpus inclui 29.124 postagens, produzidas por 6.277 usuários. Revela-se que o discurso favorável, além de dominar em volume, distingue-se no conjunto de postagens. Ele é característico do discurso populista, portando elementos como o antagonismo nós/eles, teor conspiratório, valores atribuídos ao povo e portados pelo “nós”. É antidemocrático na medida em que não antagoniza apenas adversários políticos, mas órgãos gestores e processos da democracia brasileira. Uma contribuição do artigo é indicar a utilidade dos recursos de mineração de texto e de redes semânticas quando atores empregam formas não institucionais de interação para ameaçar a democracia.

voto impresso; rede social digital; populismo digital; análise de conteúdo; democracia

Abstract

Social media have been heavily mobilized by the debate over printed ballots (paper trail). This study examines whether discourse in favor of printed ballots, promoted by a set of Facebook users, can be framed as a populist threat against democracy. For that purpose, it advances a theoretical proposition: populism is a threat to democracy when its discourse opposes popular sovereignty to representative liberal mechanisms. The use of text mining and semantic network methods, addressed in utilities and limits, on a corpus including 29,124 posts produced by 6,277 users revealed the predominance of advocacy for printed ballots in a clearly distinctive set of posts. Their discourse is typically populist, including elements such as we-they antagonism, conspiratorial content, values attributed to “the people” and represented by a “we”. Also it is antidemocratic in its challenge to processes and managing bodies of Brazilian democracy, besides its own political opponents. The paper finally highlights the usefulness of text mining and semantic network resources to analyze situations in which actors employ non-institutional forms of interaction to threaten democracy.

paper trail; social media; digital populism; content analysis; democracy

Résumé

Le débat sur le vote imprimé a suscité une grande mobilisation sur les réseaux sociaux numériques. Cette recherche examine si le discours favorable au vote imprimé, promu par un ensemble d’utilisateurs sur Facebook, peut être considéré comme une menace populiste pour la démocratie. Une proposition théorique est présentée : le populisme est une menace pour la démocratie lorsque son discours promeut l’antagonisme entre la souveraineté populaire et les mécanismes libéraux-représentatifs. L’enquête utilise des méthodes de minéralogie de texte et de réseaux sémantiques, abordant leurs utilités et leurs limites. Le corpus comprend 29 124 publications, produites par 6 277 utilisateurs. Il apparaît que le discours favorable, en plus de dominer en volume, se distingue dans l’ensemble des publications. Il est caractéristique du discours populiste, portant des éléments tels que l’antagonisme nous/eux, la théorie du complot, les valeurs attribuées au peuple et portées par «nous». Il est antidémocratique dans la mesure où il ne s’oppose pas seulement aux adversaires politiques, mais aussi aux organes de gouvernance et aux processus de la démocratie brésilienne. Une contribution de l’article est d’indiquer l’utilité des ressources de minéralogie de texte et de réseaux sémantiques lorsque les acteurs utilisent des formes d’interaction non institutionnelles pour menacer la démocratie.

vote imprimé; réseau social numérique; populisme numérique; analyse de contenu; démocratie

Resumen

La discusión sobre el voto impreso produjo una grande movilización en las redes sociales digitales. Esta investigación analiza si el discurso favorable sobre el voto impreso, promovido por un conjunto de usuarios en Facebook, puede ser clasificado como una amenaza populista a la democracia. Se presenta una proposición teórica: el populismo es una amenaza a la democracia cuando su discurso promueve el antagonismo entre la soberanía popular y los mecanismos liberales-representativos. La investigación emplea métodos de minería de texto y de redes semánticas, los cuales aborda en utilidades y límites. El conjunto de datos incluye 29.124 publicaciones producidas por 6.277 usuarios. Se muestra que el discurso favorable, además de dominar en volumen, se distingue en el conjunto de publicaciones. Este discurso es característico del discurso populista, involucrando elementos como el antagonismo nosotros/ellos, teoría conspirativa, valores atribuidos al pueblo y sostenidos por el “nosotros”. Es antidemocrático en la medida en que no antagoniza apenas adversarios políticos, sino también a los órganos gestores y procesos de la democracia brasileña. Una contribución de artículo es señalar la utilidad de los recursos de minería de texto y de redes semánticas cuando los actores emplean formas no institucionales de interacción para amenazar la democracia.

voto impreso; red social digital; populismo digital; análisis de contenido; democracia

Introdução1 1 . Agradeço às/aos pareceristas da Dados, cujas contribuições permitiram extenso desenvolvimento da pesquisa, e à equipe editorial pela cuidadosa leitura do artigo.

Este artigo investiga as manifestações dos discursos sobre o voto impresso na plataforma de rede social Facebook. O período de pesquisa compreende de janeiro de 2019, início do mandato presidencial de Jair Bolsonaro, até dezembro de 2021. Cobre momentos-chave do debate e da deliberação legislativa sobre a adoção do voto impresso, em torno da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 135, apresentada em 13 de setembro de 2019 e arquivada após rejeição pelo plenário da Câmara dos Deputados, em 10 de outubro de 2021.

A hipótese de pesquisa é a de que um grupo adscrito de usuários do Facebook produziu um discurso coerente favorável ao voto impresso e que esse discurso pode ser enquadrado como populista e como uma ameaça à democracia no Brasil. A segunda seção do artigo apresenta uma introdução teórica, que incorpora o debate atual sobre o populismo, especialmente interessada em entender como e em que circunstâncias ele apresenta uma ameaça à democracia. Observa-se que uma tensão entre populismo e democracia percorre a literatura sobre o tema, como salienta Cassimiro (2021)Cassimiro, Paulo Henrique. (2021), “Os Usos do Conceito de Populismo no Debate Contemporâneo e Suas Implicações sobre a Interpretação da Democracia”. Revista Brasileira de Ciência Política, v. 35, e242084. DOI: < https://doi.org/10.1590/0103-3352.2021.35.242084>.
https://doi.org/10.1590/0103-3352.2021.3...
.

A pesquisa propõe uma definição estrita de populismo como ameaça à democracia: o populismo é uma ameaça à democracia liberal-representativa quando as contradições entre a soberania popular e seu conteúdo liberal-representativo são reconstruídas como um antagonismo necessário no quadro do discurso que propõe para interpretar a realidade. Essa definição é trabalhada em relação à discussão acadêmica sobre o populismo digital e sobre o discurso populista, ainda na segunda seção do artigo.

A metodologia de pesquisa utilizada é a da análise de conteúdo com o emprego de técnicas de mineração de texto e análise de rede semântica. A terceira seção revisa as diferentes soluções de análise de conteúdo, especialmente, no campo da Ciência Política. A partir de exemplos colhidos na literatura brasileira e internacional, estuda-se a utilidade específica e os limites das diferentes estratégias.

A quarta seção do artigo desenvolve a análise de conteúdo sobre o corpus da pesquisa, adquirido por meio de uma aplicação de recuperação de dados do Facebook, o Crowdtangle. Destaca-se que a opção pelo Facebook decorre de ser uma rede social com elevado número de usuários no Brasil (130 milhões), além de ser um ambiente que inspira desafios para a democracia pela recorrência de fake news e teorias conspiratórias (Ruediger e Grassi, 2020a; Rhodes, 2022Rhodes, Samuel. (2022), “Filter Bubbles, Echo Chambers, and Fake News: How Social Media Conditions Individuals to Be Less Critical of Political Misinformation”. Political Communication, v. 39, n. 1, pp. 1-22. DOI: < https://doi.org/10.1080/10584609.2021.1910887>.
https://doi.org/10.1080/10584609.2021.19...
; Gerbaudo, 2018Gerbaudo, Paolo. (2018), “Social Media and Populism: an Elective Affinity?”. Media, Culture & Society, v. 40, n. 5, pp. 745-753. DOI: < https://doi.org/10.1177/0163443718772192>.
https://doi.org/10.1177/0163443718772192...
; Gomes e Dourado; 2019Gomes, Wilson da Silva; Dourado, Tatiana. (2019), “Fake News, um Fenômeno de Comunicação Política entre Jornalismo, Política e Democracia”. Estudos em Jornalismo e Mídia, v. 16, n. 2, pp. 33–45.).

Os objetivos específicos da análise são: (a) discriminar os usuários que se envolveram no debate sobre o voto impresso no Facebook, identificando os potencialmente favoráveis; (b) identificar se o discurso deste grupo específico de usuários pode ser distinguido dos produzidos por outros usuários; (c) analisar o discurso favorável ao voto impresso, visando identificar os sentidos articulados e as construções intuídas.

A análise de conteúdo por mineração de texto recorre a diferentes estratégias de acordo com os objetivos salientados. Para operacionalizar a investigação concernente ao objetivo “a”, utiliza-se a classificação dos usuários de acordo com a posição presumida em relação à pauta do voto impresso (favorável, contrária), conforme metadados disponíveis no Facebook. Para o objetivo “b”, são empregadas outras estratégias de mineração de texto, como análise gráfica de correspondência por termos e análise tópica pelo método latent dirichlet allocation (LDA). Elas permitem identificar padrões e diferenças nos discursos dos diferentes grupos classificados. Essas estratégias decompõem o conjunto do corpus de pesquisa, revelando que os grupos favorável e contrário à adoção do voto impresso desenvolveram estratégias discursivas diferenciadas.

A última subseção da terceira parte do artigo desenvolve investigações pelo recurso das redes semânticas e teorias dos grafos, perseguindo o objetivo “c”. Elas permitem construir a unidade dos argumentos, produzidos pelos grupos favoráveis ao voto impresso, com suas articulações de sentido centrais e periféricas. Observa-se que o discurso favorável ao voto impresso não apenas dedicou volume relevante de referências, mas uma centralidade específica à crítica aos órgãos e atores que tutelam as eleições brasileiras, como o Superior Tribunal de Justiça, o Supremo Tribunal Federal e ministros dessas cortes. Esse artifício permitiu a promoção de argumentos que associam a questão do voto impresso a fatores de tensão para o governo de Jair Bolsonaro, como investigações judiciais sobre a disseminação de fake news em redes sociais e a Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a pandemia de Covid-19.

Na quarta seção segue uma discussão sobre os achados da pesquisa à luz da literatura precedente. O discurso favorável ao voto impresso possuiu uma estrutura particular, que o distingue de outras abordagens do tema, produzida pela mídia ou por grupos contrários à pauta. Existem elementos que permitem entender esse discurso como populista. Dentre eles, ressalta-se a produção de um sentido no qual o voto impresso seria uma resposta ou um antídoto necessário, tendo em vista a imagem, construída no próprio discurso, da articulação ou coesão de uma série de pretensos adversários de Jair Bolsonaro. Eles incluem o ex-presidente Lula, o PT, a mídia, a urna eletrônica, atores e órgãos do poder judiciário. Essa lógica rompe com a dimensão competitiva da democracia eleitoral, uma vez que busca antagonizar não apenas os adversários políticos, mas o próprio sistema, seus processos, órgãos e atores. Nesse sentido, o discurso do voto impresso pode ser descrito como populista e antissistêmico, um exemplo de populismo digital (Bartlett, Birdwell e Littler, 2011) que apresenta uma ameaça à democracia.

A difusão de desconfiança não justificada com a higidez do processo eleitoral brasileiro (tese da fraude eleitoral) e com os órgãos e titulares da gestão das eleições promovida pelos defensores do voto impresso nas redes sociais foi reparada por Ruediger e Grassi (2020a, 2020b) e Ruediger (2022)Ruediger, Marco Aurelio. (Coord.). (2022), “Desinformação On-Line e Contestação das Eleições: Quinze Meses de Postagens sobre Fraude nas Urnas Eletrônicas e Voto Impresso Auditável no Facebook”. Policy paper. Rio de Janeiro, FGV DAPP.. A presente pesquisa reforça esses achados no marco temporal, do ponto de vista metodológico e teórico, em relação à noção de populismo. A conclusão do artigo destaca a expectativa de que a pesquisa possa contribuir para aprofundar o emprego da análise de conteúdo por mineração de texto e redes semânticas no campo da Ciência Política. Este esforço parece relevante, sobretudo, na medida em que emergem desafios à democracia que transcendem o âmbito mais usual das disputas eleitorais, da atuação de partidos políticos e das relações institucionais.

Teoria democrática e populismo (digital): velhas questões, questões emergentes

Esta seção busca estabelecer fundamentos sobre a relação entre democracia e populismo. Seu objetivo específico é definir contornos estritos nos quais o populismo – e, em seguida, o populismo digital – torna-se um objeto de investigação relevante no interesse da proteção à democracia. Não pretende apresentar uma proposta específica para compreensão do populismo na teoria democrática, desafio para o qual vale consultar Cassimiro (2021)Cassimiro, Paulo Henrique. (2021), “Os Usos do Conceito de Populismo no Debate Contemporâneo e Suas Implicações sobre a Interpretação da Democracia”. Revista Brasileira de Ciência Política, v. 35, e242084. DOI: < https://doi.org/10.1590/0103-3352.2021.35.242084>.
https://doi.org/10.1590/0103-3352.2021.3...
.

Mudde (2017Mudde, Cas. (2017), “Populism: an ideational approach”, in Kaltwasser, Cristóbal Rovia; Taggart, Paul; Espejo, Paulina Ochoa; Ostiguy, Pierre (orgs.), The Oxford Handbook of Populism. Oxford, Oxford University.:48) define o populismo como “uma ideologia2 2 . Mudde e Kaltawasser (2017) e Mudde (2017) trabalham com a noção de conceitos centrais na definição de populismo. Estes seriam os conceitos opostos de povo e elite, mais uma definição concebida como a vontade geral do povo. Mudde (2017) acrescenta o conceito de ideologia, ainda que frouxa. O problema deste adendo é que a noção de populismo é aplicada a uma diversidade de diferentes ideologias (liberais, conservadoras, socialistas, por exemplo). Dizer que o populismo é uma ideologia não informa nada sobre seu conteúdo ou sobre os conceitos centrais que o definiriam (Freeden, 2006). Por outro lado, se por ideologia implica-se uma determinada relação formal entre povo e elite articulada por uma preconcepção da vontade geral, nada é agregado aos três conceitos indicados inicialmente. Basta dizer, como Charaundeau (2009), ou Mudde e Kaltawasser (2017), que o populismo pode estar associado a uma ideologia. Portanto, opta-se por não empregar o conceito de ideologia na definição de populismo. que considera a sociedade como dividida, em última instância, entre dois grupos homogêneos e antagônicos, o ‘povo puro’ versus ‘a elite corrupta’, e que afirma que a política deve ser a expressão da vontade geral do povo”. Tema em ascensão na Ciência Política, o populismo é amplamente compreendido como uma ameaça à democracia (Norris e Inglehart, 2019Norris, Pippa; Inglehart, Ronald. (2019), Cultural Backlash: Trump, Brexit, and Authoritarian Populism. Cambridge, Cambridge University.; Mounk, 2018Mounk, Yascha. (2018), O Povo contra a Democracia. São Paulo, Companhia das Letras.; Hawkins e Kaltwasser, 2019; Ricci, Izumi e Moreira, 2021; Çinar, Stoke e Uribe, 2020).

Silva e Linhares (2020)Silva, Lucas Garcia da; Linhares, Bianca de Freitas. (2020), “As Perspectivas Liberal e não Liberal do Populismo: Notas Introdutórias”. Aurora, v. 12, n. 36, pp. 65-78. destacam que a visão do populismo como uma ameaça à democracia abarca apenas parte da literatura. A mobilização de demandas e expectativas populares, por exemplo, por maior igualdade, dificilmente poderiam ser deslegitimadas como democráticas (Mendonça e Almeida, 2021Mendonça, Daniel de Resende; Almeida, Erica Simone. (2021), “A Especificidade do Populismo de Esquerda”. História, v. 40, pp. e2021061. DOI: < https://doi.org/10.1590/1980-4369e2021061>.
https://doi.org/10.1590/1980-4369e202106...
). Implicar o populismo como antidemocrático seria ignorar que o conflito é inerente à política, bem como que a agência na representação de pautas populares não é sinônimo de demagogia ou manipulação. Questões epistemológicas à parte3 3 . Os autores referidos que utilizam o termo “populismo” com uma conotação não negativa estão na tradição inaugurada por Laclau e Mouffe (2015). Diferente da proposta positivista da análise de conteúdo, essa visão utiliza amplamente o conceito de “discurso” para indicar uma articulação estruturadora de significados e sentidos que seria, ela própria, constitutiva do social (Laclau e Mouffe, 2015:167, 178). , nos termos de Hermet (2001Hermet, Guy. (2001), Les Populismes dans lê Monde: une Histoire Sociologique XIXe – Xxe Sciècle. Paris, Payard.:24), é necessário distanciar do termo “populista” o representante popular, que recebe a simpatia legítima da maioria.

Em que pese sofrer de estiramento conceitual (Mudde, 2017Mudde, Cas. (2017), “Populism: an ideational approach”, in Kaltwasser, Cristóbal Rovia; Taggart, Paul; Espejo, Paulina Ochoa; Ostiguy, Pierre (orgs.), The Oxford Handbook of Populism. Oxford, Oxford University.), o termo “populista” dificilmente poderia ser substituído sem prejuízo à carga semântica obtida na Ciência Política recente. É por intermédio da expressão que certo debate sobre desafios à democracia está sendo realizado; e não por resolver o dilema exposto, mas, justamente, por apreendê-lo. Cassimiro (2021)Cassimiro, Paulo Henrique. (2021), “Os Usos do Conceito de Populismo no Debate Contemporâneo e Suas Implicações sobre a Interpretação da Democracia”. Revista Brasileira de Ciência Política, v. 35, e242084. DOI: < https://doi.org/10.1590/0103-3352.2021.35.242084>.
https://doi.org/10.1590/0103-3352.2021.3...
identifica que a tensão entre o populismo e a democracia é uma constante no emprego acadêmico do termo. Numa literatura difundida, Przeworski (2020Przeworski, Adam. (2020), Crises da Democracia. São Paulo, Zahar.:49) destaca que partidos populistas não são propriamente antidemocráticos, mas anti-institucionais. Em outro exemplo, Mounk (2018Mounk, Yascha. (2018), O Povo contra a Democracia. São Paulo, Companhia das Letras.:53) descreve o populismo como o emprego das formas e potências do apelo democrático contra as instituições do liberalismo político (procedimentos, controles, liberdades de imprensa e de oposição). Para o autor, governos populistas são potenciais antessalas à desdemocratização e à instauração de regimes autoritários4 4 . Outra referência na literatura atual socialmente difundida é Levitsky e Ziblatt (2018). Embora o tema central de desdemocratização pelo abuso das instituições democráticas esteja presente neste trabalho, os autores não concentram a noção de populismo na explicação. .

O argumento dificilmente pode ser compreendido como uma novidade, posto que reverbera a proposição clássica que justapõe os princípios da soberania popular (democracia) e do governo limitado (liberalismo político). Em Aristóteles (1997Aristóteles. (1997), Política. Brasília, UNB.: 1292a), ele recebe o título de tirania da maioria. Para o filósofo, se a maioria é composta por pobres e se na democracia a maioria governa, não tardaria para que em tal sistema aparecessem os demagogos: eles convenceriam o povo a almejar os bens dos ricos e engendrariam um tipo de governo corrompido, avesso às leis. Este tema é muito frequente na teoria clássica e moderna, sendo traduzido para a situação de representação política por Constant (1985). Contemporaneamente, Dahl (1989)Dahl, Robert. (1989), Um Prefácio à Teoria Democrática. Rio de Janeiro, Zahar. expôs os fundamentos de uma democracia populista no que considerou algo distinto do modelo madsoniano, arquétipo da república constitucional-liberal.

No entanto, a democracia representativa não dispensa a pretensão à soberania popular, no sentido de que a política pública deve responder à preferência da maioria. Este é o conteúdo da regra democrática latente (autorizada, mas não assegurada) no conceito de poliarquia de Dahl (1989Dahl, Robert. (1989), Um Prefácio à Teoria Democrática. Rio de Janeiro, Zahar.:68). Rosanvallon (1998Rosanvallon, Pierre. (1998), Le Peuple Introuvable. Paris, Gallimard.:437) critica a visão procedimental de Dahl, bem como o que considera filosofias políticas liberais restritas à esquematização de direitos, como em Rawls e Habermas, por buscarem suprimir a tensão entre liberalismo e democracia nos regimes representativos. Rosanvallon indica que estas tentativas escondem “um retorno à abstração fundadora da política moderna” (Rosanvallon, 1998:438). Seriam, portanto, mais um sintoma do que solução aos desafios da representação política contemporânea.

Neste sentido, a simples oposição entre democracia e populismo como excludentes parece insuficiente. A própria democracia representativa, liberal e constitucional, requer a construção dessa dimensão política do povo soberano que, salienta Rosanvallon (1998)Rosanvallon, Pierre. (1998), Le Peuple Introuvable. Paris, Gallimard., não existe como uma experiência concreta em âmbito social. O populismo seria uma reação à incapacidade de construção política do povo soberano no quadro de uma democracia liberal. Compreende-se como a tecnocracia, o neoliberalismo, a erosão dos conceitos de uma vida comunitária, a corrupção e o clientelismo e, em sentido amplo, os fracassos no processo de representação política programática, são tidos como fatores explicativos da emergência do populismo (Rosanvallon, 2006Rosanvallon, Pierre. (2006), La Contre-Démocratie: la Politique à L´Âge de la Défiance. Paris, Éditions du Seuil.; Mounk, 2018Mounk, Yascha. (2018), O Povo contra a Democracia. São Paulo, Companhia das Letras.; Norris e Inglehart, 2019Norris, Pippa; Inglehart, Ronald. (2019), Cultural Backlash: Trump, Brexit, and Authoritarian Populism. Cambridge, Cambridge University.; Fraser, 2016Fraser, Nancy. (2016), “Progressive Neoliberalism Versus Reactionary Populism: A Choice that Feminists Should Refuse”. Nordic Journal of Feminist and Gender Research, v. 24, n. 4, pp. 281-284. DOI: < https://doi.org/10.1080/08038740.2016.1278263>.
https://doi.org/10.1080/08038740.2016.12...
; Barreiros, Miaguti e Poty, 2021; Hawkins e Kaltwasser, 2019).

Não é, portanto, o apelo ao “povo”, por seu conteúdo em tese divergente do pluralismo, que afasta o populismo da democracia5 5 . Autores como Mastropaolo (2008) e Norris e Inglehart (2019: 65) opõem o populismo ao pluralismo, estando o segundo termo no lugar da própria democracia representativa liberal e da admissão da pluralidade na política. Cf. Cassimiro (2021). . Não é, sequer, a expectativa de construção da imagem do povo em elementos externos ao processo político institucional o que caracteriza tal ameaça (posto que o conteúdo substantivo da representação decorre de questões sociológicas, não procedimentais).

Urbinati (2019)Urbinati, Nadia. (2019), “Political Theory of Populism”. Annual Review of Political Science, v. 22, pp. 111-127. DOI: < https://doi.org/10.1146/annurev-polisci-050317-070753>.
https://doi.org/10.1146/annurev-polisci-...
reconhece esse fato ao indicar que falta ao debate sobre o populismo a historicidade da construção do conceito de democracia. No mesmo sentido, Pasquino ressalta que o populismo não é incompatível com a democracia em um sentido lato, mas com a democracia representativa, na medida em que os líderes populistas: “incentivam ideias antidemocráticas como a de que as eleições podem ser não apenas manipuladas, mas inúteis. Ou, ainda pior: pode ser que as eleições nunca revelem a ‘verdadeira’ vontade do povo” (2008:16). O populismo desafia as instituições liberais do controle e da representação eleitoral não pelo simples apelo ao povo soberano, mas pelo apelo ao povo soberano contra essas instituições do liberalismo político e da representação.

Assim, propõe-se que o populismo é propriamente uma ameaça à democracia liberal-representativa quando as contradições entre a soberania popular e seu conteúdo liberal-representativo são reconstruídas como um antagonismo necessário6 6 . Da mesma forma, o liberalismo ameaça a democracia no reverso de tal antagonismo, quando a legitimidade do apelo à soberania popular nas democracias representativas é impedida (Rancière, 2014). no quadro do discurso que propõe para interpretar a realidade7 7 . Este é um conceito estrito, que não exclui outras compreensões sobre a tensão entre populismo e democracia, como a contemporaneidade da soberania popular e do pluralismo político. .

A proposta cumpre o papel de uma definição sintética daquilo que Przeworski (2020Przeworski, Adam. (2020), Crises da Democracia. São Paulo, Zahar.:7) denomina de populismo delegativo; que Urbinati (2019)Urbinati, Nadia. (2019), “Political Theory of Populism”. Annual Review of Political Science, v. 22, pp. 111-127. DOI: < https://doi.org/10.1146/annurev-polisci-050317-070753>.
https://doi.org/10.1146/annurev-polisci-...
associa à democracia delegativa; e que Norris e Inglehart (2019)Norris, Pippa; Inglehart, Ronald. (2019), Cultural Backlash: Trump, Brexit, and Authoritarian Populism. Cambridge, Cambridge University. identificam como populismo autoritário. Em sua dimensão discursiva, o populismo afasta-se da ideia de mandato ou de prestação de contas e procura criar um curto-circuito no processo representativo (Charaudeau, 2009Charaudeau, Patrick. (2009), “Reflexiones para el Análisis del Discurso Populista”. Discurso & Sociedad, v. 3, n. 2, pp. 253-279.:267). Nele, o representante arvora-se à condição de detentor da soberania popular em que pese ter sido eleito. Nos termos de Pasquino (2008Pasquino, Gianfranco. (2008), “Populism and Democracy”, in: Albertazzi, Daniele; Mcdonnell, Duncan (orgs.), Twenty-First Century Populism. New York, Palgrave.:28), o populismo “rejeita todas as formas de intermediação política e institucional como instrumentos que inevitavelmente distorcem e atraiçoam a verdadeira vontade do povo”.

Discurso populista e populismo digital

O populismo não é um desafio novo ou estranho à representação nas democracias liberais. O que há de particularmente recente no debate atual diz respeito às formas ou métodos pelos quais os populistas visam causar o referido curto-circuito do processo representativo, em especial via redes sociais digitais como local de difusão do discurso populista. Hawkins e Kaltwasser (2019) definem o discurso populista como um elemento catalisador do fenômeno do populismo, o qual permite a ativação de comportamentos populistas entre os indivíduos8 8 . Hawkins e Kaltwasser (2019) associam o fenômeno do populismo a três mecanismos cognitivos. O primeiro é o incentivo para a atribuição de culpa por acontecimentos difusos a determinadas elites, por exemplo, governamentais. O segundo é a discriminação da sociedade em grupos de identidades contrapostas: nós, definidos em termos de povo, maioria; e os outros, definidos como uma elite que se contrapõe ao povo. Por fim, o terceiro mecanismo cognitivo do populismo é a produção de emoções negativas, como medo e raiva, direcionadas contra a elite. .

A relação entre as redes sociais digitais e a emergência recente do populismo é tema forte na literatura, dando origem à designação de “populismo digital”. Bartlett, Birdwell e Littler (2011:30) destacam que o uso da internet está profundamente integrado à emergência de novos partidos populistas na Europa. Embora Norris e Inglehart (2019)Norris, Pippa; Inglehart, Ronald. (2019), Cultural Backlash: Trump, Brexit, and Authoritarian Populism. Cambridge, Cambridge University. comparem o ambiente das redes sociais digitais com os tradicionais comícios partidários, Mounk (2018)Mounk, Yascha. (2018), O Povo contra a Democracia. São Paulo, Companhia das Letras. considera que características como o isolamento do usuário e seu potencial anonimato potencializam as redes sociais digitais como meios viáveis para disseminação de discursos populistas.

Gerbaudo (2018Gerbaudo, Paolo. (2018), “Social Media and Populism: an Elective Affinity?”. Media, Culture & Society, v. 40, n. 5, pp. 745-753. DOI: < https://doi.org/10.1177/0163443718772192>.
https://doi.org/10.1177/0163443718772192...
:748) avança nessa segunda perspectiva considerando que o engajamento individual nas redes sociais é coerente com o interesse do populismo de “fundir indivíduos atomizados no corpo coletivo do povo”. O problema pode ser visto sob diversos ângulos, articulando operações como fake news, câmeras de eco digitais, clusters de audiências e bolhas informacionais (Rhodes, 2022Rhodes, Samuel. (2022), “Filter Bubbles, Echo Chambers, and Fake News: How Social Media Conditions Individuals to Be Less Critical of Political Misinformation”. Political Communication, v. 39, n. 1, pp. 1-22. DOI: < https://doi.org/10.1080/10584609.2021.1910887>.
https://doi.org/10.1080/10584609.2021.19...
; Gerbaudo, 2018Gerbaudo, Paolo. (2018), “Social Media and Populism: an Elective Affinity?”. Media, Culture & Society, v. 40, n. 5, pp. 745-753. DOI: < https://doi.org/10.1177/0163443718772192>.
https://doi.org/10.1177/0163443718772192...
). Essas seriam condições estruturais nas redes sociais digitais que coadunam com aspectos demagógicos ou manipulatórios do discurso populista e, especialmente, com o emprego de teorias conspiratórias.

Charaudeau (2009Charaudeau, Patrick. (2009), “Reflexiones para el Análisis del Discurso Populista”. Discurso & Sociedad, v. 3, n. 2, pp. 253-279.:266) indica que o tema da conspiração está presente em quase todos os discursos populistas, pois permite construir uma narrativa genérica e implícita que vincula a situação de crise e de vitimização do povo à agência de uma elite imprecisa (o sistema, o establishment). Pirro e Taggart (2022)Pirro, Andrea; Taggart, Paul. (2022), “Populists in Power and Conspiracy Theories”. Party Politics, v. 0, n. 0, pp. 1-11. DOI: < https://doi.org/10.1177/13540688221077071>.
https://doi.org/10.1177/1354068822107707...
definem teorias da conspiração por proporem que determinados acontecimentos decorrem da intencionalidade de atores organizados para atuarem em concerto e em segredo, e que o conjunto destes atores constituem uma elite inerentemente má e manipulatória. Segundo os autores, teorias da conspiração ajudam os populistas a demonizar e deslegitimar seus oponentes, reforçando a visão dicotômica que procuram mobilizar.

Manucci (2017Manucci, Luca. (2017), “Populism and the Media”, in Kaltwasser, Cristóbal Rovia; Taggart, Paul; Espejo, Paulina Ochoa; Ostiguy, Pierre (orgs.), The Oxford Handbook of Populism. Oxford, Oxford University.:602) apresenta três argumentos pelos quais as mídias sociais digitais são “canais perfeitos para difusão da mensagem populista”: a) por escaparem do escrutínio da mídia tradicional, hipoteticamente controlada pelas elites políticas às quais o populista se opõe; b) por permitir uma comunicação que se apresenta como direta entre os atores populistas e o povo, compatível com o apelo pela representação direta da soberania popular; e c) por propiciar o uso de uma linguagem emotiva e coloquial, adequada ao estilo predominante do discurso populista.

As operações citadas e, de forma mais ampla, as teorias da conspiração propagadas na rede são consideradas desafios que a atual forma de produção e organização do virtual importam para a democracia (Morozov, 2018Morozov, Eveny. (2018), Big Tech: a Ascensão dos Dados e a Morte da Política. São Paulo, Ubu.). Não obstante, a literatura sobre a desinstitucionalização democrática (Przeworski, 2020Przeworski, Adam. (2020), Crises da Democracia. São Paulo, Zahar.; Mounk, 2018Mounk, Yascha. (2018), O Povo contra a Democracia. São Paulo, Companhia das Letras.) parece ter menosprezado o quanto inequívoca e diretamente o populismo pode transbordar do virtual para ações diretas, em âmbito institucional e em movimentos sociais, direcionadas contra os processos eleitorais e democráticos básicos.

Sob essa perspectiva, assim como ressaltado em relação ao populismo em geral, o populismo digital é claramente uma ameaça à democracia quando, no quadro do antagonismo com o qual reveste a condição de elite e povo, inclui as próprias formas e processos da democracia representativa. A utilização de fake news e teorias da conspiração para desacreditar o processo eleitoral são algumas das ferramentas – mas não as únicas – à disposição do discurso populista antidemocrático nas redes sociais digitais.

Análise de conteúdo, mineração de texto e redes semânticas

Análise de Conteúdo na Ciência Política Brasileira e Internacional

A presente pesquisa enquadra-se na tradição da análise de conteúdo, uma abordagem frequente na Ciência Política brasileira e internacional. Nesse sentido, assume que o discurso político, como qualquer outro, envolve a pretensão comunicacional em que o autor busca transmitir aos receptores determinadas informações. A estratégia de análise de conteúdo postula a possibilidade de que, investigando-se o suporte empírico da comunicação, é possível acessar o fenômeno da autoria. Ou seja, a análise de conteúdo limita-se explicar (mensurar, definir, comparar) a dimensão positiva da pretensão comunicacional e, a partir dela, inferir determinadas questões de interesse sobre os indivíduos, organizações e processos envolvidos em sua elocução.

Cabe esclarecer que a pesquisa não se compreende como parte da análise de discurso desenvolvida, especialmente, nos estudos de linguística. Para ficar na classificação de Pêcheux (1969)Pêcheux, Michel. (1969), Hacia el Análisis Automático del Discurso. Madrid, Gredos., a análise de conteúdo trata-se de uma análise para-linguística, na medida em que está fundada em determinadas expectativas derivadas do ambiente institucional de produção do discurso. Além do local de elocução (Facebook), tais expectativas também são definidas a partir do conteúdo investigado e do processo político subjacente, que envolve a apresentação, tramitação e rejeição da Proposta de Emenda à Constituição 135, de 2019, sobre a adoção do voto impresso.

No bojo da diversidade de técnicas de análise de conteúdo empregadas com frequência na Ciência Política, possuem especial relevância a distinção entre as que focam no veículo-sinal (termo, palavra) ou no sentido (semântica, asserção) (Pêcheux, 1969Pêcheux, Michel. (1969), Hacia el Análisis Automático del Discurso. Madrid, Gredos.; Lasswell, 1982Lasswell, Harold. (org.). (1982), A Linguagem da Política. Brasília, Universidade de Brasília.; Janis, 1982Janis, Irving. (1982), “O Problema da Validação da Análise de Conteúdo”, in Lasswell, Harold. (org.), A Linguagem da Política. Brasília, Universidade de Brasília, pp. 53-76.; Bardin, 1995Bardin, Laurence. (1995), Análise de Conteúdo. Lisboa, Edições 70.). Benoit (2020)Benoit, Ken. (2020), “Text as Data: an Overview”, in Curini, Luigi; Franzese, Robert (orgs.), The Sage Handbook of Research Methods in Political Science and International Relations. Londres, Sage., sumarizando uma literatura profícua, as diferencia como quantitativa e qualitativa, respectivamente. Nos próximos parágrafos, as estratégias de análise de conteúdo serão relatadas à luz de exemplos recentes.

As primeiras (quantitativas) trabalham com a frequência de determinado termo ou palavra no curso de dada unidade de texto. Essa espécie de análise de conteúdo foi a primeira a ser aprimorada pelo emprego de automação, levando ao que Benoit (2020)Benoit, Ken. (2020), “Text as Data: an Overview”, in Curini, Luigi; Franzese, Robert (orgs.), The Sage Handbook of Research Methods in Political Science and International Relations. Londres, Sage. classifica como análise de conteúdo puramente quantitativa pelo emprego de aprendizado de máquina. O autor, recorrendo a conceito usual na ciência de dados, diferencia entre os modelos supervisionados, que partem de input humano, e não supervisionados9 9 . Para as aplicações computacionais mais utilizadas, respectivamente wordscores e wordfish, pode ser consultado Egerod e Klemmensen (2020). .

Destacam-se pela introdução do aprendizado de máquina supervisionado para análise de conteúdo na Ciência Política os trabalhos de Laver e Garry (2000)Laver, Michael; Garry, John. (2000), “Estimating Policy Positions from Political Texts”. American Journal of Political Science, v. 44, n. 3, pp. 619-634., Laver, Benoit e Garry (2003) e Lowe (2008)Lowe, Will. (2008), “Understanding Wordscores”. Political Analysis, v. 16, pp. 356-371.. Os autores propuseram que, por meio da frequência dos veículos-sinais em um documento, toda uma amostra pode ser automaticamente classificada a partir da definição de casos exemplares. Distintivamente, os autores desta aplicação (wordscores) propuseram que ela permite a análise de conteúdo de textos ainda que os pesquisadores não sejam capazes de compreender a língua na qual eles estão escritos.

No Brasil, a estratégia de análise de conteúdo por aprendizado de máquina não supervisionado foi empregada por Salles e Guarnieri (2019)Salles, Nara; Guarnieri, Fernando. (2019), “Estratégia Eleitoral nos Municípios Brasileiros: Componente Programático e Alinhamento Partidário”. Revista de Sociologia e Política, v. 27, n. 72, pp. e001. DOI: < https://doi.org/10.1590/1678-987319277201>.
https://doi.org/10.1590/1678-98731927720...
e Salles (2019)Salles, Nara. (2019), “Programs and Parties: Rethinking Electoral Competition Through Analysis of Brazilian ‘Grotões’”. Brazilian Political Science Review, v. 13, n. 2. DOI: < https://doi.org/10.1590/1981-3821201900020003>.
https://doi.org/10.1590/1981-38212019000...
para estudar a competição política em municípios brasileiros, utilizando por base os programas de governo das eleições para prefeitos. Os autores salientam que a aplicação utilizada (wordfish) fundamenta-se na comparação dos textos estudados: “a posição espacial obtida através da frequência de palavras de um programa de governo é dada como uma função das palavras contidas no(s) programa(s) com o qual se dá a comparação” (Salles e Guarnieri, 2019Salles, Nara; Guarnieri, Fernando. (2019), “Estratégia Eleitoral nos Municípios Brasileiros: Componente Programático e Alinhamento Partidário”. Revista de Sociologia e Política, v. 27, n. 72, pp. e001. DOI: < https://doi.org/10.1590/1678-987319277201>.
https://doi.org/10.1590/1678-98731927720...
:9). Com base na frequência dos veículos-sinais, essas pesquisas foram capazes de analisar a diferenciação ideológica das eleições estudadas sem abordar, substantivamente, seu conteúdo10 10 . A pesquisa de Tucker, Capps e Shamir (2020), sobre falas parlamentares nos Estados Unidos, abrangendo 138 anos e quase um milhão de casos. . Outro exemplo, desta vez aplicado aos pronunciamentos parlamentares na Câmara dos Deputados, é apresentado por Moreira (2020)Moreira, Davi. (2020), “Com a Palavra os Nobres Deputados: Ênfase Temática dos Discursos dos Parlamentares Brasileiros”. Dados, v. 63, n. 1. DOI: < https://doi.org/10.1590/001152582020204>.
https://doi.org/10.1590/001152582020204...
.

As estratégias de aprendizado de máquina descritas também podem ser identificadas como modelos tópicos ou análise de conteúdo de segunda geração (Halterman, 2018Halterman, Andrew. (2018), “Word Order-Aware Text Processing: a Third Generation of Text as Data in Political Science”. MIT Working Paper. Disponível em < https://andrewhalterman.com/publication/prospectus/>.
https://andrewhalterman.com/publication/...
). Observe-se que, nos dois casos, a construção semântica de sentidos depende de posterior interpretação dos pesquisadores. Quando o interesse de pesquisa se encontra nos sentidos presentes em determinado conjunto de textos, a utilização de soluções automatizadas de análise que dispensem a interpretação humana é mais difícil (Grimmer e Stewart, 2013Grimmer, Justin; Stewart, Brandon. (2013), “Text as Data: The Promise and Pitfalls of Automatic Content, Analysis Methods for Political Texts”. Political Analysis, v. 21, n. 3, pp. 267-297.).

Portanto, tradicionalmente, a análise de conteúdo recorre à interpretação humana de textos para classificar o sentido de palavras ou de asserções. No tema do populismo, a estratégia foi aplicada por Hawkins et al. (2019)Hawkins, Kirk; Aguilar, Rosario; Silva, Bruno Castanho; Jenne, Erin; Kocijan, Bojana; Katwasser, Cristóbal Rovina. (2019), “Measuring Populist Discourse: The Global Populism Database”. Paper presented at the 2019 EPSA Annual Conference, 2019, Belfast.. Quando o objeto de análise são redes sociais virtuais, uma alternativa é a classificação humana de tópicos pré-determinados pelos usuários, como a inserção de hashtags em suas postagens. Por exemplo, a investigação realizada por Gelado-Marcos, Puebla-Martínez e Rubira-García (2019) sobre os discursos no Twitter de lideranças políticas espanholas. A limitação, neste caso, decorre do fato de que as hashtags incorporam apenas uma parcela limitada da comunicação.

O The Manifesto Project – Manifesto Research on Political Representation (MP/MARPOR) é o exemplo mais frequente na Ciência Política, citado por Benoit (2020)Benoit, Ken. (2020), “Text as Data: an Overview”, in Curini, Luigi; Franzese, Robert (orgs.), The Sage Handbook of Research Methods in Political Science and International Relations. Londres, Sage. como análise de conteúdo qualitativa. Neste projeto, os programas de governo presidenciais de uma série de países são classificados no nível das linhas de texto segundo uma lista pré-definida de categorias (Klingemann, Hofferbert e Budge, 1994). A partir da proporção de texto dedicada a cada categoria, a pesquisa MP/MARPOR classifica os programas de governo em diferentes índices. No Brasil, a estratégia foi implementada por Tarouco e Madeira (2013)Tarouco, Gabriela; Madeira, Rafael Machado. (2013), “Partidos, Programas e o Debate sobre Esquerda e Direita no Brasil”. Revista de Sociologia e Política, v. 21, n. 45, pp.149–165. DOI: < https://doi.org/10.1590/S0104-44782013000>.
https://doi.org/10.1590/S0104-4478201300...
. Recentemente, os autores destacaram os desafios de confiabilidade da análise de conteúdo realizada com interpretação humana (Tarouco, Madeira e Vieira, 2022)11 11 . A questão da confiabilidade na análise de conteúdo com interpretação humana é sistematizada por Sampaio e Lycarião (2018). . Outra crítica indica que a padronização prévia de categorias, geradas no contexto de determinadas democracias ocidentais, não permite a generalização universal pretendida pelo MP/MARPOR (Mölder, 2013Mölder, Martin. (2013), “The Validity of the RILE Left–Right Index as a Measure of Party Policy”. Party Politics, v. 22, n. 1, pp. 37-48.).

A análise de conteúdo quantitativa híbrida é aquela na qual o emprego de dicionários de termos permite uma mediação entre as vantagens da quantitativa (economia, confiabilidade) e da qualitativa (apreensão do sentido) (Benoit, 2020Benoit, Ken. (2020), “Text as Data: an Overview”, in Curini, Luigi; Franzese, Robert (orgs.), The Sage Handbook of Research Methods in Political Science and International Relations. Londres, Sage.). Exatamente interessados na noção do discurso político populista, Ricci, Izumi e Moreira (2021) implementaram uma estratégia mista com uso de processo automatizado da localização de palavras de interesse (veículos-sinais) e posterior interpretação humana para assegurar a presença do sentido pretendido pela análise.

Ricci, Izumi e Moreira (2021) buscaram investigar a presença de asserções de conotação populista em um amplo conjunto de discursos de presidentes brasileiros pelo uso de palavras conotativas de povo e elite, necessariamente, em contraposição. Nesta última intenção é que foi necessária a interpretação dos próprios pesquisadores. A estratégia permitiu aos autores modularem a própria pretensão teórica e contribuírem com a noção de que nem todo discurso político populista (pela classificação que empregam) apresenta uma ameaça à democracia.

Uma última classificação das estratégias de análise de conteúdo discernida por Benoit (2020)Benoit, Ken. (2020), “Text as Data: an Overview”, in Curini, Luigi; Franzese, Robert (orgs.), The Sage Handbook of Research Methods in Political Science and International Relations. Londres, Sage. é a que emprega novos modelos para processamento de linguagem natural. Elas correspondem ao que Halterman (2018)Halterman, Andrew. (2018), “Word Order-Aware Text Processing: a Third Generation of Text as Data in Political Science”. MIT Working Paper. Disponível em < https://andrewhalterman.com/publication/prospectus/>.
https://andrewhalterman.com/publication/...
identifica como terceira geração da análise de conteúdo, ou virada linguística. Ultrapassa os limites dos modelos tópicos de segunda geração (“bag of words”/“saco de palavras”) e considera cada palavra no contexto linguístico em que emerge. Wiedemann e Fedtke (2022:367) sugerem que tal virada desafia a já referida proposição de Grimmer e Stewart (2013)Grimmer, Justin; Stewart, Brandon. (2013), “Text as Data: The Promise and Pitfalls of Automatic Content, Analysis Methods for Political Texts”. Political Analysis, v. 21, n. 3, pp. 267-297. e aproxima a análise de conteúdo automatizada dos pressupostos metodológicos empregados na análise de conteúdo qualitativa. Soluções como o word2vec utilizam word embeddings pela representação matemática em múltiplas dimensões da associação vetorial entre as palavras da unidade de texto analisada. Dessa forma, reproduzem matematicamente as relações semânticas e sintáticas do texto (Benoit, 2020Benoit, Ken. (2020), “Text as Data: an Overview”, in Curini, Luigi; Franzese, Robert (orgs.), The Sage Handbook of Research Methods in Political Science and International Relations. Londres, Sage.; Dai, 2022Dai, Yaoyao. (2022), Measuring Populism in Contexts: A Supervised Approach with Word Embedding Models. Abu Dhabi, New York University. Disponível em < https://yaoyaodai.github.io/files/Dai_Populism.pdf >.
https://yaoyaodai.github.io/files/Dai_Po...
).

Podem ser referidos exemplos deste tipo de metodologia aplicados ao tema do populismo. Çinar, Stoke e Uribe (2020) analisam os discursos de presidentes americanos com o emprego de um algoritmo treinado durante a pesquisa para identificar suas sentenças em relação aos sentimentos expressados (positivos, negativos, neutros) e os objetos da retórica pré-definidos (adversários políticos, grupos socioeconômicos). Os autores consideram que a construção de sentidos negativos sobre grupos socioeconômicos define um discurso populista. Já Dai (2022)Dai, Yaoyao. (2022), Measuring Populism in Contexts: A Supervised Approach with Word Embedding Models. Abu Dhabi, New York University. Disponível em < https://yaoyaodai.github.io/files/Dai_Populism.pdf >.
https://yaoyaodai.github.io/files/Dai_Po...
utilizou os programas de governo disponibilizados pela pesquisa MP/MARPOR e treinou a inteligência artificial (word2vec) para reconhecer construções populistas. A autora, então, classificou os documentos conforme o número de seções populistas que apresentavam. Em Çinar, Stoke e Uribe (2020) e Dai (2022)Dai, Yaoyao. (2022), Measuring Populism in Contexts: A Supervised Approach with Word Embedding Models. Abu Dhabi, New York University. Disponível em < https://yaoyaodai.github.io/files/Dai_Populism.pdf >.
https://yaoyaodai.github.io/files/Dai_Po...
o uso de aprendizado de máquina permitiu automatizar a interpretação dos sentidos no texto com o objetivo de investigar a questão do populismo12 12 . No Brasil, algumas pesquisas sobre temas políticos foram realizadas por investigadores de outras áreas do conhecimento. Cristiani, Lieira e Camargo (2020) e Matos, Magalhães e Souza (2020) analisaram as postagens no Twitter durante a campanha eleitoral de 2018. Essencialmente, foram classificadas as menções às candidaturas como positivas, negativas ou neutras. O objetivo foi mensurar expressões de opiniões dos usuários em relação às candidaturas. .

Essa breve revisão colecionou diferentes estratégias de mineração empregadas para o estudo do tema do populismo (Hawkins et al., 2019Hawkins, Kirk; Aguilar, Rosario; Silva, Bruno Castanho; Jenne, Erin; Kocijan, Bojana; Katwasser, Cristóbal Rovina. (2019), “Measuring Populist Discourse: The Global Populism Database”. Paper presented at the 2019 EPSA Annual Conference, 2019, Belfast.; Gelado-Marcos, Puebla-Martínez e Rubira-García, 2019; Ricci, Izumi e Moreira, 2021; Çinar, Stoke e Uribe, 2020; Dai, 2022Dai, Yaoyao. (2022), Measuring Populism in Contexts: A Supervised Approach with Word Embedding Models. Abu Dhabi, New York University. Disponível em < https://yaoyaodai.github.io/files/Dai_Populism.pdf >.
https://yaoyaodai.github.io/files/Dai_Po...
). Elas permitiram a mobilização sobre grandes quantidades de texto, sistematizando a análise de conteúdo de forma que, em termos de interpretação humana, poderia ser mais difícil. Contudo, essas estratégias podem recorrer a conceitos analíticos muito simples, que nem sempre permitem apreender a diversidade comunicacional do que está sendo estudado.

Em situações de pesquisa orientadas por expectativas teoricamente bem conhecidas, esse desafio é moderado pelo acúmulo teórico anterior que orienta o olhar de pesquisa sobre as questões relevantes. Ainda assim, mesmo em um tema desenvolvido como a representação programática em relação aos programas de governo, podem ocorrer insuficiências (Mölder, 2013Mölder, Martin. (2013), “The Validity of the RILE Left–Right Index as a Measure of Party Policy”. Party Politics, v. 22, n. 1, pp. 37-48.). Em relação ao populismo, o desafio deve ser maior. Como observado na discussão da seção anterior, o próprio sentido do termo central, “povo”, é polêmico. A relação com as redes sociais (populismo digital) agrega a questão de formas discursivas que não são estruturadas como a comunicação política típica em programas de governo, campanhas eleitorais, falas parlamentares ou a produção legislativa. A próxima seção apresenta as redes semânticas como uma estratégia interessante para enfrentar esses desafios.

A Análise de Conteúdo com Emprego de Redes Semânticas

O conceito de análise de redes semânticas indica a representação matematicamente gerada da linguagem natural, capaz de capturar e expressar a relação entre as palavras que compõem determinada mensagem (Danowski, 1993Danowski, James. (1993), “Network Analysis of Message Content”. Progress in communication Sciences, v. 12, pp. 198-221.; Doerfel, 1998Doerfel, Marya. (1998), “What Constitutes Semantic Network Analysis?”. Connections, v. 21, n. 2, pp. 16-26.). Por introduzir a noção de associação vetorial multidimensional das palavras no texto, as redes semânticas são uma forma de aprendizado de máquina não supervisionado, relevante para a virada linguística mineração de texto. Originalmente, Danowski (1993)Danowski, James. (1993), “Network Analysis of Message Content”. Progress in communication Sciences, v. 12, pp. 198-221. apresentou sua proposta como uma alternativa à limitação essencial da análise de conteúdo: a utilização de categorias analíticas previamente definidas pelo pesquisador.

Ciente do desafio de operacionalizar em pesquisa empírica conceitos teoricamente derivados, a análise de conteúdo incorpora como etapa anterior e importante da construção de categorias a leitura flutuante do corpus de pesquisa (Bardin, 1995Bardin, Laurence. (1995), Análise de Conteúdo. Lisboa, Edições 70.). Não por acaso, a crítica de Pêcheux (1969)Pêcheux, Michel. (1969), Hacia el Análisis Automático del Discurso. Madrid, Gredos. sobre uma harmonia pré-estabelecida entre o produtor da mensagem e o analista de conteúdo dificilmente pode ser superada: “a construção do objeto depende do que, no espírito do analista, o levou a formulá-lo; (...) o analista finge encontrá-lo como um dado natural, o que o exime da responsabilidade” (Pêcheux, 1969Pêcheux, Michel. (1969), Hacia el Análisis Automático del Discurso. Madrid, Gredos.:28). A contribuição do uso de redes semânticas para Danovwski (1993) seria minimizar a determinação causada pelo uso de conceitos prévios13 13 . Como já repara Benoit (2020: 467), ao ressaltar a diferença entre a análise de conteúdo e a análise de discurso como “sutis”, e infere Halterman (2018), os avanços na mineração de texto desafiam a pensar nos limites disciplinares construídos em torno destes conceitos. Interpretações por redes semânticas parecem indicar no mesmo sentido, na medida em que podem ser empregadas em uma ou outra tradição. .

Atualmente, Segev (2022)Segev, Elad. (2022), “How to Conduct Semantic Network Analysis”, in Segev, Elad. (org.). Semantic Network Analysis in Social Sciences. Abingdon, Routledge. propõe que o uso de redes semânticas ajuda a superar essa dicotomia entre definição teórica e construção de conceitos a partir do empírico. Na imagem oferecida por Danowski (1993)Danowski, James. (1993), “Network Analysis of Message Content”. Progress in communication Sciences, v. 12, pp. 198-221., a rede semântica é um mapa do texto que permite a visualização de sua estrutura, dada pela interação entre palavras e/ou expressões. Assim, a investigação pode recorrer a este mapa para localizar quais grupos de palavras são potencialmente relacionados aos conceitos teóricos de interesse ou para descobrir novas questões de pesquisa emergentes a partir do empírico (Segev, 2022Segev, Elad. (2022), “How to Conduct Semantic Network Analysis”, in Segev, Elad. (org.). Semantic Network Analysis in Social Sciences. Abingdon, Routledge.:9).

Como uma ferramenta de análise de big data, redes semânticas podem ser utilizadas para o estudo de conjuntos de postagens em redes sociais. Por exemplo, Park, Chung e Park (2019) compararam a diplomacia digital de Japão e Coréia no Sul no Twitter. Annisa (2021)Annisa, Rifka. (2021), “Digital Feminist Activism”. Jurnal Sosiologi Dialektika, v. 16, n. 2, pp. 175-186. DOI: < https://dx.doi.org/10.20473/jsd.v16i2.2021.175-186>.
https://dx.doi.org/10.20473/jsd.v16i2.20...
investigou o uso do Twitter para difusão do movimento feminista de Jakarta (Indonésia), identificando os diferentes discursos que grupos ativistas articulam e como eles se relacionam. Mais relevante, contudo, é destacar que redes semânticas não apenas apresentam uma reprodução holística de documentos específicos (Segev, 2022Segev, Elad. (2022), “How to Conduct Semantic Network Analysis”, in Segev, Elad. (org.). Semantic Network Analysis in Social Sciences. Abingdon, Routledge.:5). Elas permitem compreender se, e como, um conjunto disperso de documentos, como postagens em redes sociais virtuais, produzem um discurso cuja coerência pode ser inferida. Essa utilidade é relevante a investigação do populismo digital, muitas vezes impulsionado por redes de usuários dispersos (Bartlett, Birdwell e Littler, 2011).

O voto impresso no Facebook

Enquanto plataforma, o Facebook emprega uma solução algorítmica para fornecer conteúdo aos seus usuários com o objetivo de mantê-los engajados na rede social, na qual recebem conteúdo publicitário pago e geram dados úteis para publicidade de bens, serviços, entre outros (Jurno e Andréa, 2017; Thorson et al., 2019Thorson, Kjerstin; Cotter, Kelley; Medeiros, Mel; Pak, Chankyung. (2019), “Algorithmic Inference, Political Interest, and Exposure to News and Politics on Facebook”. Information, Communication & Society, v. 24, pp. 1-18. DOI: <https://doi.org/10.1080/1369118X.2019.1642934>.
https://doi.org/10.1080/1369118X.2019.16...
). Esta solução algorítmica é baseada no comportamento prévio de seus usuários (conteúdo digitado, interações como likes, páginas seguidas, amizades, entre outros, bem como o comportamento de outros usuários relacionados), em conjunto com definições explícitas de preferências, que buscam identificar o que seria relevante para o usuário no feed de notícias da plataforma.

Thorson et al. (2019) apontam que a exposição dos usuários a conteúdo político segue essa lógica. Isso impacta as estratégias dos atores que buscam utilizar a plataforma para difusão de conteúdo político, gerando uma hierarquia de relevância dos conteúdos que circulam na rede. Essa hierarquia não é plenamente clara ou apta a ser gerida pelos usuários. Para realizar a pesquisa, no Crowdtangle (2022) foi solicitada a recuperação das 100.000 postagens públicas de maior performance no Facebook que contivessem a chave “voto impresso”, postadas no período de 2019 a 202114 14 . O acesso aos dados de postagens no Facebook é facultado para pesquisa acadêmica por meio da aplicação Crowdtangle, que disponibiliza de forma identificada as postagens de páginas ou contas públicas. As postagens são disponibilizadas de forma identificada (não anonimizada). A maior performance é uma métrica própria do Crowdtangle, que considera o número de visualizações, interações e compartilhamentos. O acesso ao Crowdtangle é facultado pelos administradores da plataforma sob justificativa prévia dos interessados. Ver: <https://help.crowdtangle.com/en/articles/4201940-about-us >. . Foram incluídos todos os tipos de postagens e, posteriormente, mantida apenas a principal entre aquelas que reproduzissem exatamente o mesmo texto.

A pesquisa apresentou três objetivos secundários: classificar os usuários responsáveis pelas postagens de acordo com a potencial adesão (positiva, negativa ou neutra) ao voto impresso; distinguir, entre estes grupos, os tópicos centrais de abordagem que realizam sobre o voto impresso; e propor uma interpretação da articulação de sentidos realizada pelos usuários favoráveis voto impresso. Foi empregada, respectivamente, uma análise de conteúdo por aprendizado de máquina supervisionado, por aprendizado de máquina não supervisionado (modelo tópico) e por rede semântica15 15 . Produzidas por meio de aplicação KH Coder em R (Higuchi, 2017). .

Classificação dos usuários do Facebook

Usualmente, as análises de conteúdo buscam classificar a posição dos atores a partir de seus textos. No caso desta pesquisa, seria classificar os usuários do Facebook a partir, por exemplo, da presença ou frequência de menções positivas, negativas ou neutras sobre o voto impresso em suas postagens; ou do uso de fórmulas discursivas populistas. Essa estratégia não seria conveniente, pois inverteria o sentido que se pretende dar à análise. Ou seja, seria necessário construir teoricamente o objeto para, depois, procurá-lo no contexto empírico. Adicionalmente, tenderia a produzir uma visão fragmentada sobre o discurso do voto impresso.

Um elemento externo ao conteúdo das postagens pode ser encontrado nos metadados disponíveis no Facebook: nome do usuário, descrição do usuário e categoria autodeclarada na plataforma. Por meio das duas primeiras fontes de dados, todos os usuários foram classificados entre potencialmente favoráveis, contrários ou neutros em relação à adoção do voto impresso. Assim, todas as postagens de um usuário “favorável” foram incluídas no discurso favorável ao voto impresso, ainda quando o tema for tangencial. Em seguida, os usuários remanescentes (neutros) foram classificados conforme a autodeclaração de categoria: mídia (agregando jornais, jornalistas, rádios, portais, etc.), político (políticos, parlamentares, candidatos, ativistas, etc.) e outros.

A classificação potencialmente favorável foi formada por menção positiva à adoção do voto impresso, ao presidente ou ao governo de Jair Bolsonaro, aos termos “direita” e “conservador”, ou menção negativa ao presidente ou ao governo de Lula da Silva ou Dilma Rousseff, aos termos “esquerda” ou “progressista”. A classificação negativa (potencialmente contrária) decorreu da inversão desses critérios. Dos 5.267 usuários da pesquisa, 526 foram classificados por meio de interpretação humana e a inteligência artificial foi empregada para classificação dos remanescentes. A classificação foi, posteriormente, extensivamente revisada.

A Tabela 1 apresenta a quantidade de usuários e postagens em cada grupo. Nota-se que os usuários considerados favoráveis à adoção do voto impresso dominaram o debate no Facebook, considerando número de usuários engajados (32% do total) e número de postagens (42%). A Figura 1 dispersa os termos empregados nas postagens do Facebook e os grupos de usuários em um gráfico de correspondência bidimensional.

Tabela 1
: Quantitativo de usuários e postagens, tema “Voto Impresso”, Facebook (2020-2021)

Figura 1
: Análise de correspondência por termos, com grupos, tema do “voto impresso”, Facebook (2020-2021)

Como poderia ser esperado, os usuários dos grupos favorável e contrário apresentam-se distantes. Além disso, o grupo mídia apresenta-se equidistante dos outros dois. Essa interpretação pode ser considerada uma validação da análise de conteúdo classificatória apresentada na seção anterior, uma vez que foi possível identificar um uso distintivo de termos no discurso realizado pelo grupo considerado favorável ao voto impresso. Dentre os termos que distinguem a atuação dos defensores do voto impresso, incluem-se características positivas atribuídas ao voto impresso (“auditável”, “transparência”, “contagem”, “pública”), elementos de legitimação política (“povo”, “deus”, “direita”, “esquerda”) e chamados ao engajamento e difusão (“nasruas”16 16 . Por exemplo, o termo “nasruas” é um outlier no mesmo quadrante do grupo favorável. Sabe-se que o termo é uma referência ao movimento social liderado por Carla Zambelli, a partir do contexto dos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff (Mendonça e Moura, 2021). De acordo com as autoras, Carla Zambelli é uma liderança expressiva ligada ao conservadorismo e ao presidente Jair Bolsonaro, com atuação destacada como deputada federal a partir de sua eleição em 2018. , “canal”, “link”).

Os usuários considerados contrários à adoção do voto impresso distinguem-se pelo emprego de termos que o caracterizam como uma ameaça à democracia (“ameaçar”, “golpe”, “tanque”). Já o grupo mídia, composto pela autodeclaração de usuários do Facebook, distingue-se pelo emprego de termos que denotam a cobertura de acontecimentos relacionados ao tema do voto impresso (“declaração”, “defender”, “ocorrer”, “analisar”, “criticar”) e referências não valorativas aos próprios acontecimentos (“discurso”, “apoiadores”, “desfile”).

Os outros dois grupos, “outro” e “política”, também dentro do esperado, ocupam uma posição intermediária, menos clara. Ainda assim, percebe-se uma posição relativamente mais próxima do campo “favorável”. Uma possível explicação para isso é a de que a maioria dos 1.771 usuários do grupo “outro” e dos 454 usuários do grupo “política” realizam uma abordagem positiva em suas postagens sobre o voto impresso.

Análise de conteúdo por modelo tópico

Como destacado anteriormente, a análise de conteúdo por aprendizado de máquina não supervisionada tem se tornado mais frequente na Ciência Política como alternativa para a análise humana de sentidos (Grimmer e Stewart, 2013Grimmer, Justin; Stewart, Brandon. (2013), “Text as Data: The Promise and Pitfalls of Automatic Content, Analysis Methods for Political Texts”. Political Analysis, v. 21, n. 3, pp. 267-297.). Esta seção utiliza um método de mineração de texto “saco de palavras”, Latent Dirichlet Allocation (LDA) (Blei, Ng e Jordan, 2003), para descortinar a construção de temas dos discursos sobre o voto impresso no Facebook. Um exemplo específico do emprego deste método para o estudo do populismo no Facebook pode ser referido em Stier et al. (2017)Stier, Sebastian; Posch, Lisa; Bleier, Arnim; Strohmaier, Markus. (2017), “When Populists Become Popular: Comparing Facebook Use by the Right-Wing Movement Pegida and German Political Parties”. Information, Communication & Society, v. 20, n. 9, pp. 1365–1388.DOI: < https://doi.org/10.1080/1369118x.2017.1328519>.
https://doi.org/10.1080/1369118x.2017.13...
, dedicado a identificar as correspondências discursivas entre um grupo considerado populista (Pegida) e os partidos políticos alemães. No Brasil, foi empregado por Ruediger e Grassi (2020b) para estudar o discurso do voto impresso em diferentes redes sociais17 17 . Uma inovação da presente pesquisa em relação ao estudo de Ruediger e Grassi (2020b), além do tempo de pesquisa, é o emprego da discriminação por autor da postagem, semelhante à realizada por Stier et al, (2017) para estudar o populismo na Alemanha. .

Cada tópico indica um conjunto de termos e expressões estatisticamente agregados a partir de sua presença relativa em postagens particulares e no conjunto de postagens da pesquisa18 18 . Com o procedimento Idatuning (Nikita, 2020), que consolida quatro métricas referentes à distribuição de tópicos, especificou-se que o modelo LDA seria mais bem treinado com uma escala de 17 tópicos. . O quadro abaixo informa os principais termos e expressões de cada tópico. Importante ressaltar que o modelo LDA produz os tópicos a partir do conjunto de textos, sem input humano prévio.

Foi calculada a associação dos quatro grupos (favorável, contrário, mídia, política e outros) com os 17 tópicos discriminados, mensurado o volume (%) de postagens associadas a cada tópico no conjunto de postagens de cada grupo conforme a estimação do modelo LDA. A abordagem foi inspirada na realizada por Stier et al. (2017Stier, Sebastian; Posch, Lisa; Bleier, Arnim; Strohmaier, Markus. (2017), “When Populists Become Popular: Comparing Facebook Use by the Right-Wing Movement Pegida and German Political Parties”. Information, Communication & Society, v. 20, n. 9, pp. 1365–1388.DOI: < https://doi.org/10.1080/1369118x.2017.1328519>.
https://doi.org/10.1080/1369118x.2017.13...
:11).

O grupo favorável apresenta maior dispersão entre o conjunto de tópicos, uma provável consequência do maior volume no total de postagens. Os tópicos que ocupam maior espaço no discurso do grupo favorável são os números 6 (6,2% das postagens), 9 (6,2%) e 14 (6,1%). O tópico 6 manifesta o apelo à fala em nome do “povo”, da “liberdade” e de “Deus”. O tópico 14 corresponde a um apelo ao engajamento em favor da aprovação da proposta do voto impresso. Já o tópico 9 apresenta a noção de que o voto impresso poderia ser auditado (em oposição ao sistema atual).

O discurso do grupo política, como expresso na análise da Figura 1, aproxima-se do favorável. A associação do grupo desponta em relação a três tópicos: o número 1 (6,6%), o 12 (6,5%) e o 9 (6,4%). Os tópicos discutem atributos da proposta do voto impresso, formas de operacionalização (tópico 12) e seus pretensos benefícios (tópicos 1 e 9). A concentração destes tópicos no grupo política pode ter duas explicações. A primeira é congregar tanto visões positivas quanto negativas sobre tais proposições, juntando usuários que não foram capturados nas categorias favorável e contrário (terceiros partidos ou posições). A segunda indicaria que, mesmo entre apoiadores do voto impresso, os classificados no grupo política prefeririam uma defesa mais técnica da matéria aos usuários do grupo favorável.

No grupo contrário ao voto impresso aparece uma concentração do tópico 16 (6,6%), que repercute o desfile militar promovido pelo Presidente Jair Bolsonaro e o associa ao risco de golpe de Estado. Outro tópico com participação relativamente elevada é o número 10 (6,3%), que trabalha com a noção de que deveriam ser apresentadas provas sobre a ocorrência de fraude eleitorais. O tópico 2 (6,3%) apresenta uma relação com o presidente Lula, possível reflexo da estratégia de construção do grupo (seção anterior). No grupo mídia, os tópicos que parecem com maior associação são os números 5 e 11 (ambos com 6,6% das postagens). Os dois tópicos parecem adotar uma postura de cobertura de fatos associados à tramitação da PEC do voto impresso.

O método possui dois limites: ao capturar um assunto do discurso, não distingue os sentidos mais profundos, por exemplo, se ele é abordado de forma apologética ou crítica; considerando a inserção de milhares de usuários na pesquisa, o método tende a gerar dados menos focados do que quando os usuários são selecionados de forma mais restritiva – como realizaram Stier et al. (2017)Stier, Sebastian; Posch, Lisa; Bleier, Arnim; Strohmaier, Markus. (2017), “When Populists Become Popular: Comparing Facebook Use by the Right-Wing Movement Pegida and German Political Parties”. Information, Communication & Society, v. 20, n. 9, pp. 1365–1388.DOI: < https://doi.org/10.1080/1369118x.2017.1328519>.
https://doi.org/10.1080/1369118x.2017.13...
. Ainda assim, essa análise reforça a proposição apresentada na seção anterior, pois identifica padrões diferentes nas postagens dos usuários classificados como favoráveis ao voto impresso – quando comparado com os classificados como contrários e como mídia. Note-se, especialmente, o tópico 6, que articula um conceito central do populismo – o apelo ao “povo”. Presente em 6,2% das postagens do grupo favorável, encontra-se com menos frequência no grupo mídia (5,2%) ou no grupo contrário (5,7%)19 19 . As estatísticas completas podem ser consultadas no material suplementar ao artigo. . A próxima seção investe em estratégia capaz de avançar nas conexões de sentido propostas pelo discurso favorável ao voto impresso no Facebook.

Análise de conteúdo por rede semântica

Nas duas últimas seções, procedimentos de análise de conteúdo por mineração de dados foram utilizados para encontrar o grupo de usuários do Facebook favoráveis ao voto impresso e verificar se, de fato, tais usuários apresentam um discurso político distinguível na plataforma. Ambas análises apresentam resultados positivos. Esta seção avança na pesquisa empregando outra estratégia de análise de conteúdo, a rede semântica, para buscar compreender os sentidos dos discursos sobre o voto impresso no Facebook. O uso da rede semântica permite que os sentidos fragmentados em postagens e usuários sejam reconstruídos como a totalidade de um discurso político (nos limites da pesquisa empírica).

A Figura 2 apresenta os grafos da rede de ocorrências compartilhadas de termos (nós20 20 . Utiliza-se, indistintamente, “nó” ou “vértice”. ) em postagens do Facebook realizadas pelos usuários classificados como “favoráveis” à adoção do voto impresso21 21 . Foi utilizado um dicionário, baseado nos termos mais frequentes, com a intenção de capturar palavras que podem ser empregadas com sentidos semelhantes (por exemplo: “confiar” e “desconfiar”) e evitar ambivalências (“Jair Bolsonaro” e “Carlos Bolsonaro”). . Os caminhos dos grafos foram estipulados de acordo com o coeficiente de similaridade de Jaccard (cor da aresta). Foi estipulado um coeficiente de similaridade mínimo de 10,5% para que um termo fosse incluído na análise. Na cor e numeração na legenda são identificados os subgrafos, definidos pela correspondência dos conceitos no nível da postagem (random walks).

Figura 2
: Análise de rede semântica, tema do “voto impresso” entre usuários classificados como “favoráveis”, Facebook (2020-2021).

Sob as especificações dadas, foi gerada na rede semântica um longo grafo (caminho) conectando os nós marginais como “fraude”, “liberdade”, “biakicis”, “trump”, “judiciário”, “vacina”, “fakenews”. A análise abaixo seleciona e debate os clusters de interesse. Exemplos extraídos das postagens no Facebook são apresentados como forma de contextualizar as inferências estatísticas.

a) O cluster 01, “urna”

O vértice “urna” apresenta a construção crítica em torno do sistema eletrônico de votação e contabilização dos votos, segundo a qual ele teria sido fraudado ou seria passível de fraude. Assim, não sendo merecedor de confiança: “Enquanto a urna eletrônica for uma ‘caixa preta’, inauditável, seremos manipulados pelos únicos que têm acesso a ela, e se negam a divulgar os resultados corretos” (Crowdtangle, 2022). O nó “des/confiança” é especialmente relacionado a “eletrônico” (0,19) e “urna” (0,18), no termo “urna eletrônica”, mas transborda para o órgão eleitoral (“TSE”: 0,13) e para o próprio sistema eleitoral (“sistemaeleitoral”: 0,12).

O vértice “urna” também se conecta à resposta apresentada para o problema de fraude e desconfiança: o eleitor conferirá ou depositará o comprovante de voto impresso na urna. Por exemplo:

O voto impresso não significa retrocesso, na verdade ele é o caminho para termos resultados confiáveis nas próximas eleições. O objetivo desta PEC é garantir direitos constitucionais e a democracia para os brasileiros [...] Eleitor vota na urna eletrônica. [..] Voto é impresso é checado pelo eleitor. O eleitor deposita o voto impresso em uma urna física (Crowdtangle, 2022).

Nesse ponto, o discurso apresenta um esforço em fixar o processo prático e afastar a ideia de que o voto impresso seria um retrocesso por deixar de utilizar urnas eletrônicas, ou que favoreceria a compra de votos por propiciar um comprovante ao eleitor: “ninguém leva pra casa o comprovante, ele será depositado em uma urna lacrada. Isso está bem claro, quem é contra, torce pela fraude inauditável” (Crowdtangle, 2022). Fragmentos do texto da PEC 135 foram bastante articulados com este mesmo objetivo.

b) O cluster 03, “PEC”

O cluster 03 emerge do nó “congresso” e captura a seção diretamente atinente à “PEC” (Proposta de Emenda à Constituição 135, de 2019) de autoria da Deputada Federal Bia Kicis (“biakicis”), que propõe a adoção do voto impresso. A deputada também é presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. A construção central do cluster indica a ligação entre “congresso”, “aprovar” e “PEC”, de significado evidente. O nó “rejeitar” apreende o fato de que a PEC foi rejeitada em votação na Comissão Especial (“comissaoespecial”) que tratava do assunto e no plenário da Câmara dos Deputados (“câmara”). O termo “PEC” ocorre em 1.764 postagens consideradas favoráveis, 14,3% do total. O cluster 03 conecta-se ao caminho do grafo principal pela forte relação entre “congresso” e “STF” (0,18).

c) O cluster 05, “povo”

O cluster 05 parte do vértice “povo”. O termo é bastante frequente, ocorrendo em 2.087 postagens, ou 16,9% do total. Está diretamente relacionado com “votoimpresso” (0,16). Sua relação com “vontade” (0,13) decorre da noção de que o voto impresso é uma vontade do povo: “Queremos voto impresso. Só é contra a vontade do povo, quem pretende roubar votos nas eleições ‘estão com medo?’, diz Bolsonaro ao defender o voto impresso” (Crowdtangle, 2022). O termo “auditar”, como será visto, é empregado como sucedâneo e principal atributo do voto impresso.

O termo “povo” aparece simultaneamente como sujeito passivo, cuja vontade seria defendida pelo voto impresso, e como sujeito ativo na aprovação da proposta:

Milhões de pessoas vão a as ruas no Brasil dar “grito de liberdade”. Neste sábado (1º) a presença do povo brasileiro nas ruas das principais cidades surpreendeu até os mais otimistas. A pauta comum das manifestações é o apoio ao Governo Bolsonaro para garantir a liberdade, a constituição e o voto impresso auditável (Crowdtangle, 2022).

Algumas das principais associações do nó “povo” ocorrem com “rua” (0,14), “STF” (0,14), “Bolsonaro” (0,14), “democracia” (0,12), “protesto” (0,11). A construção geral de sentido denota que protestos populares nas ruas seriam democráticos, favoráveis à democracia, ao Bolsonaro e à proposta de voto impresso, em oposição ao STF: “temos que ir as ruas exigir o voto impresso urgente e cancelar essa votação fraudulenta. Com a pressão do povo o STF vai ter que fazer isso!” (Crowdtangle, 2022).

d) O cluster 04, “eleição”

O cluster 04 é central no caminho do grafo principal, ligando diferentes seções, inclusive, diretamente, o cluster 01 (“urna” e “eleição”) e o cluster 05 (“povo” e “auditar”). Nele são encontrados os termos mais frequentes, presentes em parcela significativa das postagens: “auditar” (5.121 – 41,6%), “Bolsonaro” (3.707 – 30,1%) e “eleição” (4.190 – 34%). Ressalve-se que as palavras da chave de pesquisa no Crowdtangle foram excluídas (“voto” e “impresso”). O cluster 04 captura uma mensagem central, segundo a qual o voto impresso seria passível de auditoria e, portanto, mais transparente que a computação eletrônica dos votos. Este valor é constantemente associado à democracia, como na seguinte postagem: “Sou a favor do voto auditável, quanto mais transparência, melhor. A hora do voto é o auge da nossa democracia não pode haver dúvidas” (Crowdtangle, 2022).

A construção de sentido indica que, como o voto impresso é mais transparente, logo seria um elemento favorável à lisura do sistema eleitoral e da democracia como processo eleitoral: “Expus nos EUA a situação das eleições no Brasil. Qual ditador quer mais transparência nas eleições? Além disso, mostrei vídeos do povo nas ruas pedindo o voto impresso e o apoio ao presidente Bolsonaro através das motociatas” (Crowdtangle, 2022). Por ser o principal patrocinador do voto impresso, o Presidente Bolsonaro é situado como um defensor da democracia.

O nó “eleição” apresenta uma função mediadora entre os nós “Bolsonaro” (0,22) e “TSE” (0,21). A relação direta entre os dois termos é significativamente menos frequente (0,12). Muitas postagens utilizam os termos repercutindo falas do Presidente, por exemplo: “Então galera Bolsonaro cogita desistir da eleição de 2022 se não tiver voto impresso A apoiadores, o presidente voltou a dizer que há fraude nas urnas eletrônicas e fez novas acusações a ministro Barroso, do TSE” (Crowdtangle, 2022). Objeto de desconfiança, o TSE aparece como um oponente do voto impresso, especialmente com referências ao ministro Luís Roberto Barroso, que atuou no período como seu presidente. Existe elevada associação do nó “Barroso” e “TSE” (0,24), “fraude” (0,11) e “urna” (0,10).

Além de responder à defesa, por Barroso, da ausência de fraudes eleitorais associadas às urnas eletrônicas, o discurso favorável ao voto impresso constrói a noção de que Barroso é um inimigo do governo Bolsonaro e de que suas ações seriam ilegítimas, pois politicamente orientadas. Literalmente, na seguinte postagem:

o presidente Jair Bolsonaro disse que ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Luís Roberto Barroso, “quer a volta da roubalheira, da fraude eleitoral do Brasil [...]. Ele não tinha que estar no STF, tinha que estar no parlamento”, disse. Não é a primeira vez que o presidente da República ataca o ministro do STF. Ele o considera um inimigo do seu governo. (Crowdtangle, 2022)

e) O cluster 07, “impeachment”

Assim como o cluster tratado anteriormente, o subgrafo 07 também é central no caminho do grafo principal. Ele concentra referências ao Supremo Tribunal Federal (“STF”), ministros do órgão (“Mendes” e “Moraes”), “Lula”, “mídia” e “impeachment”. O uso dos termos é empregado para construção de uma unidade de atores antagonizados pelos apoiadores do voto impresso. Assim, a extensão do confronto é expandida de “TSE” e “barroso” até alcançar o “STF” e outros membros da corte.

Saliente-se que o Ministro Barroso atuou tanto no TSE quanto no STF, o que permite a produção de uma coesão de agência. Nesse sentido, o discurso associa o STF a um pretenso complô para eleição de Lula em 2022: “STFInimigoDoBrasil [...] os que soltaram Lula são os mesmos que são contra o voto impresso” (Crowdtangle, 2022). Em uma referência esporádica, a contraposição a Barroso é situada em torno de uma identidade coletiva conservadora:

Como podemos confiar no Presidente do TSE depois que ele mostra nessa entrevista que não é imparcial? Onde está a democracia da parte dele? Vejam nessa reportagem o que ele pensa de nós Conservadores. (Crowdtangle, 2022).

Outra postagem amplia as associações de Barroso para inferir, diretamente, uma relação entre ele, Lula e a mídia: “Quem de verdade é capaz de acreditar que o Ministro Barroso fala a verdade sobre não haver fraudes nas urnas quando Lula tem o mesmo discurso dele. [...] Barroso mente, Lula mente, a mídia insiste em replicar a mentira deles e o povo quer o voto auditável” (Crowdtangle, 2022).

O termo central do subgrafo 07 é “impeachment”, que ocorre em 573 postagens (4,6% dentre as de usuários favoráveis). Ele está associado a referências ao STF e seus integrantes (“Mendes”, 0,21; “STF”, 0,18; “Toffoli”, 0,11; “Moraes”, 0,09), ao termo “Lula” (0,15) e a termos que fazem referências à justificação do conceito (“instituição”, 0,15; “lei”, 0,14; “nação”, 0,14; “crime”, 0,13; “i/legítimo”, 0,13; “constituição”, 0,11).

O termo impeachment é empregado em relação a ministros do STF no contexto de protestos em 2021: “Supremo é o povo! [...] Dia 7 de Setembro, Brasil nas ruas. Pela nossa democracia, liberdade, impeachment dos Ministros Alexandre de Morais e Barroso e pelo Voto Impresso Auditavel Já” (Crowdtangle, 2022). O nó também capturou postagens referentes ao impeachment de Dilma Rousseff ou menções aos pedidos de impeachment protocolados contra o presidente Bolsonaro na Câmara dos Deputados. Não obstante, o uso do termo “impeachment” aparece principalmente como contraponto ao hipotético complô entre órgãos do judiciário, Lula e a mídia.

A partir dos vértices “Tofolli” e “Mendes” emergem uma série de subgrafos com termos marginais, considerando a frequência. O conjunto parece denotar construções voltadas para a justificação do antagonismo entre os defensores do voto impresso e órgãos ou membros do poder judiciário. Pode-se encontrar vários exemplos de termos empregados neste sentido, como: “legitimidade”, “legalidade”, “crime”, “constituição”, “pátria”, “comunismo”, “ameaça”.

O mais importante é o subgrafo 02, derivado do termo “i/legítimo”. Um de seus usos ocorre em uma notícia falsa (Aguiar, 2020Aguiar, Tiago. (2020), “Texto Anônimo que Critica STF é Atribuído Falsamente a Juíza do Rio”. O Estado de São Paulo, 21 de maio de 2020. Disponível em < https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/texto-anonimo-que-critica-stf-e-atribuido-falsamente-a-juiza-do-rio>.
https://politica.estadao.com.br/blogs/es...
) que aponta a perda de legitimidade do STF por assumir competências do poder legislativo. A postagem afirma: “foram vocês que ao invés de reforçarem o papel legítimo de corte constitucional do STF, o transformaram numa leniente vara penal vip para ricos e poderosos” (Crowdtangle, 2022). O termo “i/legítimo” ocorre em 182 postagens (1,4%), o que revela ser marginal.

A figura 3 retoma a análise semântica do conjunto de postagens de usuários considerados favoráveis ao voto impresso, apresentando a centralidade dos nós calculada por meio da medida de intermediação (betweenness). Ela indica a importância do termo (nó) para a conexão dos termos em determinado cluster e entre os clusters de toda a rede. Conforme Segev (2022)Segev, Elad. (2022), “How to Conduct Semantic Network Analysis”, in Segev, Elad. (org.). Semantic Network Analysis in Social Sciences. Abingdon, Routledge., a centralidade por intermediação permite identificar tanto a ideia essencial implicada em cada cluster, quanto a ampla narrativa presente em um corpo de pesquisa.

Figura 3
: Redes semânticas (betweenness), tema do “voto impresso” entre usuários classificados como “favoráveis”, Facebook (2020-2021).

A imagem da figura 3 repete a rede semântica da figura 2, mas apresentando o nível de centralidade (betweenness). Os vértices mais relevantes por essa ótica correspondem ao caminho do grafo principal, ou seja: “eleição”, “TSE”, “STF”, “impeachment”, “Moraes”, “Tofolli”, “i/legítimo”, “nação”. A partir dos últimos vértices, o grafo principal se expande para vários subgrafos que fazem alusão a questões ideológicas (“comunista”, “pátria”, “nação”), jurídicas (“lei”, “direito”) ou contextuais (“pandemia”). A análise reforça a percepção de que o cerne do discurso favorável ao voto impresso, o tema que traz coesão aos elementos mais periféricos, é a contraposição a órgãos do poder judiciário. Essa contraposição possui um elemento ativo, de reação, no termo “impeachment”, apresentado como uma reação à situação de complô e uma repetição dos acontecimentos relacionados ao impeachment de Dilma Rousseff, em 2016.

Discussão: a ameaça populista à democracia do discurso do voto impresso

Como apresentado na segunda seção deste artigo, a trajetória recente do debate sobre o populismo parece repisar uma tensão entre os elementos majoritários (soberania popular) e de controle dos regimes liberais-representativos. Quando encontra a noção de crises da democracia representativa ou processos de desdemocratização (Norris e Inglehart, 2019Norris, Pippa; Inglehart, Ronald. (2019), Cultural Backlash: Trump, Brexit, and Authoritarian Populism. Cambridge, Cambridge University.; Mounk, 2018Mounk, Yascha. (2018), O Povo contra a Democracia. São Paulo, Companhia das Letras.), o conceito de populismo é utilizado para demarcar uma posição desconectada ou de ameaça ao pluralismo.

No entanto, tal proposição ainda é imprecisa no que concerne à ameaça à democracia que o populismo pode apresentar, pois as democracias representativas não dispensam a expectativa de representação do povo enquanto maioria. Procurando uma resposta operacional para este problema, na segunda seção do artigo foi apresentada uma proposição de trabalho estrita, segundo a qual o populismo pode ser considerado uma ameaça à democracia: o populismo é uma ameaça à democracia liberal-representativa quando as contradições entre a soberania popular e seu conteúdo liberal-representativo são reconstruídas como um antagonismo necessário no quadro do discurso que propõe para interpretar a realidade (seção 2, supra).

Cabe avaliar se o discurso do grupo considerado favorável ao voto impresso no Facebook configura-se como populista22 22 . Pode-se adotar elementos da definição ideacional do populismo (Mudde 2017; Mudde e Kaltwasser, 2017) e do discurso político populista (Charaudeau 2009, 2011, 2011), entre a literatura já referida. e, especificamente, um discurso populista que ameaça a democracia de acordo com a definição operacional referida.

Primeiramente, observa-se a manipulação do conceito de “povo”, pelo discurso favorável ao voto impresso, de forma destacada em relação ao universo de postagens no Facebook. Isso é evidenciado pela proximidade do termo “povo” e o discurso favorável (Figura 1); pela associação entre o discurso favorável e o tópico 6 na análise tópica (Quadro 1); e pelo exame do cluster 5 na análise por rede semântica. O termo povo é empregado tanto em conotação ativa, ligando os defensores do voto impresso ao povo que protesta nas ruas, quanto passiva, como unidade comunitária protegida. Neste sentido, é construída a unidade de “nós, o povo”, o que pode identificar o discurso populista em contraste ao apelo pela representação popular em uma perspectiva programática.

Quadro 1
: Termos mais frequentes em 17 tópicos

Em segundo lugar, observa-se que o conceito de “povo” é empregado em oposição ao de elite, embora este polo esteja difuso. Seus principais elementos são capturados no cluster 7 da análise por rede semântica, que inclui ministros do TSE, do STF, Lula e a mídia. Vale destacar que o fato de o conceito de elite ser elusivo é compatível ao esperado por Charaudeau (2009)Charaudeau, Patrick. (2009), “Reflexiones para el Análisis del Discurso Populista”. Discurso & Sociedad, v. 3, n. 2, pp. 253-279.. Outra característica do discurso populista é o emprego de teoria da conspiração ou complô. A lógica do complô é exercitada no discurso favorável ao voto impresso, identificando a associação entre estes atores em diferentes momentos: a imprensa que critica Jair Bolsonaro, o TSE que se manifesta favoravelmente à segurança das urnas eletrônicas, a imprensa que reproduz a posição do TSE, a imprensa que indica a vantagem eleitoral de Lula na disputa presidencial de 2022, o STF que “solta” o ex-presidente Lula ou que “persegue” políticos aliados a Bolsonaro.

Ruediger e Grassi (2020a) estudaram a discussão sobre o voto impresso no Facebook e repararam o esforço de seus defensores em atrair STF e TSE para o campo da polêmica. Esse elemento, corroborado pela presente pesquisa, já autoriza considerar o discurso favorável ao voto impresso uma ameaça à democracia. Acrescenta-se, a partir da ótica teórica utilizada neste estudo, que esta é uma ameaça à democracia qualificada por uma estratégia discursiva populista. Ela é identificável no esforço de amalgamar, com o emprego de uma teoria da conspiração, os órgãos gestores das eleições (TSE), a mídia e atores políticos, enquanto uma elite com unidade de propósito e em antagonismo a “nós, o povo”. Além disso, percebe-se pela mensuração de intermediação (Figura 3) que os termos relativos aos órgãos gestores das eleições e seus titulares estão no cerne do discurso favorável ao voto impresso.

Coerente com as expectativas apresentadas por Charaudeau (2009)Charaudeau, Patrick. (2009), “Reflexiones para el Análisis del Discurso Populista”. Discurso & Sociedad, v. 3, n. 2, pp. 253-279. e Pirro e Taggart (2022)Pirro, Andrea; Taggart, Paul. (2022), “Populists in Power and Conspiracy Theories”. Party Politics, v. 0, n. 0, pp. 1-11. DOI: < https://doi.org/10.1177/13540688221077071>.
https://doi.org/10.1177/1354068822107707...
, o emprego da lógica da conspiração no discurso do voto impresso auxilia o processo de amalgamar os atores que os usuários favoráveis visam antagonizar. Permite, também, um argumento que amarra os atores da elite a partir da pretensa unidade de propósito deles: oposição ao voto impresso e, logo, oposição ao povo. Qual seria, contudo, o valor tutelado por “nós, o povo” e que é ameaçado pela conspiração da elite? De acordo com Charaudeau (2009)Charaudeau, Patrick. (2009), “Reflexiones para el Análisis del Discurso Populista”. Discurso & Sociedad, v. 3, n. 2, pp. 253-279. este seria um elemento do discurso populista, ou pode ser considerado o fundamento sobre o qual a produção de emoções ativadoras da ação seria potencializada (Hawkins e Kaltwasser, 2019).

Candidatos ao posto de valores tutelados como “nação”, “deus”, “pátria”, “corrupção”, “conservador” são periféricos (Figura 3) e não são frequentes. Percebe-se que as características do voto impresso, “transparência”, “democracia” e “liberdade”, cumprem o papel de valores tutelados por “nós, o povo”. O emprego desses termos recebe um duplo sentido que apela às mobilizações políticas recentes no Brasil que são, ao seu turno, atribuídas à gênese do governo de Jair Bolsonaro23 23 . Tais elementos parecem compatíveis aos observados por Pirro e Taggart (2022), segundo os quais os governos populistas podem empregar teorias da conspiração com a intenção de preservar o clima de crise política no qual emergem. Pode ser uma chave de pesquisa interessante buscar compreender como o discurso do voto impresso repisa elementos das crises e mobilizações políticas anteriores à eleição de Jair Bolsonaro à Presidência. . O próprio papel de Jair Bolsonaro catalisa estas conexões, tanto que o objetivo do voto impresso é indistinto do objetivo de reeleição em diferentes postagens.

Nota-se que esse núcleo de valores é construído não em paralelo ou isentamente em relação aos processos da representação política brasileiros concretos, mas em contradição a eles. “Nós, o povo”, no discurso populista do voto impresso, pode titular os valores de “transparência”, “democracia” e “liberdade” apenas na medida em que rejeita a existência deles na urna eletrônica, no TSE e nos indivíduos que respondem pelo órgão. Portanto, o discurso do voto impresso emprega uma lógica populista para contrapor o que considera a legítima aspiração do povo (transparência, democracia, liberdade) aos processos liberais representativos da democracia brasileira, cumprindo com o requisito estrito no qual o discurso populista apresenta uma ameaça à democracia.

Três comentários finais são relevantes a partir do quadro introdutório montado na discussão teórica apresentada na segunda seção do artigo: (a) a caracterização do fenômeno populista na política brasileira atual em relação à democracia; (b) o elemento do populismo digital em relação às fake news; e (c) as condições de emergência do populismo.

A caracterização de movimentos em apoio a Jair Bolsonaro como populistas não é uma novidade na literatura. Cesarino (2020)Cesarino, Leticia. (2020), “How Social Media Affords Populist Politics: Remarks on Liminality Based on the Brazilian Case”. Trabalhos em Linguística Aplicada, v. 59, n. 1, pp. 404-427. DOI: < https://doi.org/10.1590/01031813686191620200410>.
https://doi.org/10.1590/0103181368619162...
observa que as dinâmicas de interações provocadas pelas redes sociais parecem adequadas à mecânica discursiva do populismo, ponto que exemplifica analisando grupos favoráveis a Jair Bolsonaro no Whatsapp, Twitter e Facebook. Em outra pesquisa, Tamaki e Fuks (2020)Tamaki, Eduardo Ryo; Fuks, Mario. (2020), “Populism in Brazil’s 2018 General Elections: an Analysis of Bolsonaro’s Campaign Speeches”. Lua Nova, n. 109, pp. 103-127. DOI: < https://doi.org/10.1590/0102-103127/109>.
https://doi.org/10.1590/0102-103127/109...
concluem que os pronunciamentos eleitorais de Jair Bolsonaro possuem os conceitos centrais do discurso populista24 24 . Embora o tema do nacionalismo possa ser considerado como algo que mobiliza a definição de povo versus elite no populismo (Mudde e Kaltwasser, 2017:481), Tamaki e Fuks (2020) optam por ressalvar que o nacionalismo aparece mais nas falas eleitorais de Jair Bolsonaro do que o populismo. Dialogando com esta constatação, Ricci, Izumi e Moreira (2021) apontam que nas falas do mandato de Bolsonaro o elemento nacional perde importância. . Ricci, Izumi e Moreira (2021) apontam que as falas públicas de Jair Bolsonaro em seu mandato são marcados por um populismo excludente, compreendido pela lógica da oposição entre elite e um conceito restritivo de povo. Espera-se que a presente pesquisa tenha contribuído para esta compreensão e para aprofundar o entendimento da ameaça do populismo à democracia brasileira.

A literatura ressalta o emprego de fake news nos discursos populistas virtuais (Rhodes, 2022Rhodes, Samuel. (2022), “Filter Bubbles, Echo Chambers, and Fake News: How Social Media Conditions Individuals to Be Less Critical of Political Misinformation”. Political Communication, v. 39, n. 1, pp. 1-22. DOI: < https://doi.org/10.1080/10584609.2021.1910887>.
https://doi.org/10.1080/10584609.2021.19...
; Gerbaudo, 2018Gerbaudo, Paolo. (2018), “Social Media and Populism: an Elective Affinity?”. Media, Culture & Society, v. 40, n. 5, pp. 745-753. DOI: < https://doi.org/10.1177/0163443718772192>.
https://doi.org/10.1177/0163443718772192...
). No Brasil, o tema das fake news sobre fraude eleitoral em redes sociais digitais foi relatado no cenário das eleições de 2018. O presente estudo não focou no tema das fake news, de forma que não foram utilizados meios para identificar seu emprego no Facebook. Ainda assim, a questão perpassa a pesquisa tanto teórica quanto empiricamente, pois é interiorizado como um tema marginal no próprio discurso favorável ao voto impresso (Figuras 2 e 3). As pesquisas de Gomes e Dourado (2019)Gomes, Wilson da Silva; Dourado, Tatiana. (2019), “Fake News, um Fenômeno de Comunicação Política entre Jornalismo, Política e Democracia”. Estudos em Jornalismo e Mídia, v. 16, n. 2, pp. 33–45. Chaves e Braga (2019)Chaves, Mônica; Braga, Adriana. (2019), “A Pauta da Desinformação: ‘Fake News’ e Análise de Categorizações de Pertencimento na Eleição Presidencial Brasileira em 2018”. Brazilian Journalism Research, v. 15, n. 3, pp. 474-495. e Recuero (2020)Recuero, Raquel. (2020), “Fraude nas Urnas: Estratégias Discursivas de Desinformação no Twitter nas Eleições 2018”. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, v. 20, n. 3, pp. 383-406. DOI: < https://doi.org/10.1590/1984-6398202014635>.
https://doi.org/10.1590/1984-63982020146...
ajudam a compreender o quanto a teoria da conspiração desenvolvida no discurso populista pode recorrer às fake news25 25 . Gomes e Dourado (2019) identificam que os promotores de tais conteúdos são páginas e usuários próximo ao perfil identificado como os apoiadores do voto impresso no Facebook. Chaves e Braga (2019:519) analisam recorrentes referências falsas segundo as quais a fraude eleitoral teria a finalidade de prejudicar Jair Bolsonaro, inclusive articulada por indivíduos próximos. Recuero (2020) investiga as estratégias de legitimação destas fake news. .

Ao seu turno, o debate sobre o populismo pode ajudar a compreender as motivações e a eficiência das fake news da fraude eleitoral. Os elementos justificadores que Recuero (2020)Recuero, Raquel. (2020), “Fraude nas Urnas: Estratégias Discursivas de Desinformação no Twitter nas Eleições 2018”. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, v. 20, n. 3, pp. 383-406. DOI: < https://doi.org/10.1590/1984-6398202014635>.
https://doi.org/10.1590/1984-63982020146...
identifica como moralizadores e racionalizadores estão conectados à construção discursiva populista: a fraude como violação da democracia ou da soberania popular; a racionalização como evidência do complô. Gomes e Dourado indicam que a fake news de fraude eleitoral “como sintomas e como parte especial de um fenômeno, que começa com o ataque sistemático à credibilidade das instituições “credenciadas” para determinar o que é verdadeiro” (2019:43). Ainda que tal fenômeno possa ter conotação mais ampla, no quadro específico das fake news sobre fraude eleitoral ela é compreensível enquanto estratégia discursiva populista. Sendo um problema essencialmente político, como os autores concluem, as fake news sobre fraude eleitoral são parte de uma estratégia de mobilização política – o que foi reparado, anteriormente, por Cesarino (2020)Cesarino, Leticia. (2020), “How Social Media Affords Populist Politics: Remarks on Liminality Based on the Brazilian Case”. Trabalhos em Linguística Aplicada, v. 59, n. 1, pp. 404-427. DOI: < https://doi.org/10.1590/01031813686191620200410>.
https://doi.org/10.1590/0103181368619162...
.

Outro ponto destacado foi a condição de emergência do populismo, geralmente descrita como uma situação de crise. Como destacam Santos, Castro e Hoffmann (2021), a emergência do populismo no Brasil pode ser compreendida a partir do retrocesso de valores culturais favoráveis ao regime democrático. Os autores destacam, por exemplo, o papel da operação Lava Jato como fator de desorganização de uma democracia já frágil. Para Bresser-Pereira (2020)Bresser-Pereira, Luiz Carlos. (2020), “A Democracia Não Está Morrendo: Foi o Neoliberalismo que Fracassou”. Lua Nova, n. 111, pp. 51-79. DOI: < https://doi.org/10.1590/0102-051079/111>.
https://doi.org/10.1590/0102-051079/111...
e Araujo e Bresser-Pereira (2018)Araujo, Cicero; Bresser-Pereira, Luiz Carlos. (2018), “Para Além do Capitalismo Neoliberal: As Alternativas Políticas”. Dados, v. 61, n. 3, pp. 551-579. DOI: < https://doi.org/10.1590/001152582018167>.
https://doi.org/10.1590/001152582018167...
o populismo de direita é uma reação ao fracasso econômico do neoliberalismo, gerador de exclusão social e disseminador da sensação de insegurança entre os cidadãos. A análise de Barreiros, Miaguti e Poty (2021) coaduna com essa visão, acrescentando elementos concernentes ao sistema-mundo atual. Esses são exemplos de situações concretas em âmbito cultural, social ou econômico que podem caracterizar a situação de crise de representação democrática que o populismo explora. Aponta-se, dessa forma, o limite da compreensão do discurso político populista sem considerar as bases concretas de sua emergência.

Considerações finais

A defesa do voto impresso no Brasil está conectada ao fenômeno do populismo como ameaça à democracia. O discurso produzido pelos usuários favoráveis ao voto impresso no Brasil promove a desconfiança injustificada contra o sistema eleitoral a partir de uma teoria da conspiração que amalgama órgãos e titulares do processo eleitoral brasileiro com opositores político-partidários do governo Bolsonaro e a mídia. Esses adversários comporiam uma elite perversa contra a qual os defensores do voto impresso se insurgem em nome de valores como “transparência”, “democracia” e “liberdade”. Órgãos, atores e processos do sistema eleitoral brasileiro são alçados à condição de obstáculos à realização da soberania popular.

Portanto, o discurso do voto impresso é uma ameaça populista à democracia não apenas no sentido lato, de inadequação aos valores do pluralismo. Esse discurso busca diretamente mobilizar indivíduos contra órgãos gestores, atores e processos do sistema democrático brasileiro. A eficiência do discurso favorável ao voto impresso reside em conferir propósito e unidade úteis à mobilização política, mas extrapola o quadro da competição democrática e se volta contra as condições concretas de sua realização no Brasil.

A utilização de mineração de dados e redes semânticas na análise de conteúdo aplicada às redes sociais digitais permite tratar empiricamente um grande volume de texto/dados. As redes semânticas podem ser úteis no esforço de interpretar os sentidos articulados pela sobreposição de manifestações de diferentes sujeitos, quando não está presente um comunicador unificado (o partido, o candidato ou o mandatário, para o programa de governo, a propaganda eleitoral ou o discurso político). Espera-se que esta pesquisa corrobore com o campo de estudo interessado em compreender como as interações em uma rede social digital ecoam pretensões estranhas às instituições democráticas. A Ciência Política pode encontrar nas redes sociais digitais uma abertura para investigar comportamentos e atitudes ocultas sob o véu da normalidade institucional.

Referências

  • Aguiar, Tiago. (2020), “Texto Anônimo que Critica STF é Atribuído Falsamente a Juíza do Rio”. O Estado de São Paulo, 21 de maio de 2020. Disponível em < https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/texto-anonimo-que-critica-stf-e-atribuido-falsamente-a-juiza-do-rio>.
    » https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/texto-anonimo-que-critica-stf-e-atribuido-falsamente-a-juiza-do-rio
  • Annisa, Rifka. (2021), “Digital Feminist Activism”. Jurnal Sosiologi Dialektika, v. 16, n. 2, pp. 175-186. DOI: < https://dx.doi.org/10.20473/jsd.v16i2.2021.175-186>.
    » https://dx.doi.org/10.20473/jsd.v16i2.2021.175-186
  • Araujo, Cicero; Bresser-Pereira, Luiz Carlos. (2018), “Para Além do Capitalismo Neoliberal: As Alternativas Políticas”. Dados, v. 61, n. 3, pp. 551-579. DOI: < https://doi.org/10.1590/001152582018167>.
    » https://doi.org/10.1590/001152582018167
  • Aristóteles. (1997), Política Brasília, UNB.
  • Bardin, Laurence. (1995), Análise de Conteúdo Lisboa, Edições 70.
  • Barreiros, Daniel; Miaguti, Caroline; Poty, Ítalo Barreto. (2021), “Capitalismo, Democracia e a Extrema-Direita: Uma Análise Comparativa Baseada no Duplo Movimento Polanyiano”. Revista de História Comparada, v. 15, n. 1, pp. 300-336.
  • Bartlett, Jamie; Birdwell, Jonathan; Littler, Mark. (2011), The New Face of Digital Populism Londres, Demos.
  • Benoit, Ken. (2020), “Text as Data: an Overview”, in Curini, Luigi; Franzese, Robert (orgs.), The Sage Handbook of Research Methods in Political Science and International Relations. Londres, Sage.
  • Blei, David; Ng, Andrew; Jordan, Michael; (2003), “Latent Dirichlet Allocation”. Journal of Machine Learning Research, n. 3, pp. 993-1022.
  • Bresser-Pereira, Luiz Carlos. (2020), “A Democracia Não Está Morrendo: Foi o Neoliberalismo que Fracassou”. Lua Nova, n. 111, pp. 51-79. DOI: < https://doi.org/10.1590/0102-051079/111>.
    » https://doi.org/10.1590/0102-051079/111
  • Cassimiro, Paulo Henrique. (2021), “Os Usos do Conceito de Populismo no Debate Contemporâneo e Suas Implicações sobre a Interpretação da Democracia”. Revista Brasileira de Ciência Política, v. 35, e242084. DOI: < https://doi.org/10.1590/0103-3352.2021.35.242084>.
    » https://doi.org/10.1590/0103-3352.2021.35.242084
  • Cesarino, Leticia. (2020), “How Social Media Affords Populist Politics: Remarks on Liminality Based on the Brazilian Case”. Trabalhos em Linguística Aplicada, v. 59, n. 1, pp. 404-427. DOI: < https://doi.org/10.1590/01031813686191620200410>.
    » https://doi.org/10.1590/01031813686191620200410
  • Charaudeau, Patrick. (2009), “Reflexiones para el Análisis del Discurso Populista”. Discurso & Sociedad, v. 3, n. 2, pp. 253-279.
  • Charaudeau, Patrick. (2011), Discurso Político São Paulo, Contexto.
  • Chaves, Mônica; Braga, Adriana. (2019), “A Pauta da Desinformação: ‘Fake News’ e Análise de Categorizações de Pertencimento na Eleição Presidencial Brasileira em 2018”. Brazilian Journalism Research, v. 15, n. 3, pp. 474-495.
  • Çinar, Ipek; Stokes, Susan; Uriibe, Andres. (2020), “Presidential Rhetoric and Populism”. Presidential Studies Quarterly, v. 50, n. 2, pp. 240-263.
  • Constant, Benjamin. (1989), “Da Liberdade dos Antigos Comparada à dos Modernos”. Revista Filosofia Política, v. 2, pp. 1-7.
  • Cristiani, André; Lieira, Douglas; Camargo, Heloisa. (2020), “A Sentiment Analysis of Brazilian Elections Tweets”. Symposium On Knowledge Discovery, Mining And Learning (Kdmile). Porto Alegre, Sociedade Brasileira de Computação, 2020. p. 153-160. DOI: < https://doi.org/10.5753/kdmile.2020.11971>.
    » https://doi.org/10.5753/kdmile.2020.11971
  • Crowdtangle Team. (2022), CrowdTangle. Menlo Park, Facebook. [2022-01-13-18-13-55-BRT].
  • Dahl, Robert. (1989), Um Prefácio à Teoria Democrática Rio de Janeiro, Zahar.
  • Dai, Yaoyao. (2022), Measuring Populism in Contexts: A Supervised Approach with Word Embedding Models. Abu Dhabi, New York University. Disponível em < https://yaoyaodai.github.io/files/Dai_Populism.pdf >.
    » https://yaoyaodai.github.io/files/Dai_Populism.pdf
  • Danowski, James. (1993), “Network Analysis of Message Content”. Progress in communication Sciences, v. 12, pp. 198-221.
  • Doerfel, Marya. (1998), “What Constitutes Semantic Network Analysis?”. Connections, v. 21, n. 2, pp. 16-26.
  • Egerod, Benjamin; Klemmensen, Robert. (2020), “Scaling Political Positions Fron Text: Assumptions, Methods and Pitfalls”, in: Curini, Luigi; Franzese, Robert. (orgs.), The Sage Handbook of Research Methods in Political Science and International Relations. Londres, Sage.
  • Fraser, Nancy. (2016), “Progressive Neoliberalism Versus Reactionary Populism: A Choice that Feminists Should Refuse”. Nordic Journal of Feminist and Gender Research, v. 24, n. 4, pp. 281-284. DOI: < https://doi.org/10.1080/08038740.2016.1278263>.
    » https://doi.org/10.1080/08038740.2016.1278263
  • Freeden, Michael. (2006), Ideologies and Political Theory Oxford, Oxford University.
  • Gelado-Marcos, Roberto; Puebla-Martínez, Belén; Rubira-García, Rainer. (2019), “Twitter, the End of Bipartisan Politics and the Rise of Populism. The Spanish Campaign in May 2015”. Revista de Sociologia e Política, v. 27, n. 71, e007. DOI: < https://doi.org/10.1590/1678-987319277107>.
    » https://doi.org/10.1590/1678-987319277107
  • Gerbaudo, Paolo. (2018), “Social Media and Populism: an Elective Affinity?”. Media, Culture & Society, v. 40, n. 5, pp. 745-753. DOI: < https://doi.org/10.1177/0163443718772192>.
    » https://doi.org/10.1177/0163443718772192
  • Gomes, Wilson da Silva; Dourado, Tatiana. (2019), “Fake News, um Fenômeno de Comunicação Política entre Jornalismo, Política e Democracia”. Estudos em Jornalismo e Mídia, v. 16, n. 2, pp. 33–45.
  • Grimmer, Justin; Stewart, Brandon. (2013), “Text as Data: The Promise and Pitfalls of Automatic Content, Analysis Methods for Political Texts”. Political Analysis, v. 21, n. 3, pp. 267-297.
  • Halterman, Andrew. (2018), “Word Order-Aware Text Processing: a Third Generation of Text as Data in Political Science”. MIT Working Paper. Disponível em < https://andrewhalterman.com/publication/prospectus/>.
    » https://andrewhalterman.com/publication/prospectus/
  • Hawkins, Kirk; Aguilar, Rosario; Silva, Bruno Castanho; Jenne, Erin; Kocijan, Bojana; Katwasser, Cristóbal Rovina. (2019), “Measuring Populist Discourse: The Global Populism Database”. Paper presented at the 2019 EPSA Annual Conference, 2019, Belfast.
  • Hawkins, Kirk; Aguilar, Rosario; Silva, Bruno Castanho; Jenne, Erin; Kocijan, Bojana; Kaltwasser, Cristóbal Rovira. (2019), “Introduction: The Ideational Approach”, in Hawkins, Kirk; Carlin, Ryan; Littvay, Levente; Kaltwasser, Cristóbal Rovira. (orgs.), The Ideational Approach to Populism: Concept, Theory, and Analysis. Londres, Nova York, Routledge.
  • Hermet, Guy. (2001), Les Populismes dans lê Monde: une Histoire Sociologique XIXe – Xxe Sciècle. Paris, Payard.
  • Higuchi, Koichi. (2017), “New Quantitative Text Analytical Method and KH Coder”. Japanese Sociological Review, v. 68, pp. 334-350.
  • Janis, Irving. (1982), “O Problema da Validação da Análise de Conteúdo”, in Lasswell, Harold. (org.), A Linguagem da Política. Brasília, Universidade de Brasília, pp. 53-76.
  • Jurno, Amanda Chevtchouk; D’Andréa, Carlos Frederico de Brito. (2017), “(In)visibilidade Algorítmica no ‘Feed de Notícias’ do Facebook”. Contemporânea: Comunicação e Cultura, v. 15, n. 2, pp. 463-484.
  • Klingemann, Hans-Dieter; Hofferbert, Richard; Budge, Ian. (1994), Parties, Policies, and Democracy Boulder, San Francisco; Oxford, Westview.
  • Laclau, Ernesto; Mouffe, Chantal. (2015), Hegemonia e Estratégia Socialista: por uma Política Democrática Radical. São Paulo, Intermeios.
  • Lasswell, Harold. (org.). (1982), A Linguagem da Política Brasília, Universidade de Brasília.
  • Laver, Michael; Garry, John. (2000), “Estimating Policy Positions from Political Texts”. American Journal of Political Science, v. 44, n. 3, pp. 619-634.
  • Laver, Michael; Garry, John; Benoit, Kenneth; Garry, John. (2003), “Extracting Policy Positions from Political Texts Using Words as Data”. American Political Science Review, v. 97, n. 2, pp. 311-331.
  • Levitsky, Steven; Ziblatt, Daniel. (2018), Como as Democracias Morrem. Rio de Janeiro, Zahar.
  • Lowe, Will. (2008), “Understanding Wordscores”. Political Analysis, v. 16, pp. 356-371.
  • Manucci, Luca. (2017), “Populism and the Media”, in Kaltwasser, Cristóbal Rovia; Taggart, Paul; Espejo, Paulina Ochoa; Ostiguy, Pierre (orgs.), The Oxford Handbook of Populism. Oxford, Oxford University.
  • Mastropaolo, Alfio. (2008), “Politics against Democracy”, in Albertazzi, Daniele. Mcdonnell, Duncan (orgs.), Twenty-First Century Populism. New York, Palgrave.
  • Matos, Fernanda; Magalhães, Lúcia; Souza, Renato. (2020), “Recuperação e Classificação de Sentimentos de Usuários do Twitter em Período Eleitoral”. Informação & Informação, v. 25, n. 1, pp. 92-114.
  • Mendonça, Amanda; Moura, Fernanda. (2021), “Mais Empoderada Que Eu? Antifeminismo e Desdemocratização no Brasil Atual”. Communitas, v. 5, n. 9, pp. 9-23.
  • Mendonça, Daniel de Resende; Almeida, Erica Simone. (2021), “A Especificidade do Populismo de Esquerda”. História, v. 40, pp. e2021061. DOI: < https://doi.org/10.1590/1980-4369e2021061>.
    » https://doi.org/10.1590/1980-4369e2021061
  • Mölder, Martin. (2013), “The Validity of the RILE Left–Right Index as a Measure of Party Policy”. Party Politics, v. 22, n. 1, pp. 37-48.
  • Moreira, Davi. (2020), “Com a Palavra os Nobres Deputados: Ênfase Temática dos Discursos dos Parlamentares Brasileiros”. Dados, v. 63, n. 1. DOI: < https://doi.org/10.1590/001152582020204>.
    » https://doi.org/10.1590/001152582020204
  • Morozov, Eveny. (2018), Big Tech: a Ascensão dos Dados e a Morte da Política. São Paulo, Ubu.
  • Mounk, Yascha. (2018), O Povo contra a Democracia. São Paulo, Companhia das Letras.
  • Mudde, Cas. (2017), “Populism: an ideational approach”, in Kaltwasser, Cristóbal Rovia; Taggart, Paul; Espejo, Paulina Ochoa; Ostiguy, Pierre (orgs.), The Oxford Handbook of Populism. Oxford, Oxford University.
  • Nikita, Murzintcev. (2020), Select Number of Topics for LDA Model. Disponível em < https://cran.r-project.org/web/packages/ldatuning/vignettes/topics.html#references>.
    » https://cran.r-project.org/web/packages/ldatuning/vignettes/topics.html#references
  • Norris, Pippa; Inglehart, Ronald. (2019), Cultural Backlash: Trump, Brexit, and Authoritarian Populism. Cambridge, Cambridge University.
  • Pasquino, Gianfranco. (2008), “Populism and Democracy”, in: Albertazzi, Daniele; Mcdonnell, Duncan (orgs.), Twenty-First Century Populism. New York, Palgrave.
  • Pêcheux, Michel. (1969), Hacia el Análisis Automático del Discurso Madrid, Gredos.
  • Pirro, Andrea; Taggart, Paul. (2022), “Populists in Power and Conspiracy Theories”. Party Politics, v. 0, n. 0, pp. 1-11. DOI: < https://doi.org/10.1177/13540688221077071>.
    » https://doi.org/10.1177/13540688221077071
  • Przeworski, Adam. (2020), Crises da Democracia. São Paulo, Zahar.
  • Ranciere, Jacques. (2014), O Ódio à Democracia São Paulo, Boitempo.
  • Recuero, Raquel. (2020), “Fraude nas Urnas: Estratégias Discursivas de Desinformação no Twitter nas Eleições 2018”. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, v. 20, n. 3, pp. 383-406. DOI: < https://doi.org/10.1590/1984-6398202014635>.
    » https://doi.org/10.1590/1984-6398202014635
  • Rhodes, Samuel. (2022), “Filter Bubbles, Echo Chambers, and Fake News: How Social Media Conditions Individuals to Be Less Critical of Political Misinformation”. Political Communication, v. 39, n. 1, pp. 1-22. DOI: < https://doi.org/10.1080/10584609.2021.1910887>.
    » https://doi.org/10.1080/10584609.2021.1910887
  • Ricci, Paolo; Izumi, Mauricio; Moreira, Davi. (2021), “O Populismo no Brasil (1985-2019): Um Velho Conceito a Partir de uma Nova Abordagem”. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 36, n. 107, pp. e3610707. DOI: < https://doi.org/10.1590/3610707/2021>.
    » https://doi.org/10.1590/3610707/2021
  • Rosanvallon, Pierre. (1998), Le Peuple Introuvable Paris, Gallimard.
  • Rosanvallon, Pierre. (2006), La Contre-Démocratie: la Politique à L´Âge de la Défiance. Paris, Éditions du Seuil.
  • Ruediger, Marco Aurelio. (Coord.). (2022), “Desinformação On-Line e Contestação das Eleições: Quinze Meses de Postagens sobre Fraude nas Urnas Eletrônicas e Voto Impresso Auditável no Facebook”. Policy paper Rio de Janeiro, FGV DAPP.
  • Ruediger, Marco Aurelio; Grassi, Amaro. (coord.). (2020a), “Desinformação On-Line e Processos Políticos: a Circulação de Links sobre Desconfiança no Sistema Eleitoral Brasileiro no Facebook e no YouTube (2014-2020)”. Policy paper. Rio de Janeiro, FGV DAPP.
  • Ruediger, Marco Aurelio; Grassi, Amaro. (Coord.). (2020b), “O Ecossistema Digital nas Eleições Municipais de 2020 no Brasil: o Buzz da Desconfiança no Sistema Eleitoral no Facebook, YouTube e Twitter”. Policy paper. Rio de Janeiro, FGV DAPP.
  • Salles, Nara. (2019), “Programs and Parties: Rethinking Electoral Competition Through Analysis of Brazilian ‘Grotões’”. Brazilian Political Science Review, v. 13, n. 2. DOI: < https://doi.org/10.1590/1981-3821201900020003>.
    » https://doi.org/10.1590/1981-3821201900020003
  • Salles, Nara; Guarnieri, Fernando. (2019), “Estratégia Eleitoral nos Municípios Brasileiros: Componente Programático e Alinhamento Partidário”. Revista de Sociologia e Política, v. 27, n. 72, pp. e001. DOI: < https://doi.org/10.1590/1678-987319277201>.
    » https://doi.org/10.1590/1678-987319277201
  • Sampaio, Rafael; Lycarião, Diógenes. (2018), “Eu Quero Acreditar! Da Importância, Formas de Uso e Limites dos Testes de Confiabilidade na Análise de Conteúdo”. Revista de Sociologia e Política, v. 26, n. 66, pp. 31-47. DOI: < https://doi.org/10.1590/1678-987318266602>.
    » https://doi.org/10.1590/1678-987318266602
  • Santos, Everton Rodrigo; Castro, Henrique Carlos de Oliveira; Hoffmann, Fábio. (2021), “A Democracia Brasileira e seus Inimigos”. Revista Katálysis, v. 24, n. 1, pp. 127-138. DOI: < https://doi.org/10.1590/1982-0259.2021.e73472>.
    » https://doi.org/10.1590/1982-0259.2021.e73472
  • Segev, Elad. (2022), “How to Conduct Semantic Network Analysis”, in Segev, Elad. (org.). Semantic Network Analysis in Social Sciences Abingdon, Routledge.
  • Park, Sejung; Chung, Dahoon; Park, Han Woo. (2019), “Analytical Framework for Evaluating Digital Diplomacy Using Network Analysis and Topic Modeling: Comparing South Korea and Japan”. Information Processing & Management, v. 56, n. 4, pp. 1468-1483. DOI: < https://doi.org/10.1016/j.ipm.2018.10.021>.
    » https://doi.org/10.1016/j.ipm.2018.10.021
  • Silva, Lucas Garcia da; Linhares, Bianca de Freitas. (2020), “As Perspectivas Liberal e não Liberal do Populismo: Notas Introdutórias”. Aurora, v. 12, n. 36, pp. 65-78.
  • Stier, Sebastian; Posch, Lisa; Bleier, Arnim; Strohmaier, Markus. (2017), “When Populists Become Popular: Comparing Facebook Use by the Right-Wing Movement Pegida and German Political Parties”. Information, Communication & Society, v. 20, n. 9, pp. 1365–1388.DOI: < https://doi.org/10.1080/1369118x.2017.1328519>.
    » https://doi.org/10.1080/1369118x.2017.1328519
  • Tamaki, Eduardo Ryo; Fuks, Mario. (2020), “Populism in Brazil’s 2018 General Elections: an Analysis of Bolsonaro’s Campaign Speeches”. Lua Nova, n. 109, pp. 103-127. DOI: < https://doi.org/10.1590/0102-103127/109>.
    » https://doi.org/10.1590/0102-103127/109
  • Tarouco, Gabriela; Madeira, Rafael Machado. (2013), “Partidos, Programas e o Debate sobre Esquerda e Direita no Brasil”. Revista de Sociologia e Política, v. 21, n. 45, pp.149–165. DOI: < https://doi.org/10.1590/S0104-44782013000>.
    » https://doi.org/10.1590/S0104-44782013000
  • Tarouco, Gabriela; Madeira, Rafael Machado; Vieira, Soraia. (2022), “Manifestos and Ideology: Methodological Issues and Applications to Latin America”. Revista Brasileira de Ciência Política, n. 37, pp. e248474. DOI: < https://doi.org/10.1590/0103-3352.2022.37.248474>.
    » https://doi.org/10.1590/0103-3352.2022.37.248474
  • Thorson, Kjerstin; Cotter, Kelley; Medeiros, Mel; Pak, Chankyung. (2019), “Algorithmic Inference, Political Interest, and Exposure to News and Politics on Facebook”. Information, Communication & Society, v. 24, pp. 1-18. DOI: <https://doi.org/10.1080/1369118X.2019.1642934>.
    » https://doi.org/10.1080/1369118X.2019.1642934
  • Urbinati, Nadia. (2019), “Political Theory of Populism”. Annual Review of Political Science, v. 22, pp. 111-127. DOI: < https://doi.org/10.1146/annurev-polisci-050317-070753>.
    » https://doi.org/10.1146/annurev-polisci-050317-070753
  • Wiedemann, Gregor; Fedtke, Cornelia. (2021), “From Frequency Counts to Contextualized Word Embeddings: The Saussurean Turn in Automatic Content Analysis”, in Engel, Uwe; Quan-Haase, Anabel; Liu, Sunny Xun; Lyberg, Lars. (orgs.), Handbook of Computational Social Science: Volume 2. Londres, Routlegde.

Notas

  • 1
    . Agradeço às/aos pareceristas da Dados, cujas contribuições permitiram extenso desenvolvimento da pesquisa, e à equipe editorial pela cuidadosa leitura do artigo.
  • 2
    . Mudde e Kaltawasser (2017) e Mudde (2017)Mudde, Cas. (2017), “Populism: an ideational approach”, in Kaltwasser, Cristóbal Rovia; Taggart, Paul; Espejo, Paulina Ochoa; Ostiguy, Pierre (orgs.), The Oxford Handbook of Populism. Oxford, Oxford University. trabalham com a noção de conceitos centrais na definição de populismo. Estes seriam os conceitos opostos de povo e elite, mais uma definição concebida como a vontade geral do povo. Mudde (2017)Mudde, Cas. (2017), “Populism: an ideational approach”, in Kaltwasser, Cristóbal Rovia; Taggart, Paul; Espejo, Paulina Ochoa; Ostiguy, Pierre (orgs.), The Oxford Handbook of Populism. Oxford, Oxford University. acrescenta o conceito de ideologia, ainda que frouxa. O problema deste adendo é que a noção de populismo é aplicada a uma diversidade de diferentes ideologias (liberais, conservadoras, socialistas, por exemplo). Dizer que o populismo é uma ideologia não informa nada sobre seu conteúdo ou sobre os conceitos centrais que o definiriam (Freeden, 2006Freeden, Michael. (2006), Ideologies and Political Theory. Oxford, Oxford University.). Por outro lado, se por ideologia implica-se uma determinada relação formal entre povo e elite articulada por uma preconcepção da vontade geral, nada é agregado aos três conceitos indicados inicialmente. Basta dizer, como Charaundeau (2009), ou Mudde e Kaltawasser (2017), que o populismo pode estar associado a uma ideologia. Portanto, opta-se por não empregar o conceito de ideologia na definição de populismo.
  • 3
    . Os autores referidos que utilizam o termo “populismo” com uma conotação não negativa estão na tradição inaugurada por Laclau e Mouffe (2015)Laclau, Ernesto; Mouffe, Chantal. (2015), Hegemonia e Estratégia Socialista: por uma Política Democrática Radical. São Paulo, Intermeios.. Diferente da proposta positivista da análise de conteúdo, essa visão utiliza amplamente o conceito de “discurso” para indicar uma articulação estruturadora de significados e sentidos que seria, ela própria, constitutiva do social (Laclau e Mouffe, 2015Laclau, Ernesto; Mouffe, Chantal. (2015), Hegemonia e Estratégia Socialista: por uma Política Democrática Radical. São Paulo, Intermeios.:167, 178).
  • 4
    . Outra referência na literatura atual socialmente difundida é Levitsky e Ziblatt (2018)Levitsky, Steven; Ziblatt, Daniel. (2018), Como as Democracias Morrem. Rio de Janeiro, Zahar.. Embora o tema central de desdemocratização pelo abuso das instituições democráticas esteja presente neste trabalho, os autores não concentram a noção de populismo na explicação.
  • 5
    . Autores como Mastropaolo (2008)Mastropaolo, Alfio. (2008), “Politics against Democracy”, in Albertazzi, Daniele. Mcdonnell, Duncan (orgs.), Twenty-First Century Populism. New York, Palgrave. e Norris e Inglehart (2019Norris, Pippa; Inglehart, Ronald. (2019), Cultural Backlash: Trump, Brexit, and Authoritarian Populism. Cambridge, Cambridge University.: 65) opõem o populismo ao pluralismo, estando o segundo termo no lugar da própria democracia representativa liberal e da admissão da pluralidade na política. Cf. Cassimiro (2021)Cassimiro, Paulo Henrique. (2021), “Os Usos do Conceito de Populismo no Debate Contemporâneo e Suas Implicações sobre a Interpretação da Democracia”. Revista Brasileira de Ciência Política, v. 35, e242084. DOI: < https://doi.org/10.1590/0103-3352.2021.35.242084>.
    https://doi.org/10.1590/0103-3352.2021.3...
    .
  • 6
    . Da mesma forma, o liberalismo ameaça a democracia no reverso de tal antagonismo, quando a legitimidade do apelo à soberania popular nas democracias representativas é impedida (Rancière, 2014).
  • 7
    . Este é um conceito estrito, que não exclui outras compreensões sobre a tensão entre populismo e democracia, como a contemporaneidade da soberania popular e do pluralismo político.
  • 8
    . Hawkins e Kaltwasser (2019) associam o fenômeno do populismo a três mecanismos cognitivos. O primeiro é o incentivo para a atribuição de culpa por acontecimentos difusos a determinadas elites, por exemplo, governamentais. O segundo é a discriminação da sociedade em grupos de identidades contrapostas: nós, definidos em termos de povo, maioria; e os outros, definidos como uma elite que se contrapõe ao povo. Por fim, o terceiro mecanismo cognitivo do populismo é a produção de emoções negativas, como medo e raiva, direcionadas contra a elite.
  • 9
    . Para as aplicações computacionais mais utilizadas, respectivamente wordscores e wordfish, pode ser consultado Egerod e Klemmensen (2020)Egerod, Benjamin; Klemmensen, Robert. (2020), “Scaling Political Positions Fron Text: Assumptions, Methods and Pitfalls”, in: Curini, Luigi; Franzese, Robert. (orgs.), The Sage Handbook of Research Methods in Political Science and International Relations. Londres, Sage..
  • 10
    . A pesquisa de Tucker, Capps e Shamir (2020), sobre falas parlamentares nos Estados Unidos, abrangendo 138 anos e quase um milhão de casos.
  • 11
    . A questão da confiabilidade na análise de conteúdo com interpretação humana é sistematizada por Sampaio e Lycarião (2018)Sampaio, Rafael; Lycarião, Diógenes. (2018), “Eu Quero Acreditar! Da Importância, Formas de Uso e Limites dos Testes de Confiabilidade na Análise de Conteúdo”. Revista de Sociologia e Política, v. 26, n. 66, pp. 31-47. DOI: < https://doi.org/10.1590/1678-987318266602>.
    https://doi.org/10.1590/1678-98731826660...
    .
  • 12
    . No Brasil, algumas pesquisas sobre temas políticos foram realizadas por investigadores de outras áreas do conhecimento. Cristiani, Lieira e Camargo (2020) e Matos, Magalhães e Souza (2020) analisaram as postagens no Twitter durante a campanha eleitoral de 2018. Essencialmente, foram classificadas as menções às candidaturas como positivas, negativas ou neutras. O objetivo foi mensurar expressões de opiniões dos usuários em relação às candidaturas.
  • 13
    . Como já repara Benoit (2020Benoit, Ken. (2020), “Text as Data: an Overview”, in Curini, Luigi; Franzese, Robert (orgs.), The Sage Handbook of Research Methods in Political Science and International Relations. Londres, Sage.: 467), ao ressaltar a diferença entre a análise de conteúdo e a análise de discurso como “sutis”, e infere Halterman (2018)Halterman, Andrew. (2018), “Word Order-Aware Text Processing: a Third Generation of Text as Data in Political Science”. MIT Working Paper. Disponível em < https://andrewhalterman.com/publication/prospectus/>.
    https://andrewhalterman.com/publication/...
    , os avanços na mineração de texto desafiam a pensar nos limites disciplinares construídos em torno destes conceitos. Interpretações por redes semânticas parecem indicar no mesmo sentido, na medida em que podem ser empregadas em uma ou outra tradição.
  • 14
    . O acesso aos dados de postagens no Facebook é facultado para pesquisa acadêmica por meio da aplicação Crowdtangle, que disponibiliza de forma identificada as postagens de páginas ou contas públicas. As postagens são disponibilizadas de forma identificada (não anonimizada). A maior performance é uma métrica própria do Crowdtangle, que considera o número de visualizações, interações e compartilhamentos. O acesso ao Crowdtangle é facultado pelos administradores da plataforma sob justificativa prévia dos interessados. Ver: <https://help.crowdtangle.com/en/articles/4201940-about-us >.
  • 15
    . Produzidas por meio de aplicação KH Coder em R (Higuchi, 2017)Higuchi, Koichi. (2017), “New Quantitative Text Analytical Method and KH Coder”. Japanese Sociological Review, v. 68, pp. 334-350..
  • 16
    . Por exemplo, o termo “nasruas” é um outlier no mesmo quadrante do grupo favorável. Sabe-se que o termo é uma referência ao movimento social liderado por Carla Zambelli, a partir do contexto dos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff (Mendonça e Moura, 2021)Mendonça, Amanda; Moura, Fernanda. (2021), “Mais Empoderada Que Eu? Antifeminismo e Desdemocratização no Brasil Atual”. Communitas, v. 5, n. 9, pp. 9-23.. De acordo com as autoras, Carla Zambelli é uma liderança expressiva ligada ao conservadorismo e ao presidente Jair Bolsonaro, com atuação destacada como deputada federal a partir de sua eleição em 2018.
  • 17
    . Uma inovação da presente pesquisa em relação ao estudo de Ruediger e Grassi (2020b), além do tempo de pesquisa, é o emprego da discriminação por autor da postagem, semelhante à realizada por Stier et al, (2017) para estudar o populismo na Alemanha.
  • 18
    . Com o procedimento Idatuning (Nikita, 2020)Nikita, Murzintcev. (2020), Select Number of Topics for LDA Model. Disponível em < https://cran.r-project.org/web/packages/ldatuning/vignettes/topics.html#references>.
    https://cran.r-project.org/web/packages/...
    , que consolida quatro métricas referentes à distribuição de tópicos, especificou-se que o modelo LDA seria mais bem treinado com uma escala de 17 tópicos.
  • 19
    . As estatísticas completas podem ser consultadas no material suplementar ao artigo.
  • 20
    . Utiliza-se, indistintamente, “nó” ou “vértice”.
  • 21
    . Foi utilizado um dicionário, baseado nos termos mais frequentes, com a intenção de capturar palavras que podem ser empregadas com sentidos semelhantes (por exemplo: “confiar” e “desconfiar”) e evitar ambivalências (“Jair Bolsonaro” e “Carlos Bolsonaro”).
  • 22
    . Pode-se adotar elementos da definição ideacional do populismo (Mudde 2017Mudde, Cas. (2017), “Populism: an ideational approach”, in Kaltwasser, Cristóbal Rovia; Taggart, Paul; Espejo, Paulina Ochoa; Ostiguy, Pierre (orgs.), The Oxford Handbook of Populism. Oxford, Oxford University.; Mudde e Kaltwasser, 2017) e do discurso político populista (Charaudeau 2009, 2011Charaudeau, Patrick. (2009), “Reflexiones para el Análisis del Discurso Populista”. Discurso & Sociedad, v. 3, n. 2, pp. 253-279., 2011Charaudeau, Patrick. (2011), Discurso Político. São Paulo, Contexto.), entre a literatura já referida.
  • 23
    . Tais elementos parecem compatíveis aos observados por Pirro e Taggart (2022)Pirro, Andrea; Taggart, Paul. (2022), “Populists in Power and Conspiracy Theories”. Party Politics, v. 0, n. 0, pp. 1-11. DOI: < https://doi.org/10.1177/13540688221077071>.
    https://doi.org/10.1177/1354068822107707...
    , segundo os quais os governos populistas podem empregar teorias da conspiração com a intenção de preservar o clima de crise política no qual emergem. Pode ser uma chave de pesquisa interessante buscar compreender como o discurso do voto impresso repisa elementos das crises e mobilizações políticas anteriores à eleição de Jair Bolsonaro à Presidência.
  • 24
    . Embora o tema do nacionalismo possa ser considerado como algo que mobiliza a definição de povo versus elite no populismo (Mudde e Kaltwasser, 2017:481), Tamaki e Fuks (2020)Tamaki, Eduardo Ryo; Fuks, Mario. (2020), “Populism in Brazil’s 2018 General Elections: an Analysis of Bolsonaro’s Campaign Speeches”. Lua Nova, n. 109, pp. 103-127. DOI: < https://doi.org/10.1590/0102-103127/109>.
    https://doi.org/10.1590/0102-103127/109...
    optam por ressalvar que o nacionalismo aparece mais nas falas eleitorais de Jair Bolsonaro do que o populismo. Dialogando com esta constatação, Ricci, Izumi e Moreira (2021) apontam que nas falas do mandato de Bolsonaro o elemento nacional perde importância.
  • 25
    . Gomes e Dourado (2019)Gomes, Wilson da Silva; Dourado, Tatiana. (2019), “Fake News, um Fenômeno de Comunicação Política entre Jornalismo, Política e Democracia”. Estudos em Jornalismo e Mídia, v. 16, n. 2, pp. 33–45. identificam que os promotores de tais conteúdos são páginas e usuários próximo ao perfil identificado como os apoiadores do voto impresso no Facebook. Chaves e Braga (2019Chaves, Mônica; Braga, Adriana. (2019), “A Pauta da Desinformação: ‘Fake News’ e Análise de Categorizações de Pertencimento na Eleição Presidencial Brasileira em 2018”. Brazilian Journalism Research, v. 15, n. 3, pp. 474-495.:519) analisam recorrentes referências falsas segundo as quais a fraude eleitoral teria a finalidade de prejudicar Jair Bolsonaro, inclusive articulada por indivíduos próximos. Recuero (2020)Recuero, Raquel. (2020), “Fraude nas Urnas: Estratégias Discursivas de Desinformação no Twitter nas Eleições 2018”. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, v. 20, n. 3, pp. 383-406. DOI: < https://doi.org/10.1590/1984-6398202014635>.
    https://doi.org/10.1590/1984-63982020146...
    investiga as estratégias de legitimação destas fake news.

Disponibilidade de dados

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Nov 2023
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    28 Abr 2022
  • Revisado
    2 Ago 2022
  • Aceito
    20 Set 2022
Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) R. da Matriz, 82, Botafogo, 22260-100 Rio de Janeiro RJ Brazil, Tel. (55 21) 2266-8300, Fax: (55 21) 2266-8345 - Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: dados@iesp.uerj.br